Com exceção de projetos pontuais, o Brasil não tem recebido investimentos com horizonte de 20 ou 30 anos em setores de inovação

A perda de credibilidade do sistema de Justiça brasileiro e os riscos geopolíticos acarretados pela eleição, seja de Lula ou de Flavio Bolsonaro, inibem investimentos em áreas estratégicas, no momento em que o mundo vive uma revolução tecnológica que aumentará o abismo entre países avançados e os que seguem a reboque, como o Brasil.

Com US$ 77 bilhões, o Brasil é o quinto maior destino de investimento estrangeiro direto (IED), depois de Estados Unidos, Singapura, Hong Kong e China. Concorrentes diretos, México e Índia receberam em torno de metade desses valores em 2025.

Esses investimentos são atraídos pelo tamanho do mercado, recursos naturais, matriz energética limpa, agronegócio, infraestrutura e oportunidades na transição energética. Tudo isso é bom.

Mas esses números absolutos não contam toda a história. O IED no Brasil não está destinado aos setores estratégicos e inovadores. O que realmente faz a diferença em termos estratégicos são semicondutores, inteligência artificial, data centers, telecomunicações, conexões 5G e 6G, defesa, minerais críticos, energia nuclear, infraestrutura digital e cadeias de suprimentos sensíveis.

Com exceção de projetos pontuais, o Brasil não tem recebido investimentos com horizonte de 20 ou 30 anos, como deve ser, nesses setores. O ambiente de negócios brasileiro não é favorável, por causa da insegurança jurídica e regulatória, corrupção, alta carga tributária, gastos públicos de má qualidade, falta de infraestrutura, juros altos etc.

O vício nas emendas parlamentares retira do Congresso qualquer apetite para votar reformas que alterem esse status quo.

Agora se somam a esses ingredientes do velho custo Brasil dois novos. A corrupção é uma tradição no Judiciário, mas ainda não tinha assumido as proporções atuais, atingindo a cúpula do Poder, de forma escancarada. Isso suprime a confiança na transparência e cumprimento das regras, essencial aos negócios.

Além disso, por sua posição geográfica, ausência de inimigos e diplomacia profissional, o Brasil gozava de um bônus geopolítico encontrado em nenhum outro país de seu porte. Isso se perdeu, com a contaminação da política externa pelas disputas ideológicas, identitárias e eleitorais.

Lula tem incentivado o antiamericanismo e o revisionismo liderados pela China, Rússia, Irã e Coreia do Norte, estressando o status do Brasil perante a Otan. Flavio representa o contrário disso: alinhamento automático a Donald Trump e ao ultranacionalismo israelense.

O Brasil precisa de reformas, instituições confiáveis e equidistância geopolítica. Não terá nada disso nos próximos anos.

É colunista do 'Estadão' e analista de assuntos internacionais

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