Sistema do Banco Central entrou na mira do tarifaço dos EUA e expôs uma disputa que envolve soberania digital, cartões e poder financeiro.

O Pix entrou na mira do governo de Donald Trump em meio ao novo tarifaço contra o Brasil e passou a ocupar uma disputa internacional sobre quem controla os sistemas de pagamento e os fluxos digitais de dinheiro no mundo. Com informações da Folha de S. Paulo.

A pressão envolve mais do que a competição entre o sistema brasileiro e intermediários financeiros como bandeiras de cartão. O debate alcança influência geopolítica, soberania digital e capacidade de países criarem infraestruturas públicas de pagamento fora do controle de empresas sediadas nos Estados Unidos.

Empresas americanas como Visa, Mastercard, Google e Apple tendem a seguir decisões do governo dos EUA quando há sanções ou restrições. Esse tipo de controle permite a Washington negar acesso a canais bancários formais em determinados casos, como ocorreu com Francesca Albanese, relatora especial da ONU, após críticas à política americana em Gaza.

A advogada Fernanda Garibaldi, diretora-executiva da Zetta, associação que reúne bancos digitais e empresas de tecnologia financeira, afirmou que a disputa não se limita ao setor financeiro. “É geopolítica pura. A disputa sobre o Pix ou infraestruturas digitais públicas de pagamento não é só sobre intermediários financeiros, e sim sobre poder”, disse.

No Brasil, o Pix opera como uma infraestrutura crítica gerida pelo Banco Central. O sistema não é uma empresa pública nem privada: funciona como uma rede pública de mercado, aberta, regulada e usada por bancos, fintechs, empresas de cartão e adquirentes.

Após o governo Trump confirmar a aplicação de uma tarifa de 25%, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, comparou o Pix ao saneamento básico ao rebater críticas ao sistema. “Seria mais ou menos como tentar dizer que criar saneamento básico comprometeria receita de caminhão-pipa”, afirmou.

Lançado em 2020, o Pix já tem mais de 170 milhões de usuários cadastrados, cerca de 80% da população brasileira. Em junho, o sistema registrou 7,7 bilhões de transações; de 85% a 90% delas passaram pelo SPI, o Sistema de Pagamentos Instantâneos, infraestrutura tecnológica central do Banco Central.

As bandeiras de cartão também cresceram no período de expansão do Pix. Em 2025, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões, alta de 10,1%, segundo a Abecs, associação do setor, com 48,1 bilhões de operações. Integrantes do governo Lula atribuem às bandeiras parte da pressão americana contra o Pix e avaliam que elas já enfrentam risco de imagem no Brasil.

A Mastercard afirmou que considera o Pix uma inovação importante e que segue comprometida em investir no país; a Visa disse que acompanha a investigação do Escritório do Representante do Comércio dos EUA e dialoga com autoridades brasileiras e americanas.

O Banco Central já firmou acordos de cooperação técnica com mais de 47 bancos centrais para exportar a tecnologia do Pix e ajudar outros países a desenvolver sistemas próprios. Lideranças do setor defendem que o Congresso reúna as normas do sistema em uma legislação única, enquanto o BC enfrenta cortes orçamentários para custeio, investimento e supervisão.

Entre as funcionalidades em operação ou expansão estão Pix Automático, Pix Cobrança, Pix por Aproximação, Pix Agendado, Pix Saque e Pix Troco. No Pix Crédito, bancos e fintechs oferecem parcelamento de forma independente, mas o Banco Central ainda não regulamentou a modalidade e vetou o uso do nome “Pix parcelado”.

Na Índia, um instrumento local de transferência também é largamente utilizado, abrangendo uma população de 500 milhões de correntistas, o que pressupõe entender que o fenômeno não é localizado no Brasil.

Índia, Tailândia e Singapura também têm sistemas de pagamento semelhantes ao PIX. E por que Trump não ataca esses países? Porque nenhum desses países tem uma família desgraçada de traidores atacando e querendo entregar o próprio país. pic.twitter.com/aoYIsVXTef

— Lázaro Rosa 🇧🇷 (@lazarorosa25) July 19, 2026