O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que o Brasil precisa defender seus interesses no cenário internacional sem abrir mão da autonomia. A declaração foi dada durante o J. Safra Investment Conference, em São Paulo, evento anual promovido pelo Ban…

O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que o Brasil precisa defender seus interesses no cenário internacional sem abrir mão da autonomia. A declaração foi dada durante o J. Safra Investment Conference, em São Paulo, evento anual promovido pelo Banco Safra que reúne cerca de 2 mil investidores, empresários e especialistas.

A declaração ocorreu um dia depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmar, na Assembleia Geral das Nações Unidas, que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”. Ao avaliar mudanças na economia global, marcada segundo ele por disputas comerciais, pela busca por novas cadeias produtivas e pela corrida por recursos estratégicos para transição energética, Mercadante disse que o país precisa ter um posicionamento claro.

“Precisamos defender e mostrar o Brasil para o mundo com altivez, com autonomia, com interdependência e com realismo em relação ao cenário internacional”, afirmou.

Durante a conversa com Alberto Monteiro, CEO do Banco Safra, Mercadante apresentou sua visão sobre os desafios econômicos do país, defendendo o papel do BNDES como indutor de investimentos, a necessidade de reduzir a taxa de juros e a ampliação da participação brasileira em cadeias produtivas de maior valor agregado.

Mercadante destacou o crescimento recente da atuação do BNDES e afirmou que o banco não pretende voltar ao tamanho alcançado após a crise financeira de 2008, quando os desembolsos chegaram a superar 4% do PIB.

Segundo ele, considerando operações diretas, indiretas e mecanismos de garantia para micro, pequenas e médias empresas, o banco movimentou R$ 366 bilhões no ano passado, o equivalente a R$ 1 bilhão por dia. No primeiro semestre deste ano, as consultas cresceram 70%, as aprovações avançaram 50% e os desembolsos aumentaram 37%, disse.

Mercadante afirmou que o banco atualmente representa cerca de 1,4% do PIB em desembolsos e defendeu uma relação mais próxima entre Estado e setor privado. “O debate não é Estado contra mercado. O que precisamos é de uma relação criativa e construtiva, em que o Estado ajude a criar condições para o investimento privado”, disse.

Juros altos e contas públicas

No cenário macroeconômico, Mercadante afirmou que a taxa de juros continua sendo um dos principais desafios estruturais do país. “O Brasil resolveu a hiperinflação com o Plano Real, construiu reservas e superou vulnerabilidades externas. Mas permanece um desafio desde aquele período, que é a convivência com uma taxa de juros muito elevada”, afirmou.

Segundo ele, uma redução sustentável da Selic depende de avanços fiscais e de uma melhora na qualidade do gasto público. “Existe uma relação entre política fiscal e política monetária. Não é apenas o fiscal que resolve, mas a sustentabilidade fiscal é uma condição importante para uma queda consistente dos juros”, disse.

Para Mercadante, o investimento público tem perdido espaço no orçamento. Ele defendeu mudanças na dinâmica das despesas obrigatórias. “O grande órfão do orçamento é o investimento. É ele que sustenta a inovação, a produtividade e o crescimento”, afirmou.

Ao falar sobre as oportunidades para o Brasil, Mercadante destacou setores ligados à transição energética, tecnologia e indústria. Segundo ele, o país precisa evitar um modelo baseado apenas na exportação de matérias-primas e avançar na agregação de valor.

“O Brasil não pode repetir uma trajetória de exportar apenas matéria-prima e importar tecnologia. Precisamos transformar nossos recursos em cadeias produtivas, inovação e conhecimento”, afirmou.

O presidente do BNDES citou ainda o potencial brasileiro em biocombustíveis, minerais estratégicos para transição energética, inteligência artificial e infraestrutura. Também destacou empresas como Embraer como exemplos de ativos tecnológicos construídos ao longo de décadas. “O Brasil tem competência, tem engenharia e tem capacidade para participar das cadeias mais avançadas”, disse. Segundo ele, o tema ganha destaque diante da nova ordem mundial, que tem levado países a disputar posições em setores-chave e a buscar maior segurança em suas cadeias produtivas.

Para Mercadante, o Brasil precisa diversificar suas relações comerciais e aproveitar a ascensão de novos polos econômicos. “O mundo está mudando profundamente. A Ásia ganhou um peso enorme na economia global e o Brasil precisa olhar para esses novos mercados”, afirmou. Defendeu ainda que o país busque uma posição mais relevante no cenário internacional sem abrir mão da cooperação “Uma coisa é interdependência, que é necessária em uma economia globalizada. Outra coisa é dependência. O Brasil tem tamanho, recursos e capacidade para construir uma relação equilibrada com o mundo”.