Levantei o preço do Corolla novo mais barato de oito mercados, converti tudo a dólar corrente e dividi pelo PIB per capita de cada país. O resultado é este:...

Levantei o preço do Corolla novo mais barato de oito mercados, converti tudo a dólar corrente e dividi pelo PIB per capita de cada país. O resultado é este:

O americano compra o carro com três meses de renda média. O paquistanês precisa de treze anos. Até aí, nenhuma surpresa: o denominador é quinze vezes menor.

A surpresa está no numerador. O Corolla brasileiro custa 40% mais que o americano em dólar. O sul-africano custa 53% mais. O paquistanês, com toda a renda do país no chão, custa 8% menos que o americano, e não um terço. O carro não fica barato onde a renda é baixa. Ele fica caro.

Isso contraria a intuição de quem viaja e acha tudo barato no país pobre. E é aqui que Balassa-Samuelson e Baumol ajudam a organizar as ideias.

O resultado é que o país rico não é caro em tudo. Ele é caro em serviços. E o país pobre não é barato em tudo. Ele é barato em serviços. O preço relativo entre o carro e o corte de cabelo é radicalmente diferente em Karachi e em Nova York, e a diferença vem do lado do corte de cabelo, não do lado do carro.

Um turista americano em Karachi vê tudo barato porque quase tudo que ele consome numa viagem é não comercializável: hotel, refeição, táxi, guia. Ele não compra um Corolla. Se comprasse, descobriria que o carro custa quase o mesmo que em casa, com uma renda quinze vezes menor para pagá-lo.

Baumol dá o mecanismo. Numa orquestra, tocar um quarteto de Mozart exige hoje o mesmo número de músicos e o mesmo tempo que exigia em 1780. A produtividade não subiu. Mas o salário do músico subiu, porque ele poderia estar trabalhando na indústria, onde a produtividade subiu muito. O custo do concerto sobe sem que o concerto melhore.

Essa é a doença de custos, e ela é um sintoma de riqueza, não de doença. Serviço caro nos Estados Unidos é a sombra de uma indústria produtiva. Serviço barato no Paquistão é a sombra de uma indústria que não conseguiu puxar salário nenhum para cima.

Junte as duas peças e você tem a estrutura de preços relativos de um país pobre: trabalho humano barato, máquina cara. É exatamente o inverso do que uma economia precisa para se desenvolver.

Se o Corolla é comercializável, por que o preço não converge? Porque a lei do preço único vale para a mercadoria posta no porto, não para o carro emplacado na garagem. Entre um ponto e outro entra tudo aquilo que o país pobre faz mal.

Entra a escala. O Corolla paquistanês ainda é a décima primeira geração, montada localmente em volume pequeno, com uma cadeia de fornecedores rasa. Custo unitário alto é consequência aritmética de mercado pequeno.

Entra a tarifa. Volume pequeno e proteção alta se alimentam mutuamente: protege-se para viabilizar a montagem local, a montagem local nunca ganha escala, e a proteção se torna permanente. O Brasil conhece esse ciclo há sessenta anos.

Entra o tributo. IPI, ICMS, PIS e Cofins fazem do automóvel um objeto de arrecadação no Brasil, o que é uma escolha fiscal defensável e uma escolha industrial cara.

E entra a margem de distribuição, que é não comercializável e, portanto, deveria ser mais barata no país pobre. É, mas pesa pouco diante dos outros três.

O ponto de fundo é que a complexidade da estrutura produtiva aparece duas vezes na mesma conta. Ela determina a renda, que é o denominador. E determina o custo de produzir localmente um bem sofisticado, que é boa parte do numerador. Países que não sabem fazer coisas difíceis pagam caro por elas duas vezes.

Existe uma leitura confortável desses números que diz: use PPP. Ajustado por paridade de poder de compra, o paquistanês é bem menos pobre, porque o aluguel e a comida dele custam pouco. É verdade e é relevante para medir bem-estar.

Só que não se compra máquina em dólar PPP. Bem de capital, componente eletrônico, equipamento médico, licença de software, tudo isso é pago à taxa de câmbio de mercado. O país pobre precisa importar precisamente a categoria de bens em que sua desvantagem é maior, e paga por ela com uma moeda que vale pouco e com uma pauta exportadora de baixo valor agregado.

Daí a armadilha. Acumular capital exige comprar caro aquilo que você não sabe fabricar, com a renda que a sua incapacidade de fabricar gerou. A tabela do Corolla é uma versão doméstica e visível desse problema. Quando um brasileiro olha o preço de um sedã médio e acha absurdo, ele está lendo, sem saber, o índice de complexidade da própria economia.

Não é que o carro esteja caro. É que a nossa hora de trabalho vale pouco, e a nossa capacidade de produzir coisas difíceis vale menos ainda.

Nota metodológica: preços de tabela de agosto de 2026, versão de entrada de cada mercado, sem frete e sem emplacamento. A versão não é idêntica em toda parte: no Japão e na África do Sul só há híbrido, na Alemanha só o hatch, no Paquistão ainda a décima primeira geração. PIB per capita nominal do FMI (WEO, abril de 2026; Paquistão, estimativa de 2025). Câmbio: taxas de referência do BCE de 28 de agosto de 2026.