Existe uma narrativa confortável sobre o desenvolvimento econômico. Ela diz que países enriquecem porque suas populações trabalham muito, estudam muito e p...
Existe uma narrativa confortável sobre o desenvolvimento econômico. Ela diz que países enriquecem porque suas populações trabalham muito, estudam muito e poupam muito. É uma explicação atraente porque é simples, tem apelo moral e parece encontrar respaldo sobretudo na experiência asiática.
O problema é que ela frequentemente confunde o retrato de uma economia que já se desenvolveu com o mecanismo que permitiu que ela chegasse até ali.
Ninguém discorda de que trabalho, educação e poupança são importantes. A questão é outra: eles constituem condições iniciais suficientes para o desenvolvimento ou são, em grande medida, também resultados do próprio processo de transformação econômica?
A comparação entre Brasil e Coreia do Sul ajuda muito a responder essa pergunta.
Uma pessoa trabalhando muitas horas em uma atividade de baixíssima produtividade não se torna mais produtiva simplesmente porque aumentou sua jornada.
Um agricultor de subsistência que trabalha doze horas em vez de oito continua limitado pelas ferramentas, pela tecnologia, pelo conhecimento e pela organização produtiva disponíveis.
Produtividade não é apenas resultado de esforço individual. Ela depende de máquinas, infraestrutura, tecnologia, conhecimento, escala, organização empresarial, financiamento e, sobretudo, do conjunto de capacidades produtivas acumuladas numa sociedade.
O mesmo raciocínio vale para a poupança.
Uma família cuja renda está próxima da subsistência dificilmente conseguirá produzir previamente a poupança necessária para financiar fábricas, siderúrgicas, estradas, universidades, laboratórios, portos e infraestrutura energética.
Exigir que a transformação estrutural de um país pobre seja financiada exclusivamente pela abstinência de consumo de uma população pobre é, em boa medida, pedir que a riqueza exista antes de ser criada.
A experiência da Coreia do Sul é particularmente esclarecedora porque contraria a imagem retrospectiva de um país que teria enriquecido simplesmente porque seus habitantes sempre pouparam muito.
No começo dos anos 1960, a situação era praticamente oposta.
A Coreia tinha renda per capita muito baixa, escassez de capital, uma indústria ainda pequena e pouca poupança doméstica. Segundo dados históricos do FMI, entre 1960 e 1966 o investimento bruto doméstico correspondia, em média, a 15,1% do produto, enquanto a poupança nacional era de apenas 7,9%. A diferença era coberta por poupança externa. (eLibrary IMF)
Nos anos seguintes, o investimento acelerou ainda mais. Entre 1967 e 1973, alcançou aproximadamente 25% do produto, enquanto a poupança nacional ficou em 19,3%. Novamente, o investimento corria à frente da poupança doméstica. (eLibrary IMF)
O caso de 1968 é particularmente ilustrativo. O investimento chegou a aproximadamente 25,8% do produto, enquanto a poupança era de apenas 14,7%. O déficit em conta corrente alcançou cerca de 11% do produto. (eLibrary IMF)
Não foram, portanto, famílias coreanas previamente enriquecidas e parcimoniosas que financiaram a industrialização. Houve forte utilização de crédito dirigido, empréstimos externos, ajuda internacional e mecanismos estatais de financiamento.
No início dos anos 1960, segundo outra reconstrução histórica do FMI, a taxa de poupança coreana era próxima de zero por algumas medidas. Conforme a economia cresceu e a renda per capita aumentou, a poupança doméstica subiu rapidamente, chegando a cerca de 18% do PIB em 1970 e 24% em 1980. (eLibrary IMF)
A causalidade histórica é difícil de ignorar:
a Coreia não começou poupando 30% ou 35% do PIB para depois crescer. Ela começou crescendo e investindo, e sua capacidade de poupar aumentou junto com a renda e a produtividade.
Nas décadas seguintes, quando a transformação estrutural já estava muito mais avançada, a taxa de poupança nacional coreana alcançou aproximadamente 30% do PIB nos anos 1980 e 35% nos primeiros anos da década de 1990. (eLibrary IMF)




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