Alimentação saudável não envolve apenas o que comemos, mas também o horário em que nos alimentamos

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22.ago.2026 às 18h38

"Tenha o café da manhã de um rei, almoce como um príncipe e jante como um mendigo", disse meu amigo e colega espanhol Javier Hirschfeld, quando perguntei sobre os hábitos de alimentação típicos da Espanha.

Ele conta que ouve este ditado desde que era muito jovem.

Na Espanha, como no Brasil, é comum que o almoço seja a maior refeição do dia e o jantar consista em uma refeição leve. "Algumas pessoas simplesmente não jantam ou comem uma fruta e um iogurte", ele conta.

Já no Reino Unido e nos EUA, é mais comum ter um almoço leve, seguido por uma refeição maior à noite. Mas é possível que estes países tenham invertido tudo, segundo uma disciplina científica emergente chamada crononutrição.

Ela sugere que a alimentação saudável não envolve apenas o que comemos, mas também o horário em que nos alimentamos.

Além de reduzir a obesidade e evitar doenças cardiovasculares, diversos estudos demonstram que o nosso relógio corporal interno (o ritmo circadiano) desempenha um forte papel sobre a forma como processamos os alimentos e a nossa saúde em geral.

E aqui estão os motivos —e como podemos programar nossas refeições para capitalizar este processo.

Marta Garaulet, da Universidade de Murcia, na Espanha, começou a se interessar pelo impacto do horário das refeições observando algo que aconteceu na sua clínica de perda de peso.

Mais de uma década atrás, ela atendeu duas pacientes que moravam juntas e seguiam exatamente a mesma dieta. Mas elas apresentaram diferentes resultados de perda de peso.

Uma delas almoçava perto das 13 horas e a outra só conseguia comer mais tarde, devido ao seu horário de aulas. "Esta era a única diferença", segundo Garaulet.

Em seis semanas, a estudante que almoçava mais cedo perdeu muito mais peso. Este resultado a levou a investigar a intrigante possibilidade de que o horário das refeições pudesse ter enorme influência sobre a perda de peso.

Em conjunto com colegas da Universidade de Murcia, Garaulet acompanhou 420 adultos na Espanha que participaram do mesmo programa de perda de peso por 20 semanas. Ela concluiu que os participantes que almoçavam mais cedo perdiam mais peso e com mais rapidez, em comparação com os que preferiam almoçar mais tarde.

De forma similar, em um pequeno estudo randomizado controlado, 32 mulheres saudáveis comeram as mesmas refeições por duas semanas. Aquelas que almoçaram mais tarde apresentaram falhas no controle do açúcar no sangue e queimaram menos carboidratos.

Desde então, numerosos estudos concluíram que o ritmo circadiano influencia a nossa fome, a digestão e o metabolismo.