Ruhanen decidiu se aposentar após três décadas no setor, sendo mais de 20 anos na Omnicom. Em e-mail enviado aos funcionários, ao qual o Valor teve acesso (ver a íntegra ao fim da reportagem), afirmou que a decisão já vinha sendo planejada com o executivo-chefe (CEO) da companhia, John Wren. Com a aquisição do IPG, porém, os dois concordaram em estender sua permanência para que ele conduzisse a integração das operações criativas.

O anúncio surpreendeu executivos das agências do conglomerado no Brasil, apurou o Valor. Embora Ruhanen comentasse havia alguns anos com pessoas próximas sobre a possibilidade de encerrar a carreira, a percepção era de que esse plano ainda demoraria a ser colocado em prática. A saída, no entanto, não é associada a nenhuma polêmica conhecida e ocorreu sem sinais públicos de atrito.

“John e eu já vínhamos planejando minha aposentadoria há algum tempo. Com a formação da OA [Omnicom Advertising, na sigla] e, logo depois, a aquisição do Interpublic, ele e eu concordamos em estender meu prazo para ajudar a moldar e apoiar as agências que amo“, escreveu Ruhanen, no email.

A divisão assumida por Robertson concentra, principalmente, o trabalho de criação das agências da Omnicom, desde o desenvolvimento das campanhas até a definição das estratégias de marca. A estrutura publicitária do grupo possui ainda a Omnicom Media, responsável, sobretudo, pela compra e planejamento dos espaços publicitários, além das áreas tecnologia e dados; e a Omnicom Production, que cuida da produção.

As redes de agências BBDO, McCann e TBWA formam a atual base global da Omnicom Advertising. No Brasil, essas bandeiras estão presentes por meio das agências AlmapBBDO, WMcCann, Africa Creative, Lola\TBWA e iD\TBWA.

A carreira de Robertson

Antes da nomeação, Robertson atuava, desde agosto de 2024, como "chairman" da rede de agências da BBDO no mundo. A escolha acrescentou outro elemento inesperado à troca de comando. Parte do setor acreditava que, após alcançar a presidência do conselho, ele também caminhava para encerrar a carreira. Mas o executivo continuava envolvido nas decisões comerciais e criativas da operação, e é um dos dirigentes mais próximos do CEO global da Omnicom, o que pesou para a nova posição, apurou o Valor.

Além disso, a avaliação nos bastidores é que Robertson deverá ampliar o peso da criatividade e das marcas das agências na estratégia da Omnicom, enquanto Ruhanen era visto como um dirigente mais ligado à administração dos negócios.

Em setembro do ano passado, Robertson lançou o livro “The Creative Shift: How to Power Up Your Organization by Making Space for New Ideas” (A Mudança Criativa: Como Potencializar Sua Organização Criando Espaço para Novas Ideias”, em tradução livre). Na obra, ele questiona práticas difundidas nas empresas, como reunir equipes em torno de quadros brancos, realizar sessões de ideias em salas de reunião ou estabelecer previamente quantas propostas devem ser apresentadas.

Na nota do anúncio, Robertson afirmou que pretende combinar o trabalho das equipes com os dados e as ferramentas de inteligência artificial disponíveis na Omni, plataforma tecnológica do grupo.

“Nosso plano é claro: garantir uma parcela desproporcional das mentes criativas e estratégicas mais promissoras do mundo, equipá-las, por meio da Omni, com as ferramentas e os dados mais avançados do setor, habilitados por IA, para entregar resultados excepcionais a uma carteira de clientes que é a inveja de nossos concorrentes”, disse.

A trajetória de Troy Ruhanen

Posteriormente, foi vice-presidente da rede de agências na América do Norte e chegou aos cargos de presidente e executivo-chefe (CEO) da BBDO nas Américas, com responsabilidade pelas operações na América do Norte, Central e do Sul. Também ocupou a vice-presidência executiva da Omnicom antes de assumir, em 2014, o comando da rede TBWA, função que exerceu por uma década até ser escolhido para liderar a Omnicom Advertising.

Nos meses anteriores ao anúncio, Ruhanen também vinha reduzindo sua exposição pública. No Festival Internacional de Criatividade Cannes Lions deste ano, por exemplo, manteve encontros com clientes, mas adotou uma postura mais reservada e não concedeu entrevistas à imprensa.

“Com a crescente homogeneização do trabalho — causada pelos algoritmos —, me preocupa ver que todo mundo está girando em torno da IA. Porque acham que é mais rápido, mais barato, melhor. E sim, ela pode ser tudo isso. Mas o problema é que, na maioria das vezes, a IA leva você a lugares muito familiares. Lugares comuns. O papel da criatividade é justamente oferecer distinção”, afirmou na ocasião.

Desempenho no primeiro semestre

A mudança de comando ocorre em um momento de expansão dos negócios da Omnicom. No primeiro semestre deste ano, a companhia registrou receita bruta de US$ 12,8 bilhões, crescimento de 66%, e lucro atribuível aos acionistas de US$ 1,02 bilhão, alta de 59,1%. Os resultados já refletem a incorporação do IPG, que ampliou a escala da operação.

À frente da holding segue o CEO e presidente do conselho, John Wren, de 74 anos. Integrante da equipe que criou a Omnicom, em 1986, ele ocupa o principal cargo executivo desde 1997 e preside o conselho desde 2018. Seu contrato prevê a permanência nas duas funções até o fim de 2028. Depois disso, Wren deve deixar o posto de CEO e continuar como presidente-executivo do conselho por mais um ano. A companhia ainda conduz o processo de escolha de seu sucessor.

Confira, a seguir, a íntegra do e-mail de despedida enviado por Troy Ruhanen aos funcionários:

Os últimos nove meses foram de enorme progresso em nossa integração como a nova Omnicom Advertising. À medida que essa evolução continua em um caminho empolgante, quero compartilhar algumas notícias pessoais com vocês.