Josh Hartnett estrela "Profundezas", novo thriller de suspense ambientado na costa de Terra Nova, no Canadá - Divulgação/Netflix O mar tem uma vantagem sobre quase qualquer outro cenário de suspense, nunca é preciso mostrar muito para fazer com que ele pareça ameaçador. Basta um ruído vindo debaixo do barco ou a sensação de que alguma coisa acompanha os personagens sem que eles consigam enxergar. 

“Profundezas”, minissérie da Netflix criada por Jesse McKeown, entende esse princípio. O problema é que, ao longo de seis episódios, parece esquecer que o desconhecido pode ser mais interessante do que a explicação.

A história se passa em Snooks Arm, uma pequena comunidade pesqueira de Terra Nova, no Canadá. Calvin Penney, interpretado por Josh Hartnett, é um pescador viúvo que tenta proteger a família quando uma criatura marinha de proporções gigantescas começa a ameaçar os moradores. 

Ao lado da pesquisadora Fonda Howander, vivida por Mackenzie Davis, ele procura entender o que está acontecendo. Enquanto isso, o filho Wade, interpretado por Charlie Heaton, enfrenta sonhos perturbadores que parecem guardar alguma relação com os acontecimentos.

A premissa tem elementos conhecidos. Uma comunidade isolada, uma ameaça que ninguém consegue compreender e autoridades ou interesses locais que parecem esconder informações. A lembrança de “Tubarão”, clássico de Steven Spielberg, é inevitável, embora “Profundezas” esteja menos interessada em reproduzir a espera angustiante pelo próximo ataque do que em montar um quebra-cabeça sobre os segredos daquela região.

O mistério prende

Nos primeiros episódios, a série encontra um bom caminho. A paisagem de Terra Nova ajuda a construir uma sensação de isolamento que não depende apenas da distância geográfica. A relação dos moradores com o mar faz parte da economia, da memória e da identidade da comunidade. Quando a água passa a representar uma ameaça, não basta encontrar uma maneira de escapar dela, o perigo também atinge o modo como aquelas pessoas vivem, o que traz uma dicotomia interessante.

A fotografia aproveita esse ambiente muito bem, o oceano parece grande demais para os personagens, e a cidade, pequena demais para lidar com o que se aproxima. A ameaça permanece parcialmente escondida, o que permite que o medo cresça antes de ser substituído pela ação.

Elenco e personagens

Hartnett também contribui para esse início. Seu Calvin é um homem marcado pela perda, desconfiado e acostumado a resolver os próprios problemas. O ator evita fazer do personagem um pai desesperado diante de uma situação extraordinária. 

Existe uma história anterior à criatura apresenta inicialmente para o público, uma vida que já estava atravessada por feridas e que ajuda a explicar por que ele reage ao perigo com tanta resistência.

Mackenzie Davis traz outra energia à trama. Como Fonda, oferece uma perspectiva científica para acontecimentos que os moradores tendem a interpretar a partir de suas próprias crenças e experiências. A parceria entre os dois cria um contraste produtivo, já que Calvin conhece aquele território pela convivência, enquanto Fonda tenta compreender o que está acontecendo a partir da investigação.

Charlie Heaton, por sua vez, ocupa uma posição importante na ligação entre o drama familiar e o mistério. Os sonhos de Wade sugerem que a ameaça não se limita ao que pode ser visto ou medido. Durante algum tempo, a série consegue manter abertas diferentes possibilidades, e essa incerteza é um de seus principais atrativos.

Explicar se torna um problema

A dificuldade começa quando “Profundezas” precisa transformar as pistas em respostas.

Até ali, a série trabalha com uma pergunta simples e eficiente: o que está escondido sob aquelas águas? A cada episódio, novos acontecimentos ampliam o mistério e levantam suspeitas sobre a origem do perigo. A expectativa é que as revelações reorganizem o que o espectador viu e deem outro significado aos conflitos apresentados.

Em vez disso, a reta final começa a acumular explicações que nem sempre têm a mesma força das perguntas que as antecederam. A partir do quarto episódio, a narrativa muda de direção e passa a depender cada vez mais de revelações, conexões entre personagens e informações que chegam para acelerar o desfecho (esse, bem bobo em alguns momentos).

O suspense perde espaço 

Não é um problema apresentar uma explicação surpreendente, o gênero depende disso. A questão está em fazer com que a resposta pareça inevitável quando olhamos para trás, mesmo que não seja evidente durante a investigação. 

As subtramas também sofrem com essa pressa. Certos acontecimentos importantes recebem menos atenção do que precisam, enquanto outras explicações surgem sem tempo suficiente para produzir consequências. Quando o desfecho chega, nem todas as peças parecem pertencer ao mesmo quebra-cabeça.