No país que comete quatro feminicídios por dia, artistas como Teresa Cristina, Roberta Miranda e Daniela Mercury criticam letras que normalizam a violência contra a mulher.

https://p.dw.com/p/5Kh84AnúncioFoi Maria Amélia quem, numa roda de samba, soou o alarme: "Essa música é racista!", alertou a mãe do cantor Chico Buarque. A música a que ela se referia era a marchinha O Teu Cabelo Não Nega (1932), de Lamartine Babo. Daquele dia em diante, a cantora Teresa Cristina não cantou mais aquela música. Aquela e, com o tempo, outras mais, como Mulher Indigesta (1932), de Noel Rosa; Gol Anulado (1976), de João Bosco; Feriado na Roça (1979), de Cartola...

"Já gravei músicas das quais me arrependo. Principalmente as do álbum O Samba é Minha Nobreza (2002). Se fosse hoje, não gravaria", garante Teresa Cristina. "Em geral, são homens falando de mulheres: os homens escolhem o que as mulheres fazem com os corpos delas, o quanto elas ganham, etc. Todos os gêneros trazem letras ofensivas. O samba é apenas um reflexo do que a gente vive. Se a gente vive numa sociedade machista, o samba será machista!"

Em vez de abolir uma canção machista de seu repertório, Doralyce preferiu fazer diferente: adaptou a letra de Mulheres (1995), composta por Toninho Geraes. Em 2018, ela gravou, ao lado de Silvia Duffrayer, uma versão feminista do samba eternizado por Martinho da Vila. No lugar de versos supostamente românticos como "Nenhuma delas me fez tão feliz como você me faz", outros, empoderados, como "Eu não sei porque tenho que ser a sua felicidade".

"Nenhum homem pode dizer quem somos", afirma Doralyce. "Quando ouvimos canções que colocam as mulheres em lugares de submissão, objetificação ou subjugação, vemos uma sociedade que acredita que esse é o lugar destinado às mulheres. É essencial criar o imaginário da sociedade em que queremos viver, e não apenas reproduzir a sociedade em que vivemos. A música pode reproduzir opressões, mas pode também questioná-las e ajudar a transformar o mundo."

Doralyce não está sozinha. A advogada paranaense Camila Queiroz e a produtora cultural gaúcha Danusa Alhandra também protestaram, cada uma à sua maneira, contra músicas machistas. A primeira inaugurou a página "Arrumando Letras" no Facebook, enquanto a segunda criou a campanha "Música: Uma Construção de Gênero" na prefeitura de São Leopoldo (RS). À época, Danusa era secretária de Políticas para as Mulheres do município gaúcho.

Uma das primeiras músicas que Camila corrigiu foi Vidinha de Balada (2017), da dupla Henrique & Juliano: corrigido, o verso "Tô a fim de você e, se não tiver, você vai ter que ficar!" ficou "Tô a fim de você e, se não tiver, tudo bem, vou embora!". Além do sertanejo, havia outros gêneros, como o samba (Faixa Amarela, de Zeca Pagodinho) e o funk (Nosso Sonho, de Claudinho & Buchecha), e até músicas internacionais (Run for Your Life, dos The Beatles).

"Quando corrigi a letra que diz: 'Vai Namorar Comigo, Sim!', muita gente se perguntou: 'Uai, isso é machismo? Por quê?'. Hoje em dia, parece estranho. Mas, na época, passava despercebido. O discurso misógino já estava normalizado em nossa sociedade", avalia Camila. "A repercussão foi positiva porque gerou debate. Havia gente que concordava com as minhas correções, e gente que discordava delas. O mais importante era discutir o assunto."

Se foi uma balada sertaneja que inspirou Camila a criar uma página no Facebook, foi um funk que levou Danusa a fazer uma campanha que denuncia a violência contra a mulher: Surubinha de Leve (2017), de MC Diguinho.

A prefeitura de São Leopoldo publicou imagens de mulheres supostamente agredidas segurando cartazes com trechos de músicas – de Sidney Magal (Se Eu te Agarro com Outro, Te Mato, de 1976) a Bezerra da Silva (Piranha, de 1981).

"Tem gente que acredita que o machismo não vai acabar nunca. Quando a gente se une, consegue mudar o mundo. Até pouco tempo, as mulheres não podiam votar ou serem votadas. Hoje, elas podem. É por isso que acredito na mudança. É possível viver numa sociedade mais justa e igualitária. É uma luta que requer resistência. Não podemos mais tolerar certas músicas. Namorar uma menina à força não é romantismo. É machismo", avisa Danusa.

O machismo no funk foi um dos temas do mestrado de Michele Miranda na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em 2024, a dissertação Funk Brasileiro e Os Embates Políticos de Gênero – O Protagonismo Feminino em Questão virou o livro Funk Delas – A História Contada pelas Mulheres. Na introdução, a autora afirma que o slogan 'Lugar de Mulher é Onde Ela Quiser' ainda é uma realidade distante de ser verdade na indústria do funk.

"Infelizmente, o funk tem músicas que normalizam a violência contra a mulher e fazem apologia ao estupro", lamenta Michele. "Vivo o funk desde que nasci. Fui criada, dos três aos 15 anos, em bairros periféricos de Niterói (RJ). Morava tão próximo ao baile que a janela do meu quarto chegava a tremer. Aquilo despertava meu interesse. No entanto, na minha memória, não consigo me lembrar de escutar nenhuma voz feminina cantando funk."

Uma das pioneiras é Tatiana dos Santos Lourenço, a Tati Quebra Barraco. Cria da Cidade de Deus (RJ), ela começou a frequentar baile aos 12 anos. Lançou o primeiro álbum em 2000, mas só 'furou a bolha' em 2004. Chegou a ter música em trilha sonora de novela da Globo: América (2005). Ano passado, a funkeira que abriu caminho para Anitta e Ludmilla excursionou pela Europa e se apresentou em países, como Portugal, Alemanha e Inglaterra.

Não é só no funk, pondera Michele, que mulher enfrenta preconceito e discriminação. Antes de ascenderem como estrelas do feminejo, vertente da música sertaneja cantada por mulheres, a cantora Marília Mendonça e a dupla Simone & Simaria começaram como coadjuvantes de artistas masculinos. A primeira como compositora de Gusttavo Lima, Lucas Lucco e Jorge & Mateus, e a segunda, como backing vocals do cantor de forró Frank Aguiar.

"Quando lancei meu primeiro álbum de estúdio, há 40 anos, o sertanejo era comandado por bota e chapéu. O machismo imperava!", afirma a cantora e compositora Roberta Miranda. "A representatividade feminina na música sertaneja ainda está aquém daquilo que eu gostaria de ver. Tenho certeza de que ainda vamos ter muitas mulheres no mundo sertanejo compondo. Mas, por enquanto, temos poucas. Precisamos de muito, muito mais."

"O mercado musical, como um todo, é machista!", garante a jornalista e pesquisadora musical Chris Fuscaldo, doutora em Letras pela PUC-Rio. "Sim, acho que mais mulheres compondo ajudaria muito. E acho que seria ótimo também se rolassem mais parcerias entre homens e mulheres. Zélia Duncan, por exemplo, compõe muito com Paulinho Moska e Zeca Baleiro, e Marisa Monte está sempre bem acompanhada de Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes."

A cantora paranaense Julie Wein e a paulista Ana Cañas já gravaram músicas de outros artistas, como Chico Buarque, Ivan Lins e Belchior, entre outros, mas elas também compõem as próprias canções. Julie, por exemplo, é coautora, ao lado de Matheus Prevot, de Homem Virtuoso (2026). Ao contrário do que insinua o título da canção, o protagonista é tudo, menos um poço de virtudes. É repugnante, alienado e desonesto, entre outros 43 adjetivos nada lisonjeiros.

"A canção não é baseada em uma história real. É uma sátira a um arquétipo de homem que se coloca em uma espécie de 'trono moral' dentro de uma sociedade patriarcal", explica Julie Wein. "O mundo seria menos machista se existissem mais mulheres ocupando posições de poder. Ampliar a presença delas é fundamental para que a gente caminhe, de uma vez por todas, para uma sociedade em que homens e mulheres sejam efetivamente vistos como iguais."

Em 2017, Ana Cañas lançou Respeita, um single-manifesto que pede o fim da violência de gênero. Na ocasião, ela gravou um clipe que reuniu 86 mulheres, entre anônimas e famosas, negras e indígenas, periféricas e imigrantes. Durante as gravações, os diretores Isadora Brant e João Wainer pediram às mulheres que fechassem os olhos, pensassem nas situações de violência que sofreram e, em seguida, olhassem para a câmera. Rolaram até lágrimas no clipe.

"Levei décadas para externar um assédio que aconteceu dentro da minha própria família. Foi uma forma de curar essa dor, mas não acredito que apenas uma música consiga mudar o cenário", analisa Ana Cañas. "Sentimos, nos últimos anos, uma mudança de mentalidade. Mas, é uma indústria ainda dominada por homens. É um trabalho de longo prazo. Seguimos batalhando. Como já dizia Rita Lee: 'Não vai ser de um dia para o outro. Mas vai ser'."