Se coragem é uma qualidade tão importante, talvez seja necessário perguntar o que, exatamente, estamos chamando de coragem

Nos primeiros dias de propaganda eleitoral na televisão, uma palavra me chamou a atenção pela frequência com que apareceu na apresentação dos candidatos. Trata-se de CORAGEM, que faz parte do meu estudo e trabalho há 17 anos.

Ela foi apresentada como uma espécie de credencial. Como se dizer “eu sou corajoso” fosse suficiente para diferenciar um candidato dos demais. A questão é que coragem não é uma competência técnica. Quando escolhemos um dentista, não perguntamos se ele é corajoso. Queremos saber onde se formou, sua experiência, sua especialização, sua competência. Quando procuramos um advogado, um engenheiro ou um cabeleireiro, também não colocamos a coragem no centro da avaliação. Procuramos conhecimento, preparo, capacidade e resultados.

Por que, então, na política, coragem aparece tantas vezes como argumento de qualificação? Talvez porque a palavra tenha sido capturada por uma ideia bastante contemporânea de liderança, a de que ser forte significa confrontar, não recuar e falar mais alto. Mas essa não é a definição de coragem.

Há mais de dois mil anos, Aristóteles já tratava do tema em sua Ética a Nicômaco e para o filósofo, a coragem não está nos extremos: ela se situa entre a covardia e a temeridade. O corajoso não é aquele que simplesmente não sente medo, mas aquele que decide honrar sua essência para fazer melhores escolhas.

Trata-se de uma distinção importante, porque a ausência de medo pode ser apenas imprudência e a disposição permanente para o confronto pode ser apenas temeridade. Nesse sentido, chamar de coragem qualquer comportamento agressivo é um erro. Coragem não é brigar, gritar, humilhar o adversário,  ou tomar decisão impulsiva apenas para demonstrar força. É nessa hora que muita gente esquece exatamente quem é para cumprir um papel social ou representar alguém que não é.

Nelson Mandela popularizou uma formulação semelhante ao dizer que aprendeu que coragem não é ausência de medo, mas a capacidade de enfrentá-lo. E isso é o que basta para se construir um legado, com uma história que possa nos representar. 

Por isso, me chama atenção quando a palavra coragem é utilizada como se fosse uma espécie de certificado moral. Coragem não é preparo técnico, mas uma virtude que encanta pelas condições que nos dá para brillhar, simplesmente pelo que somos. 

Coragem é uma escolha.