Na Copa do Mundo de 2026, filhos de imigrantes são protagonistas em diversas seleções. No século passado, essa também era uma característica marcante da equipe brasileira.

Na Copa do Mundo de 2026, as principais seleções estão repletas de atletas cujos pais nasceram em outros países.

O caso mais evidente é o da França, em que 20 dos 26 jogadores são filhos de imigrantes. Entre eles está o atacante Kylian Mbappé, cujo pai nasceu em Camarões e a mãe é de origem argelina.

Alemanha, Inglaterra e Holanda seguem a mesma tendência, com equipes que refletem sociedades profundamente moldadas por fluxos migratórios das últimas décadas.

Mas houve um tempo em que a seleção brasileira também viveu um fenômeno semelhante e era formada em grande parte por filhos de imigrantes.

Na primeira metade do século 20, enquanto o Brasil atraía grandes levas de estrangeiros, sobrenomes italianos, alemães, ingleses e espanhóis – como Lorenzato, Mutzenbecher, Neville e Ojeda – se tornaram comuns na equipe nacional.

Vários desses atletas chegaram à seleção após se destacar em clubes fundados ou frequentados por imigrantes, muitos dos quais existem até hoje e tiveram papel central na difusão do futebol pelo país. Pertencem ao grupo Palmeiras, Corinthians, Vasco, Cruzeiro e Bangu, entre outros.

Quando o Brasil conquistou seu primeiro título, o Campeonato Sul-Americano de 1919, ao menos cinco titulares eram filhos de imigrantes.

Um deles era o atacante Friedenreich, filho de um alemão. Outro, Neco, tinha pai português. Três jogadores, Marcellino, Barbuy e Bianco, eram filhos de italianos.

Os cinco se projetaram no futebol de São Paulo, onde, em 1920, estrangeiros eram 35% da população da cidade, segundo o IBGE.

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O próprio responsável pela introdução do futebol no Brasil vinha de uma família de imigrantes, o paulistano Charles Miller.

Filho de um escocês, Miller conheceu o esporte ao estudar na Inglaterra e o trouxe ao Brasil em 1895.

Outro brasileiro-britânico, Oscar Cox, ajudou a difundir o futebol no Rio de Janeiro ao participar da fundação do Fluminense, em 1902. Em poucas décadas, famílias ricas cariocas abraçaram o esporte, encampado por agremiações que tinham outras modalidades como carro-chefe – caso do Flamengo e do Botafogo, inicialmente focados no remo.

Paralelamente, o esporte também se popularizava entre as classes baixas brasileiras, engrossadas pelos milhões de europeus, árabes e japoneses que migraram ao país entre os séculos 19 e 20.

A pujança da atividade cafeeira transformou São Paulo em um importante polo industrial e destino de imigrantes. Surgem nessa época vários clubes de futebol que agregavam estrangeiros – caso do Germânia, fundado pela comunidade alemã, do Esporte Clube Sírio, da colônia árabe, e da Portuguesa de Desportos.

Outros times amadores, formados principalmente por operários, disputavam torneios nas várzeas dos rios Tietê, Tamanduateí e Aricanduva - origem da expressão "futebol de várzea".

Vários desses grupos agregavam italianos - comunidade estrangeira mais numerosa na São Paulo de então - e forneceram jogadores para dois clubes fundados na época, o Corinthians e o Palmeiras.

No Rio, operários fundaram o Bangu, e imigrantes portugueses criaram o Vasco.

"Aquele italiano que estava marginalizado em uma sociedade paulistana dominada por aristocratas cafeicultores, a partir do futebol, passa a ter uma identidade e a ganhar um pertencimento", diz à BBC News Brasil o historiador Fernando Galuppo, autor de sete livros sobre o Palmeiras, nascido como Palestra Itália.