O desgaste russo e ucraniano na frente de guerra é visível. Mas para Zelenky há também a frente política. Resistirá o líder ucraniano mais uma vez?
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Muito bom dia. As notícias da guerra na Ucrânia dão conta do desgaste de ambas as partes do conflito, Rússia e Ucrânia. Mas à medida que o combustível falta na Rússia, os ânimos inflamam-se do lado ucraniano. Mykhailo Fedorov, o antigo ministro da Defesa e arquiteto da guerra tecnológica contra a Rússia, demitido há umas semanas por Zelensky, apela agora abertamente à realização de eleições e até já anunciou uma visita aos Estados Unidos. Zelensky está a viver os seus dias mais difíceis desde a madrugada de 24 de fevereiro de 2002, quando os tanques entraram na Ucrânia. Helena Matos, é isso que está a acontecer? Bom dia.
Sim, os tanques entraram em 2022.
A vida está difícil por aquelas terras, mas ainda não é 2002. Mas sim, a vida está difícil para Zelensky. Eu acho que aqueles dias de fevereiro de 2022 terão sido certamente tenebrosos, porque aí Zelensky estava a lutar literalmente pela sua sobrevivência física, que é uma experiência que não tenho, nem quero ter, mas que presumo que será dramática. Agora, estes dias, muitas vezes, com o arrastar dos conflitos, tornam-se também eles muito duros, muito cruéis. A parte da frente política é, às vezes, muito difícil para quem esteve na frente da guerra, e esteve na frente da guerra até com sucesso, e isso temos de reconhecer que Zelensky tem. Nós assistimos, talvez desde meados de 2025, a uma espécie de círculo à volta de Zelensky. Parece que vão caindo peças com pessoas que são acusadas de corrupção ou suspeitas de corrupção. A corrupção na Ucrânia é vista, e foi sempre vista, como muito real. Era um dos grandes hobbies quando, antes de tudo isto, a Ucrânia tinha manifestado o seu desejo e a sua vontade de integrar a União Europeia, um dos grandes problemas era a corrupção. E não era a guerra, então.
Foi, aliás, uma das bandeiras de Zelensky enquanto candidato.
Pois, candidato, depois presidente. Ele já estaria ali a tomar algumas medidas, mas agora o que nós temos neste momento viu-se cair. De umas pessoas, vou dizer os nomes completos. De outras, só digo a sua função, porque há sempre a possibilidade de pessoas que sabem dizer estes nomes em ucraniano se rirem. Ou chorarem, não sei. Mas tivemos a última demissão, que foi de Iryna Mudra, que estava no gabinete da presidência, no gabinete de Zelensky. Ela foi suspeita, acusada, indiciada por corrupção numa operação que visou também outros membros do gabinete de Zelensky e também figuras do Parlamento. Depois, em agosto, tivemos uma demissão, essa eu acho particularmente inquietante. Estamos a falar da embaixadora da Ucrânia em Washington. É uma das tais pessoas cujo apelido eu não vou dizer, mas tem como primeiro nome Olga. Nós, aliás, vimos ela, porque ela acompanhou as visitas de Zelensky à Casa Branca e ela acaba por ser destituída por decreto. Ela tinha sido nomeada em julho de 2025 e também está sob investigação no âmbito de um caso anticorrupção. Ora, sabendo-se como é primordial, crucial e tudo aquilo que quisermos dizer acabado em al na relação entre a Ucrânia e os Estados Unidos, esta questão, esta fragilidade em relação à figura de quem é representante diplomático da Ucrânia nos Estados Unidos, seja esta acusação fundamentada ou não, isto é muito preocupante. E depois tivemos, para não recuar muito mais, nós tínhamos tido logo em novembro de 2025 a demissão do chefe de gabinete de Zelensky, Andrii Yermak, que saiu do seu posto, claro, também num caso de escândalo de corrupção. Portanto, temos esta espécie de círculo à volta de Zelensky, mas aquilo que tu referiste, e bem, e o nome nos traz aqui, e que leva a que neste momento se possa perceber que há aqui alguma coisa que pode estar a mudar, é em relação a Fedorov. Fedorov é muito jovem. E nota, toda aquela gente, em boa parte, muitos deles são muito jovens. Já disse aqui até mais do que uma vez, uma das coisas que para mim é muito impressionante é ver quanto envelheceu Zelensky. Ele era uma outra cara quando isto começou. Era espantosamente jovem, tinha um ar muito sorridente. Não era por si cômico. Às vezes, há cômicos que têm caras bem tristes, mas não era o caso dele. E vemos a cara pesada que tem agora. O próprio Fedorov, também já se nota esta questão do peso do tempo. Aquilo são universos muito duros, não têm nada a ver com a nossa realidade. E, portanto, o Fedorov, que é alguém que nós ainda vemos aqueles vídeos dele no início a explicar como é que se ia fazer a guerra com os drones. As potencialidades que aquilo tinha, portanto, esta questão do arquiteto da guerra tecnológica, é um deles. Víamos muito ele explicar como é que aquilo podia ser feito. Ele depois torna-se ministro da Defesa. E depois temos aqui o afastamento. Zelensky acaba a afastar Fedorov. Uma das coisas que Fedorov tem dito é que ele não sai pela razão que foi apresentada publicamente. E a razão que foi apresentada publicamente era que ele teria Um conflito com os militares, nomeadamente com o Oleksandr Syrskyi, e que isso não corresponde à verdade. Mas seja como for, Fedorov foi afastado em julho do Ministério da Defesa, terá estado mais ou menos seis meses no cargo. Só que esta demissão gerou manifestações. A Ucrânia tem uma sociedade civil e eu procurei ver alguns vídeos dessas manifestações, e nota-se ali o mesmo ímpeto que já se viu noutras manifestações no passado, aliás, quando se contestava quem estava na presidência da Ucrânia então. Há ali gente. E o que é que eles dizem? E o próprio Fedorov? Em primeiro lugar, o argumentário é interessante: o país está em guerra pela democracia. Portanto, por estar numa guerra pela democracia, o país não pode suspender a democracia, não indo para eleições. Depois, há outra coisa que ele diz também, que do ponto de vista do raciocínio, faz sentido, e que é: não podemos deixar que seja Putin a determinar quando é que nós vamos para eleições, porque também acabaria por ser. Isto é um dos lados, está bem argumentado. Agora, temos a outra questão, que é a possibilidade de Fedorov ser o homem que pode negociar com a Rússia, com Putin, um fim para o conflito que permita conceder à Rússia aquilo que será difícil para Zelensky conceder. Neste âmbito, este anúncio de uma visita por parte de Fedorov aos Estados Unidos na próxima semana, pode ser um sinal. Qualquer dirigente ucraniano ou pessoa com responsabilidades na Ucrânia, todos nós somos livres de viajar para os Estados Unidos, se tivermos a documentação necessária, mas os dirigentes ucranianos, além da segurança que isso implica, não viajam como as outras pessoas, infelizmente para eles. E é óbvio que esta visita não é para ir ali ver a última exposição num museu ou uma peça de teatro. Quando alguém que teve este protagonismo na Ucrânia diz: "Eu vou aos Estados Unidos", a pergunta é: vai ser recebido por quem? Com quem é que vai falar? Que contactos é que já fez? O doutor Mário Soares em mil ó tempo foi ver o seu mon ami Mitterrand e mandou-se para Paris, sem sequer saber se o Mitterrand o ia receber. O Soares corria enormes riscos. Mas o Mitterrand recebeu. Isso foi ótimo para ele. Mas isto aqui não é o mesmo. O que é que esta visita e este anúncio de visita sinaliza? Eu acho que este é um dos assuntos que poderíamos aqui explorar, ou que deveríamos, e depois temos também a frente de guerra propriamente dita. E há sinais, hoje mesmo houve um ataque, na Ucrânia, feito pela Rússia, vários mortos. Estamos numa guerra de enorme desgaste. Quando nós víamos aqueles relatos do que conhecia da Primeira Guerra Mundial, daquela gente enfiada naquelas trincheiras, uma pessoa pensava: mas porque é que não andam, não se mexem? Como é que isto é possível? E aqui é também todo um desgaste. Tivemos notícias do lado russo que dão conta de um país cujo funcionamento, cuja economia está a acusar profundamente esse desgaste. A Rússia está a importar combustíveis, está com muita dificuldade nas suas redes, até na rede comum de abastecimento de combustíveis para veículos. Isso é a guerra a chegar ali ao cotidiano das pessoas, mesmo quando não chega pelos drones, pelos ataques, mas quando as coisas chegam à bomba da gasolina, como se pode ver nas próximas eleições nos Estados Unidos, o cidadão começa a senti-la a tocar-lhe na pele. Temos isso, mas por outro lado, temos neste momento também o conflito a agravar-se, ali novamente o Donbass. Porque tudo isto sendo países enormes, e a Ucrânia é um país enorme ao pé de Portugal, e a Rússia é um país gigante, a verdade é que tudo aquilo é muito pouco quando nós vamos ver nos mapas. Vamos ver o que é que pode acontecer na frente de guerra propriamente dita, nesta frente outra que é já, por exemplo, degradação e o desgaste no cotidiano. E nós tivemos um vice-primeiro-ministro russo, o Novak, a confirmar que a Rússia está a importar combustível. Isto é um sinal importante. Já sabemos que na Rússia há outra capacidade, porque é uma ditadura, de controlar as reações da população. Não há manifestações como na Ucrânia, e é essa também uma das coisas que eu espero que consigamos analisar hoje: como é que é fazer guerra ou estar em guerra num país A Ucrânia, para todos os efeitos, é uma democracia, com as suas fragilidades e circunstâncias, mas em que, em dado momento, se questiona a questão da própria democracia em relação à guerra. E, por outro lado, temos a Rússia. Portanto, eu acho que é destes dias, que presumo muito difíceis para Zelensky, que ele continua com taxas de aprovação, que já não são o que foram no passado, mas continuam a ser expressivas. Mas o que é que uma ida para eleições na Ucrânia pode representar, na minha opinião, pode representar duas coisas. Por um lado, uma suspensão da guerra, que certamente Putin agradecerá, mas também pode representar um reforço das lideranças, que Putin já não agradecerá tanto. E, portanto, eu acho que é por aí, é um programa cheio de perguntas, aqui não há certezas.
Muito bem, é isso. E vamos fazê-las ao Miguel Baumgart e também ao Orlando Samões, especialistas em Relações Internacionais. Bom dia aos dois.
Miguel, começava por si. A Ucrânia está sob lei marcial, não podem ser convocadas eleições, mas isso poderia ser ultrapassado através da ativação de regras que têm a ver com o quadro institucional ucraniano. Mas seria prudente ir para eleições nesta altura?
Olá, bom dia a todos e também a quem nos ouve lá em casa. Eu vou começar por aquilo que a Helena estava a dizer, que é esta viagem de Fedorov aos Estados Unidos. Fedorov não está a trabalhar sozinho. Fedorov está efetivamente a ser patrocinado em parte pelos Estados Unidos, por aquilo que a administração americana vê como uma possibilidade de abrir uma brecha naquilo que é a liderança ucraniana, permitindo, efetivamente, que Fedorov, que tem outra visão da guerra e que tem outra visão daquilo que poderá ser, como a Helena diz, e bem, o reaparecer de uma nova liderança que tenha capacidade de apresentar um plano diferente para a paz. E os Estados Unidos, nomeadamente o presidente norte-americano, está empenhado em arranjar uma solução o quanto antes e para isso precisa, há muito tempo. Aliás, há muito tempo que Zelensky é um alvo não só de Putin, mas também de Donald Trump. As posições que ele foi tomando, as posições que ele foi tomando em relação também na sua parceria com a Europa, nas posições que ele foi tomando em relação a dizer que não haveria capacidade absolutamente nenhuma de abrir a possibilidade da discussão da entrega dos territórios dos chamados oblasts, que já estão ocupados. E, portanto, nós temos essa consciência, até por aquilo que depois vem a público, que é efetivamente esta visita a Washington, que eu acredito que é já preparatória daquilo que poderá ser um futuro de discussão. A questão das eleições e a questão da prudência naquilo que Zelensky tem falado sobre a questão de que neste momento não se poderia perder tempo nessa discussão política, leva-nos aqui a discutir alguns princípios. E Fedorov obviamente que se preparou para isto, e Fedorov hoje é o rosto da oposição a Zelensky, mas cabe lembrar que Fedorov é crescido e aparece dentro daquilo que nós poderíamos chamar o Zelensquianismo, se quisermos utilizar esta expressão. E é alguém muito jovem, 35 anos, mas que tem uma visão da reorganização da guerra e que é uma das pessoas que esteve dentro daquilo que foi a criação de novas tecnologias e de uma nova abordagem, e até da criação daquilo que nós poderíamos chamar um princípio novo na guerra do século XXI. E isso também foi um fator de desgaste entre ele e o chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, que via a guerra num modelo comum, tanques, aviões e bombas, e que não conseguiu entender que a tecnologia, a questão dos drones, a guerra eletrónica, a guerra híbrida feita também pela Ucrânia em resposta à guerra híbrida que hoje já a Ucrânia sofre, mas também a própria Europa, que poderiam efetivamente ter um desgaste superior naquilo que era a guerra na Rússia, fazendo esta guerra de profundidade.
Porque este Fedorov já tinha sido vice-primeiro-ministro anteriormente.
Exato, com a pasta da Tecnologia.
E com a pasta até da Transformação Digital.
Deixe-me só dizer aqui duas coisas, antes de passar ao Orlando, para não monopolizar, que são duas frases que são de alguém que se esteve a preparar. Ele primeiro dá uma entrevista em que lhe perguntam se ele voltaria e se aceitaria voltar para o governo. E ele diz que aceitaria voltar para o governo para a pasta da Defesa. E perguntam-lhe por quê? E ele diz: "Não, atenção, há aqui três posições que são as únicas três posições que importam para efetivamente continuar a fortalecer a Ucrânia e mudar alguma coisa. É ser chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, o que eu não posso ser porque não sou militar, é voltar à pasta da Defesa para continuar o meu projeto e o meu entendimento daquilo que é". Uma das coisas que ele tenta fazer quando entra na pasta é reorganizar a forma como o Ministério da Defesa faziam contratos de compra de material militar e a própria corrupção, que é endêmica na Ucrânia, como é endêmica também na Rússia. E o terceiro ponto, ele diz: "Ou a Presidência da República". E ele abre, nesse momento, a porta do entendimento de que, chefe de Estado-Maior não posso ser, porque não sou militar Da defesa eu não quero voltar, porque eu não me entendo mais com Zelenskyy. E nesta última entrevista que ele dá após a tomada de posse do novo ministro da Defesa, que curiosamente não é um rosto novo, era o ministro que já lá estava de forma interina, o que nos vai também trazer que Zelenskyy já está a ter dificuldade de recrutar gente nova.
Ele esteve vários meses.
Exatamente. Já está a ter dificuldade de recrutar gente nova para o seu petit comité. Termino com esta frase, que ele diz duas coisas: a democracia não pode ser refém da Rússia. E depois ele diz, mais à frente, que para mim parece-me que é o argumento político mais importante deste ponto, e depois nós voltaremos a discutir a questão da guerra, que diz: se Putin conseguir impedir indefinidamente estas eleições, simplesmente prolongar a guerra, e agora a guerra vai ter uma nova escalada e nós vamos entrar, senão numa guerra total, mas numa guerra muito mais brutal do que nós tínhamos visto até agora. Ele diz: "Então Moscovo acaba por ter, na prática, o poder de veto do calendário democrático ucraniano". É verdade que o artigo 157 da Constituição proíbe, por causa da lei marcial. É verdade que nós temos 4,5 milhões de pessoas que vivem fora, temos um milhão e pouco de militares que estão na frente de combate. Tudo isso. Mas da mesma forma que a Ucrânia teve capacidade tecnológica de criar os drones, há efetivamente capacidade tecnológica de criar uma plataforma que permitisse o voto, e essa é uma das coisas que Fedorov deixou nas entrelinhas, mas o reforço daquilo que é o entendimento da democracia, e a Helena disse, o facto de as pessoas saírem à rua se manifestarem, continua a mostrar que existe uma vida democrática na Ucrânia e 820 e tantos dias depois, que Zelenskyy já leva a mais acima do seu mandato, representam duas coisas, que a mim me parece. Começamos a ver Zelenskyy a ter dificuldade de ter pessoas próximas dele que sejam populares, não é populistas, é populares, e Fedorov era muito popular. E vamos nos lembrar em 24 o que aconteceu a Zaluzhnyi, o chefe das Forças Armadas, que também era muito popular e que Zelenskyy, do nada, enviou para Londres como embaixador. Portanto, Zelenskyy tem dificuldade, e com isto termino, Zelenskyy tem dificuldade de poder vir lhe a acontecer a mesma coisa que aconteceu a Churchill, que é não ser o presidente da reconstrução.
Orlando Samões, bom dia.
Como é que podemos ler tudo o que está a acontecer nesta altura na Ucrânia, sendo que se houver uma mudança de poder em Kiev, que leitura é que devemos fazer? Isso não poderá ser encarado como um favor aos russos, uma vez que pode prolongar o conflito, congelá-lo, perpetuá-lo?
Nós estamos aqui perante um conjunto de dificuldades. Para vos cumprimentar e quem nos esteja a ouvir. Este tema das eleições em guerra é sempre muito complicado. Há uma dimensão prática que até foi aqui aludida.
É um pau de dois bicos, não é?
Eu já ouvi números maiores das pessoas até que estão fora, entre 4,5, podem ser mais, podem ser quase 6 milhões e vai se contar também o número de mesas disponíveis em que pudesse haver logística fora da Ucrânia e são cento e poucas mesas. Não seria possível do ponto de vista prático. Mas também foram levantadas dúvidas, mesmo por parte daqueles grupos que no fundo são oposição. Quer Poroshenko, quer a Yulia Tymoshenko, falaram da dimensão prática, que era difícil, mas não só. Disseram até que ponto é que a Rússia não pode estar interessada em fazer disto um palco de alguma confusão, lançar um candidato próprio, em conseguir aqui uma maneira de denegrir de alguma maneira alguns candidatos, como tem acontecido por vezes estas eleições na Geórgia, na Arménia, em que há depois um candidato que é visto como sendo de um lado e o outro do outro. Há uma partição do país, que aliás acontecia.




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