Artistas respondiam às crises que atravessavam o mundo, da ditadura militar no Brasil aos anos de Margaret Thatcher no Reino Unido, desafiando padrões de comportamento por meio da moda, dos cabelos, da maquiagem, dos videoclipes e de outras manifestações cult…

Role, Da BBC News Brasil em LondresPublished 12 setembro 2026Tempo de leitura: 9 minNão é só o ChatGPT ou o Gemini que imaginam cores vibrantes, cabelos volumosos e roupas hoje vistas como extravagantes quando pedimos que recriem uma foto como se ela tivesse sido tirada nos anos 1980, parte da trend que viralizou nas redes sociais nesta semana.

Guardados os exageros que a inteligência artificial pode cometer ao tentar imaginar o período, a imagem que temos dos anos 1980 foi real. Ela surgiu, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, do contraste entre as crises que castigavam o mundo na época e a maneira como as pessoas reagiam às dificuldades.

"Esse movimento veio de um cansaço, porque os anos 1970 foram ditatoriais em vários lugares do mundo. Foram difíceis, asfixiantes. Então, nos anos 1980, houve uma espécie de liberação", diz o professor Francisco Homem de Melo, um dos maiores pesquisadores do Brasil na área de design.

No mundo de carne e osso, ainda havia a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética (URSS); o apartheid que separava brancos e negros na África do Sul; as ditaduras militares que perseguiam milhares na América Latina, inclusive no Brasil; e a crise do HIV e da Aids, que matava no mundo todo.

Por outro lado, no mundo artificial da televisão, Xuxa vestia botas altas, minissaias, ombreiras e roupas cheias de brilho para sair de uma nave cor-de-rosa e comandar um programa na Globo, enquanto o palhaço Bozo armava um verdadeiro circo, com arquibancadas, palcos circulares, grandes letreiros e telefones gigantes, no SBT.

E a extravagância não se limitava aos programas infantis — e tampouco se expressava apenas nos cenários coloridos. Gugu Liberato escolhia o "Rambo brasileiro", realizava os sonhos de fãs com seus ídolos e terminava o programa com uma multidão dançando como passarinhos, enquanto Chacrinha comandava seu Cassino jogando até bacalhau e abacaxi para a plateia.

Na música, os Menudos — que eram porto-riquenhos, mas aprenderam a cantar em português — arrastavam multidões de adolescentes de cabelos volumosos e roupas coloridas, pedindo que ninguém se reprimisse, enquanto Ney Matogrosso radicalizava a transgressão que já era característica à sua carreira ao subir ao palco de rosto pintado e quase sem roupa, só com tapa-sexo, penas, colares e glitter.

Havia ainda Madonna, com seus figurinos e performances cada vez mais provocativos, em trabalhos como Like a Virgin e Like a Prayer; Michael Jackson, com clipes marcantes como Thriller; e uma infinidade de outros exemplos que poderiam preencher dezenas de parágrafos e se espalhar pelo mundo.

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Tudo isso enquanto o Brasil, por exemplo, vivia sob a ditadura, que mesmo em processo de abertura ainda censurava músicas, filmes, peças e programas de televisão, além de perseguir opositores e controlar manifestações políticas.

Mas em vez de representar diretamente as crises políticas e sociais vigentes, boa parte da arte funcionou como uma reação à sobriedade e à funcionalidade que haviam dominado o design e a cultura nas décadas anteriores.

No design, a máxima de que tudo precisava ter uma utilidade, por exemplo, começou a ser questionada pelo movimento pós-modernista. Um dos melhores exemplos disso foi o grupo Memphis, criado na Itália para virar de cabeça para baixo a ideia de que um objeto bonito precisava ser discreto e simples.

Seus integrantes criavam móveis e objetos com cores vibrantes, formas tortas, estampas chamativas e materiais que se pareciam até com brinquedos. Não tinha medo de ser kitsch — como ficou conhecida aquela estética que mistura elementos considerados exagerados, artificiais ou "de mau gosto".

No Reino Unido, outro centro dessa renovação, houve uma explosão musical em meio à dureza dos anos da primeira-ministra Margaret Thatcher, quando os britânicos enfrentavam desemprego, fechamento de fábricas e uma crise que atingia especialmente os trabalhadores.

David Bowie, uma estrela já consolidada desde a década anterior, foi uma das referências visuais para a nova geração do pop britânico.

Um dos principais museus de Londres, o Victoria and Albert Museum (V&A), que abriu no ano passado uma área dedicada ao artista, destaca sua influência e sua maneira de brincar com códigos de gênero por meio de roupas, maquiagem e diferentes personas.

Embora essa influência tenha sido, em alguns casos, mais visual do que musical, artistas e grupos como Duran Duran, Culture Club, Spandau Ballet e Eurythmics vieram na mesma linhagem de um pop que fazia da imagem parte essencial de sua identidade.

No Brasil, essa mudança de comportamento se expressou principalmente pela música, e sobretudo no Rio de Janeiro, segundo o professor Francisco Homem de Melo, que lecionou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo. A música foi, inclusive, o que influenciou os programas de TV.

O professor explica que, em contraponto aos tropicalistas — a turma de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé —, que se estabeleceram no fim dos anos 1960 e ao longo dos anos 1970, bandas de pop rock cariocas como Barão Vermelho, Blitz, Kid Abelha e Paralamas do Sucesso passaram a responder à repressão não por meio de protestos, do exílio ou de qualquer militância explícita, mas pelo rompimento com os comportamentos e costumes valorizados pelo regime.