Operação junta-se a tendência no futebol português: na época 2025/26, a maioria dos clubes profissionais contavam capital estrangeiro na sua estrutura acionista. E a "culpa" começa em Sidny Cabral.

Em 2020 comprou a SAD do Estrela da Amadora por cerca de 70 mil euros. Agora, Paulo Lopo – o agora antigo presidente da SAD do Estrela – vendeu 90% da SAD do clube amadorense por cerca de 40 milhões. A operação, formalizada a 20 de agosto de 2026, representa uma valorização superior a 500 vezes o valor inicialmente investido – e constitui a maior venda de sempre de uma participação de controlo de uma SAD no futebol português. O clube tricolor retém os restantes 10%.

Quando Lopo assumiu o controlo do Estrela, em julho de 2020, a equipa disputava o Campeonato de Portugal, num escalão não profissional. Em seis anos, o clube da Amadora escalou divisões, regressou à Primeira Liga e cumpre atualmente a sua quarta temporada consecutiva no escalão principal. Lopo despediu-se partilhando nas redes sociais uma fotografia no relvado do Estádio José Gomes ao lado dos 11 troféus conquistados durante a sua presidência.

Ver esta publicação no Instagram Uma publicação partilhada por Paulo Lopo (@paulo.lopo)

Os compradores fazem parte de um grupo de investidores alemães com nomes conhecidos do futebol mundial. Thomas Müller, antigo jogador do Bayern – que atualmente joga nos canadianos do Vancouver Whitecaps –, Mats Hummels, ex-central internacional alemão já retirado, e Yann Sommer, guarda-redes suíço que deixou o Inter e foi para o Club Brugge, figuram entre os acionistas do consórcio germânico. À frente da nova estrutura de liderança estará Johannes Mosmang, executivo alemão de 35 anos que trabalhou durante mais de uma década no Bayern e que assumirá a presidência da SAD, em substituição de Paulo Lopo. Francisco Lopo, filho do presidente cessante, mantém-se como diretor-executivo.

O nome da empresa de investimento que lidera o consórcio não é ainda do conhecimento público – a operação já está fechada, mas o anúncio formal deverá ser feito no início desta semana. O que já se sabe é do envolvimento dos referidos nomes como investidores estratégicos, recorrendo à visibilidade, experiência e rede de contactos no futebol europeu. A maior fatia do capital necessário para a aquisição e para as melhorias estruturais planeadas ficará a cargo de dois ou três investidores principais do consórcio. Mosmang, que exerceu funções de assessor de integração e gestão de atletas no Bayern durante mais de uma década, é a face executiva do projeto – e foi o primeiro nome a ser confirmado para a nova estrutura de liderança.

As ambições estão declaradas desde que o Bild noticiou o negócio, em junho: o objetivo do consórcio é colocar o Estrela da Amadora entre os oito primeiros classificados da Liga Portugal, com perspetiva de alcançar lugares europeus. O projeto assenta em dois pilares – desenvolvimento de jovens talentos e aposta no mercado alemão, corredor que o clube já explorou com algum sucesso nos últimos anos. Sidny Lopes Cabral, adquirido ao Viktoria de Colónia no verão de 2025 e vendido ao Benfica em janeiro por seis milhões de euros, é o exemplo mais concreto dessa orientação. Mas não foi caso único nesta ponte Alemanha-Amadora: Dudu, guarda-redes com dupla nacionalidade alemã, foi contratado ao mesmo clube; Chilohem Onuoha foi contratado ao Colónia; Tom Moustier chegou do RW Essen, do terceiro escalão alemão; Max Scholze chegou do SSV Ulm, do mesmo patamar.

Investimento estrangeiro contempla 19 equipas das ligas profissionais de futebol

A venda da SAD do Estrela da Amadora insere-se numa tendência mais ampla no futebol português: na época 2025/26, 19 dos 33 clubes das ligas profissionais têm capital estrangeiro na sua estrutura acionista – o que corresponde a 57,6% do total.

Na Primeira Liga, os casos mais relevantes incluem o Famalicão, cujos 85% do capital pertencem ao grupo Quantum Pacific do israelita Idan Ofer (desde 2018); o Estoril, controlado em 92,3% pelo norte-americano David Blitzer através da Globalon Football Holdings (desde 2019); o Rio Ave, com 80% nas mãos do grego Evangelos Marinakis, dono do Olympiacos e do Nottingham Forest (desde 2024); o Santa Clara, presidido pelo brasileiro Bruno Vicintin, com 55,8% das ações (desde 2022); e o Moreirense, cujos 70% foram vendidos em junho de 2025 ao fundo norte-americano Black Knight Football Club, proprietário do Bournemouth.

Já no Alverca, Vinícius Jr. é a cara mais conhecida dos investidores do clube ribatejano, cujos 64% da SAD pertencem ao consórcio Universo Big 7 S.L., liderado pelo jogador brasileiro. No Sp. Braga, a Qatar Sports Investments – dona do PSG – detém 29,6% do capital. O Sporting tem a angolana Holdimo como acionista agora minoritária com 9,9%, e o Benfica viu o grupo norte-americano Lenore Sports Partners adquirir 5,24% da SAD em maio de 2025. O FC Porto permanece a única exceção entre os “três grandes” sem qualquer participação estrangeira conhecida no capital.