A trama de Tom e Elenice em "Quem Ama Cuida" expõe, na ficção, um padrão que psicólogos veem com frequência fora da tela: controle disfarçado de cuidado

Compartilhar matériaEm "Quem Ama Cuida", novela das nove exibida pela TV Globo desde maio, o casamento entre Elenice (Mariana Sena) e Tom (Allan Souza Lima) tem se consolidado como uma das tramas paralelas mais comentadas pelo público.

Vizinha e melhor amiga da protagonista Adriana (Letícia Colin), Elenice é descrita pela própria produção como uma mulher generosa e esforçada que vive presa em um relacionamento abusivo sem perceber os sinais. Tom, por sua vez, vive de bicos na construção civil, se vangloria como provedor da casa e não permite que a esposa trabalhe, evidenciando um comportamento de controle que avança aos poucos, sem que a personagem o reconheça como tal.

A construção do casal tem repercutido justamente por colocar na tela um tipo de dinâmica que raramente aparece de forma explícita, mas que psicólogos encontram com frequência em consultório: relações em que o controle se disfarça de proteção e o afeto convive, lado a lado, com medo.

Para entender como esse padrão se forma e como identificá-lo antes que se torne rotina, a psicóloga, pesquisadora e fundadora do Instituto Vita Alere, Karen Scavacini, detalha os sinais que costumam passar despercebidos, tanto por quem vive a relação quanto por quem observa de fora.

Para Karen, a linha entre um relacionamento saudável e um relacionamento tóxico não está na ausência de conflito, mas no que esse conflito produz. "Uma relação tóxica é aquela em que o vínculo e o relacionamento deixam de ser um espaço de cuidado e passam a gerar medo, insegurança, culpa, controle ou diminuição da pessoa", explica a psicóloga.

Segundo ela, todo relacionamento passa por dificuldades; a diferença está em como essas dificuldades são resolvidas. "Numa relação saudável, mesmo que seja difícil, há diálogo e respeito, e na tóxica, o padrão é dor e sofrimento", completa.

É exatamente esse padrão que a narrativa de "Quem Ama Cuida" tenta capturar: não um evento isolado de violência, mas uma sucessão de pequenas dores que se acumulam até se tornarem parte da rotina do casal.

Um dos pontos mais delicados do tema, segundo a especialista, é que os primeiros sinais de uma relação tóxica raramente se apresentam como sinais de alerta. Eles chegam disfarçados. "Muitas vezes os primeiros sinais aparecem de forma sutil: pressa para controlar a rotina, críticas disfarçadas de brincadeira, ciúme tratado como prova de amor, afastamento de amigos e família, necessidade de saber tudo o tempo todo", descreve a especialista.

A dificuldade de reconhecer esses comportamentos como problemáticos, segundo a psicóloga, tem uma raiz cultural. "Ainda vivemos em uma cultura em que esse tipo de comportamento é visto como saudável e natural, o que faz com que fique ainda mais difícil identificar que se trata de um relacionamento tóxico", afirma.

Embora qualquer pessoa possa se envolver em uma relação tóxica, Karen identifica fatores que aumentam essa vulnerabilidade. Segundo ela, baixa autoestima, histórico de relações abusivas, medo de ficar só, isolamento social, dependência financeira ou emocional e momentos de maior fragilidade na vida são condições que tornam alguém mais suscetível a esse tipo de dinâmica.

Esse cruzamento de fatores aparece com frequência na construção de personagens como Elenice: a perda de autonomia financeira, somada ao desejo de preservar a aparência de uma família estruturada diante da amiga e da comunidade ao redor, cria justamente o tipo de ambiente em que o controle tem espaço para crescer sem ser questionado.

Um dos pontos centrais levantados pela psicóloga é a diferença entre comportamentos que parecem amor, mas funcionam como controle. "O cuidado respeita a liberdade, já o controle tenta limitar a liberdade. A liberdade de ser quem se é e como se é", afirma Scavacini.

Para ela, alguns comportamentos específicos funcionam como sinalizadores claros desse tipo de dinâmica: "quando a pessoa quer decidir com quem você fala, que roupa usa, onde vai, como gasta seu dinheiro, quanto tempo demora para responder ou faz você se sentir culpada por ter vida própria, está muito mais para controle do que para amor".

No caso de Tom, esse padrão aparece de forma direta: ao impedir que a esposa trabalhe e construir uma narrativa de si mesmo como único provedor do lar, o personagem retira de Elenice tanto a autonomia financeira quanto parte de sua rede de convívio fora de casa, dois elementos que, segundo a psicóloga, costumam aparecer juntos em relações marcadas por controle.

O ciúme é um dos temas mais recorrentes em discussões sobre relacionamentos, e também um dos mais usados para justificar comportamentos abusivos. Para Karen, ele não é, por si só, um sinal de problema.

"Ciúme pode aparecer em alguns momentos, mas ele se torna um problema quando vira vigilância, acusação, invasão de privacidade, chantagem ou tentativa de limitar escolhas", explica.

A psicóloga também faz questão de evitar uma leitura extrema do tema. Segundo ela, respeitar a autonomia do parceiro não significa abrir mão de expressar desconfortos. "Em uma relação saudável, é possível falar sobre inseguranças, combinar limites e expressar desconfortos sem controlar, ameaçar ou diminuir a liberdade da outra pessoa", afirma.

Entre as atitudes que ajudam a preservar a individualidade dentro de um relacionamento amoroso, a psicóloga destaca a importância de manter espaços de vida que não dependam do parceiro.

"Manter amigos, interesses, trabalho, estudos, dinheiro, momentos sozinha e decisões próprias é fundamental", afirma a especialista, que resume o princípio por trás dessa recomendação: "um relacionamento saudável não apaga a individualidade de uma pessoa".

A autoestima, segundo ela, funciona como uma espécie de sistema de alerta interno. "A autoestima ajuda a pessoa a reconhecer quando está sendo diminuída ou desrespeitada", explica. O problema é que essa mesma autoestima costuma ser justamente o que se desgasta primeiro dentro de uma relação tóxica, criando um ciclo difícil de romper sozinho.