Estudo acompanhou idosos por dois anos em 12 países da América Latina, incluindo o Brasil
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22.ago.2026 às 15h30
Paulo Caramelli Médico neurologista, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
O estudo LatAm-Fingers é o primeiro ensaio clínico multicêntrico randomizado realizado na América Latina para investigar estratégias de prevenção de declínio cognitivo em idosos. Os resultados mostram que mudanças no estilo de vida podem melhorar em até 55% o desempenho cognitivo global de idosos com risco de desenvolver declínio cognitivo e demência.
O trabalho foi apresentado durante a Alzheimer’s Association International Conference (AAIC 2026) e foi publicado na revista The Lancet.
Com o envelhecimento da população mundial, a prevalência de demência tornou-se elevada. Na América Latina e no Brasil, alguns estudos apontam a frequência de demência em idosos como a mais alta dentre todas as regiões geográficas do mundo. Uma metanálise publicada em 2022, analisando 31 estudos realizados na América Latina, mostrou uma prevalência de demência de 9% em pessoas com idades de 65 anos ou mais.
Existem alguns fatores de risco que não são modificáveis, como a idade e a genética. Por outro lado, há fatores que podem ser alterados, tratados ou controlados, e que podem reduzir o risco do problema.
Um dos primeiros estudos a se debruçar sobre a prevenção do declínio cognitivo e da demência com mudanças de estilo de vida já mostrou a eficácia desse tipo de intervenção. Trata-se do estudo Finger, realizado na Finlândia, com pessoas de 60 a 77 anos que apresentavam risco elevado.
Os participantes foram divididos de forma aleatória em dois grupos: um recebia apenas orientações gerais de saúde; o outro recebia uma intervenção sistemática sobre múltiplos domínios, como atividade física, dieta, monitoramento clínico, treino cognitivo e socialização.
Ao final de dois anos de acompanhamento, o estudo mostrou que as pessoas que receberam a intervenção sistemática melhoraram o desempenho cognitivo global em 25%. O estudo foi publicado em 2015.
Em 2025, foi publicado o estudo U.S. Pointer, conduzido nos Estados Unidos, e que também observou efeitos positivos dessa intervenção de múltiplos domínios sobre o desempenho cognitivo global de 2.111 pessoas com idades entre 60 e 79 anos e risco elevado de declínio cognitivo acompanhadas ao longo de dois anos.
A The Lancet criou comissão que se dedica ao tema já há alguns anos. Na última publicação que fez, em 2024, a revista identificou 14 fatores de risco modificáveis que incidem ao longo da vida: na infância, temos o analfabetismo e baixa escolaridade; depois, vêm se instalando outros, como a perda auditiva, hipertensão arterial, diabetes, sedentarismo, redução da acuidade visual, entre outros.
E o que a publicação mostrou é que, se eliminássemos todos esses fatores de risco, reduziríamos significativamente os casos de demência. Projetando os dados para o Brasil, quase 60% dos casos de demência seriam eliminados se todos esses fatores de risco fossem controlados ou eliminados.
Há cerca de uma década, grupos de pesquisa latino-americanos começaram a discutir a possibilidade de realizar um estudo semelhante na região.
Foram reunidos 12 centros de pesquisa em 11 países latino-americanos: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Peru, República Dominicana e Uruguai. O Brasil conta com dois centros, um na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e outro na Universidade de São Paulo (USP). Em cada centro, tínhamos equipes multidisciplinares.



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