Startupi Qual o tamanho do desafio do ecossistema de empreendedorismo em tecnologia no Brasil frente aos massivos investimentos globais no setor Nvidia e investidores anunciam novo fundo de US$ 500 bilhões em infraestruturas de tecnologias: como startups bra…

Imagine a situação de acordar e perceber que o servidor que dava suporte à sua startup de healthtech foi desligado de forma remota. Ou que o algoritmo de concessão de crédito da sua fintech deixou de operar porque a licença para usar a API de uma empresa estrangeira foi cancelada da noite para o dia. Para o empresário brasileiro, isso vai muito além de um pesadelo de ficção científica; é o risco real de se tornar refém de infraestruturas críticas controladas por terceiros em um mundo que se organiza em torno de monopólios tecnológicos.

No cenário global, estamos em um momento de aceleração sem precedentes — como o anúncio recente de uma aliança entre os gigantes de Wall Street e a Nvidia para um fundo de US$ 500 bilhões voltado à infraestrutura de IA —, enquanto o ecossistema brasileiro ainda opera em outra frequência. Aqui, a realidade é diferente: falta capital de risco profundo (deep tech), investidores que não gostam de correr riscos sem colaterais reais e instituições de fomento com orçamentos cada vez mais apertados.

A questão que ressoa nos escritórios de capital de risco de São Paulo e nos centros de inovação de Florianópolis é: como se destacar em um cenário global que requer trilhões, enquanto nós operamos com milhões?

A diferença é enorme. De um lado, há a possibilidade de formar consórcios que financiam a construção de data centers inteiros e a aquisição de clusters de GPUs antes mesmo de se escrever o primeiro código. Por outro lado, empreendedores brasileiros lidam com rodadas de investimento em que as due diligences se arrastam por meses, cobrando garantias reais (imóveis, recebíveis) para liberar capital que, nos EUA ou na China, iria para protótipos bem no começo da jornada.

Para investidores e fundadores, isso representa uma oportunidade evidente: existe um grande mercado que precisa de soluções que realizem o processamento de dados localmente, que estejam em conformidade com a LGPD de maneira nativa e que abordem questões específicas da complexidade do Brasil (como agrotechs tropicais, fintechs para a população subbancarizada e soluções de saúde pública em escala). O problema é conseguir isso sem o forte apoio estatal que existe na China ou a abundante capitalização privada dos EUA.

Com recursos escassos, o ecossistema brasileiro precisa adotar a inovação frugal. Não é questão de reproduzir o modelo de queima de caixa do Vale do Silício, mas sim de estabelecer uma eficiência sem igual.

O último obstáculo está na mentalidade de distribuição de capital. Muito do investimento em infraestrutura de IA está sendo realizado em todo o mundo, mas muitos investidores locais ainda pensam como banqueiros, exigindo garantias reais em um setor onde o ativo mais importante é intangível (propriedade intelectual e talento).

Para usar uma expressão familiar ao capital de risco brasileiro: apostar em tecnologia profunda nacional não é ato de caridade; é uma forma de reduzir riscos sistêmicos. Se o ecossistema não evoluir para aceitar riscos calculados em tecnologia de ponta, continuaremos a importar soluções caras e genéricas, sufocando a inovação nacional.

O desafio é imenso. Confrontar fundos que administram meio trilhão de dólares pode parecer uma tarefa impossível para aqueles que estão se esforçando para garantir algumas milhões de reais em suas rodadas de Série A. A história da inovação, no entanto, nos ensina que limitações fomentam a criatividade.