A resposta a esta pergunta que é também o titulo de um livro é simples: os intelectuais enganam-se porque querem e porque acreditam mais no seu ascendente do que na livre iniciativa
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Muito bom dia. No Contracorrente de hoje: o que aconteceu aos intelectuais? Karl Marx defendia que a religião era o ópio do povo. Ironicamente, o marxismo acabou a tornar-se o ópio de muitos intelectuais. Os que eram e são tidos como os mais cultos e mais informados, os intelectuais, perderam e perdem o espírito crítico perante a economia planificada e as engenharias sociais. Bom dia, Helena Matos. Os intelectuais enganam-se quase sempre? Isso acontece porque ignoram a realidade?
Bom dia. O erro faz parte e o erro não é nada uma coisa negativa. O que estamos aqui a falar, e muitas vezes grandes descobertas da humanidade nasceram precisamente de erros. Todos nós quando éramos miúdos e víamos muito aquelas séries das descobertas científicas, ficávamos fascinados quando percebíamos que algumas delas, importantíssimas, tinham nascido precisamente de opções erradas, de descuidos, de desleixos. Não, aqui falamos de algo diferente. Ou seja, falamos de um grupo, e podemos perguntar: mas quando é que na verdade se começou a falar dos intelectuais? Sim, há sempre aquela chegada ao caso de Refusé, em França, em que de facto há um posicionamento por um setor de escritores, artistas, e aí o termo já existe, já teria sido usado anteriormente, mas aquele intelectual de que vamos se calhar falar aqui mais hoje, mas tudo depende dos nossos convidados, é outro, ou foi noutro que eu estava a pensar. Aliás, este programa partiu de um livro, a Helena Garrido, que já também está a escutar, teve um grande entusiasmo com o livro do Fito Sí.
Chama-se "Porque se enganam os intelectuais", do ensaísta, colunista e investigador Samuel Fito Sí.
Podíamos recuar um bocado mais e podíamos ir ao ópio dos intelectuais. Nós temos a decorrer agora por estes dias a Festa do Avante, onde temos o setor intelectual ainda no sentido obreiro do termo, o setor da revolução, aliás, o Partido Comunista. Eu gosto sempre muito de ver as listas dos candidatos dos diferentes partidos, até porque penso que essas pessoas dão a sua cara, estão ali nos diferentíssimos partidos. Claro que ninguém repara os que estão mais pra baixo nas listas, mas eu gosto de ver as identificações profissionais. E no caso do Partido Comunista Português, ainda temos as pessoas que são identificadas como intelectual. E sendo que depois não são as pessoas às quais nós reconhecemos um maior protagonismo, influência no setor. O intelectual, embora tenha a ver com o saber, é em geral um saber muito na área das letras, do pensamento, da história. Mais dificilmente vemos surgir intelectuais noutras áreas.
Deixa-me só dizer-te o seguinte.
Lembrei-me agora quando falaste disso, quando vais à lista de comitê central do PCP, nós temos, de facto, o intelectual. Alexandre Araújo, por exemplo, intelectual, 52 anos, que está com Adeline Nunes, que é operário metalúrgico, 62 anos. Portanto, ainda temos o intelectual, como estavas a referir.
Então há consciência de classe.
Exatamente, é isso mesmo. Tem uma racionalidade.
O operário eu não duvido. Agora, o intelectual, porque podemos discutir. Nós podemos ter grandes médicos ou grandes investigadores em ciência, e temos tido alguns. Mas para que esse grande investigador em ciência seja considerado um intelectual, é necessário depois que ele tenha uma intervenção na área das letras, do pensamento, muitas vezes até de alguns ativismos. Não basta ser um grande investigador para se ser considerado um investigador. Dificilmente um engenheiro é um intelectual. E pode ser um notabilíssimo engenheiro e ter teorizado sobre construção de pontes, estradas, balas e essas coisas. Portanto, o intelectual tem aqui uma outra inserção e se quisermos chegar à caricatura, nós podemos pensar, eu e a Helena Garrido lembramos perfeitamente dos tempos em que isto era quase enfático. O intelectual era o intelectual de esquerda. Tinha até um tipo de caricatura, se a pessoa desenhasse um homem com umas barbas, um determinado tipo de óculos, já sabíamos que tínhamos ali o chamado intelectual, que era quase desnecessário dizer que era um intelectual. Não, mas já não tem muito ar.
Não sei se estamos preparados.
Se calhar podemos representar.
Há duas pessoas de óculos e de barba que fisicamente encaixam nessa categoria.
É o Pedro Mexia, escritor. Bom dia, Pedro. Também o Alexandre Frank de Sá, professor universitário. Bom dia também, Alexandre.
Exatamente. Quando os Comércios Vermelhos entraram em Phnom Penh, foram logo os primeiros, os intelectuais, os que tinham óculos, a marchar dali pra fora. Que se note, ao mesmo tempo, que essa entrada e aquilo que era do início de um dos mais surpreendentes e aterradores genocídios que a humanidade conheceu, era celebrado pelos intelectuais do Ocidente nomeadamente em França, que tinha uma ligação histórica àquele país, como uma libertação. Aliás, o Fitozzi acho que até elenca alguns dos textos, se não é ele. Eu ontem estava a ver várias descrições, pois estas coisas, os jornais estão lá sempre. E então o que é que se tinha escrito no "Le Monde", no "Libération" e mesmo noutros jornais, até mais de centro-direita, sobre a entrada dos Quimeres Vermelhos em Phnom Penh, ou aquilo que se tinha escrito sobre a Revolução Cultural na China, que era evidentemente um morticínio e uma destruição da cultura, mas a forma como muitos intelectuais do Ocidente foram associar, e que lutavam aqui pelas liberdades, mas depois sofriam de uma espécie de encantamento perante estes regimes ditatoriais. Eu não me vou alongar muito mais, mas era imperdoável não referir aquele momento em que Sartre e Simone de Beauvoir vieram a Portugal em 1975. E há ali uma G3 e aquilo tudo, e um Sartre já meio cego, quase que desiludido com o PREC português por não estarmos suficientemente imbuídos do espírito revolucionário e parecer termos mais dúvidas. E note-se que ele andou ali de local revolucionário em local revolucionário, mas mesmo assim parecia-lhe que faltava ali qualquer coisa, qualquer disposição, qualquer vontade de ir mais à frente, mais além. Muitos destes intelectuais faziam aquilo que era o chamado turismo revolucionário e onde geralmente não viam nada. Porque conseguiram ir à União Soviética, conseguiram ir à República Popular da China, conseguiram ir ao Camboja. Há também esses casos, que é difícil, como é que eles conseguiram ver aquelas coisas. E iam e vinham, e só viam maravilhas. E mais importante: conseguiam destruir a reputação daqueles que diziam que estavam a acontecer outras coisas. Tem casos dramáticos nos Estados Unidos, nomeadamente com a fome na Ucrânia. Vamos ver quem ganhou o Pulitzer e quem é que ficou mal visto profissionalmente, e depois acabou até por ser assassinado. E, portanto, era sempre quem defendia estas narrativas. Aqui há poucos programas referíamos a propósito de outras coisas, como em Portugal, reputadíssimos intelectuais destruíram a seriedade de homens como o Chico Tacufe, um operário que tinha ido para a União Soviética e realmente ficou lá. E apesar de ser comunista, constatou que aquilo não era nada do que lhe tinham dito. E, portanto, este destruir da credibilidade, mesmo quando as coisas já eram muito evidentes, e isto também é um papel importante. Portanto, aquilo que nós vamos falar é desta sedução dos intelectuais, que também existe e é interessante. O Fitozzi também cita isso e estava a pensar no Aron. Raymond Aron. Também temos isto muito no Reino Unido, e também é importante dizê-lo, houve sedução de grandes intelectuais por outros regimes totalitários, só que foram muito breves esses regimes, terríveis, mas muito mais breves, como é o caso do nazismo. E por que esta sedução pelo totalitário? É porque, e esta é a linha que o Fitozzi aponta, e não só ele, que ali são projetos políticos que nascem de uma conceção da sociedade, de um plano, de uma organização. E isso ao intelectual, surge como um produto do pensamento e no qual ele tem um papel. Ao passo que esta nossa sociedade de capitalismo mais ou menos moderado, ou mais ou menos intenso, esta sociedade da livre iniciativa é um caos. É um caos que nasce da iniciativa da pessoa que resolve fazer uma empresa. Não foi planeado, não foi concebido. Quando o Bill Gates foi para aquela garagem, porque a mãe tinha conseguido pagar, mais a associação de mães daquele colégio, é uma coisa altamente improvável, tinham conseguido pagar determinado tipo de equipamentos. Aquilo não estava previsto que acontecesse assim. Quando Amancio Ortega se pôs a fazer batas numa sala da sua casa com a sua mulher e o seu irmão e a sua cunhada, era absolutamente improvável que dali nascesse a Zara. E em simultâneo, quantas empresas não faliram, quantas coisas não se tentaram fazer e foram por água abaixo, quantas coisas só muitos anos depois é que se percebeu que podiam ter interesse. Portanto, face a esta desordem da livre iniciativa, porque é uma desordem completa. Não tão completa, é cada vez mais apertadinha, mas há um lado de desordem, há um lado de algo que não é planeado, e que nasce muitas vezes mais pelo instinto do senso comum. Há aqui este lado do intelectual que fica sem chão. Portanto, a sedução, muitas vezes por estes totalitarismos, é a sedução pela coisa pensada. E também é justo que se diga que não será apenas, claro, temos aqui hoje um programa sobre os intelectuais, mas quando foi da crise financeira, que têm sido tantas, mas estamos a falar quando os bancos foram completamente abaixo. Eu lembro-me de um cartoon no jornal, não sei se era o New York Times, era um jornal. Era muito interessante que este ano o Prêmio Nobel de Economia vai para uma senhora norte-americana, de 50 anos, com os seus rolinhos na cabeça, às suas coisas, uma senhora de idade com um ar muito modesto, que guardou o seu dinheiro debaixo do colchão e não acreditou nas previsões econômicas.
Nos produtos financeiros.
Pois, era nas previsões.
Que também foram produtos de intelectuais.
De intelectuais e também tinham um propósito social.
Exatamente. Portanto, eu acho que nós temos dentro do estúdio quem fale sobre isso.




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