Gosto não se discute, mas e se a História acabar por falta de personagens?
Ela confessou os crimes, e enfrenta três acusações de homicídio em primeiro grau. A defesa alega inocência, invocando psicose pós-parto: Lindsay não era responsável moral pelos seus atos. A acusação diz que sim, era, e aponta premeditação: a ré mandou o marido ao supermercado para ficar sozinha com as crianças. O júri, cujo veredito tem que ser unânime, é de 9 mulheres e 3 homens, e está a deliberar.
Inflamada por um algoritmo ávido por erupções emocionais e groupthinking, a tragédia foi capturada pelo tribalismo das guerras culturais e seu perene jogo de soma zero. Como naquele filme repugnante que venceu o Oscar, é uma batalha após a outra, em vez do debate racional com interlocutores que se dão ao trabalho árduo de dialogar sobre um facto prismático mas singular.
A psicose pós-parto não figura no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), o manual padrão usado nos EUA por profissionais de saúde mental para classificar condições psiquiátricas. Mas, a associada à privação de sono e ao stress de passar o tempo todo com crianças pequenas (embora Lindsay tivesse uma baby-sitter), não se reduz a uma construção social, embora tão-pouco à insanidade. Por isso, a legislação de alguns países (mas não os EUA) admitem o infanticídio como homicídio culposo, não doloso. No passado, o assassínio de bebés pelos pais não era raro – fosse pela pobreza (como no conto dos irmãos Grimm, “João e Maria”), deficiência física (na eugênica Esparta) ou porque as bebés eram menos valorizadas (como na Roma antiga). O Cristianismo tornou o infanticídio uma infâmia.
Hoje muitas mulheres debatem-se com as “contradições culturais” da maternidade: espera-se que as mães sejam profissionais diligentes, mas também que se dediquem intensamente à criação dos filhos. Simone de Beauvoir, que gostava tanto de crianças como Herodes, ralhou: “Nenhuma mulher devia ser autorizada a ficar em casa e criar os filhos. Pois, se tiverem essa opção, muitas mulheres irão preferi-la.”
Aquilo que Frank Furedi chama “determinismo parental”, ou a crença de que os pais são onipotentes na vida dos filhos, implica que a parentalidade se tornou um projeto repleto de culpa. Não há sarilho social que não possa ser explicado pela pergunta: “O que os pais fizeram desta vez?”
O caráter humano é sempre individual, mas somos condicionados pelo contexto. A chamada “momosphere” (a rede de mães influenciadoras do TikTok) beatificou Lindsay Clancy como mártir: “Eu sou Lindsay!” Vestidas de cor de rosa e aureoladas por ring ligths, elas filmam-se a chorar com os bebés ao colo, ou a despejar cubos de gelo na banheira: “Assim posso ficar danada mas sem berrar com o meu filho!” Por que Medeia não pensou nisso?
Bem, talvez todos ganhássemos com um niquinho de limites entre as nossas vidas íntimas e públicas. Quanto mais emocionalmente significativo algo for, menos pertence a uma plateia voyeur. A prioridade é ajuda ou likes? A “momosphere” não deveria se desconectar, desabafar com pessoas queridas e procurar auxílio profissional? Não para a promiscuidade pós-moderna entre linguagem e realidade. Para Foucault, a verdade é um dos produtos do discurso, e não o contrário. Documentos oficiais do governo brasileiro já substituem “mulher” por “pessoas que gestam” e “pessoas que menstruam”.
Em 1856, nos EUA, a escrava Margaret Garner fugiu do cativeiro e, quase a ser apanhada, matou a filha de 2 anos, fruto da violação do escravocrata, para evitar que ela tivesse o mesmo destino. No julgamento, os abolicionistas queriam que a escrava fosse condenada por homicídio, reconhecendo assim a sua humanidade (incompatível com a escravidão). Garner foi inocentada: enquanto propriedade e coisa, não podia ser responsável pelos seus atos. O episódio inspirou o romance da Nobel americana Toni Morrison, “Beloved”.
O então presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Luís Barroso, disse que é preciso “recivilizar o país”, institucionalizando benefícios com base na cor da pele e no gênero. Este ano, foi aprovado no Senado por unanimidade um projeto de lei que equipara misoginia a racismo – e hoje racismo é praticamente tudo (a menos que o alvo seja branco – então é muito bem-feita!).
A luta do feminismo pela igualdade foi necessária e nobre, garantindo às mulheres o acesso à educação e a profissões antes lhes vedadas, o controlo sobre seus próprios bens, maiores direitos no casamento e no divórcio, proteção contra maridos abusivos e o acesso ao voto e a cargos públicos. Porém, o próprio éxito do movimento fez com que instituições se obstinassem incondicionalmente na desvantagem feminina, mesmo se a situação mudasse.
Na educação, sobretudo no ensino superior, hoje as mulheres prevalecem. Na OCDE, 55% das mulheres entre 25 e 34 anos têm nível universitário, contra 38% dos homens. Há muito mais homens sem-abrigo (88%), alcoólicos e toxicodependentes (mais do dobro que as mulheres). Em 2024, eles eram 76,5 % dos suicidas na Austrália (o suicídio é hoje a principal causa de morte entre homens australianos de 15 a 44 anos).
Nos EUA, 32,9% dos adultos entre 18 e 29 anos não tiveram relações sexuais em 2024 – na década anterior, aquele índice foi de 18,9%. Menos casais significam menos filhos. Pesquisa da “Politics and the Life Sciences” informa que as mulheres ocidentais ainda querem entre 2 e 3 filhos. Na Noruega, a preferência é de 2,4. Nos EUA, de 2,7. Mas as taxas reais de natalidade são de apenas 1,4 e 1,6, respectivamente (e a cair). A taxa de reposição populacional mínima é de 2,1 por mulher (duas crianças substituem o pai e a mãe). Porém, cada vez menos jovens formam relacionamentos estáveis nos seus anos mais férteis. Na Noruega, a proporção de mulheres entre 20 e 34 anos que não vivem com um parceiro dobrou desde 1980. Até 2030, metade das americanas entre 25 e 45 anos irá morar sozinha.
Hoje mulheres e homens vivem diferentes combinações de vantagens e desvantagens – assim, a premissa de que um sexo é estruturalmente oprimido pelo outro pode ser inadequada para a compreensão de qualquer um deles. Se não for pedir muito, as botas deviam ser descalçadas em conjunto e sem anátemas reducionistas. A palavra mágica não é “inclusão”? Ou identitarismo é o único arco-íris que consegue ser a preto e branco?
Sim, andamos todos deprimidos: homens, mulheres, crianças, adolescentes, pais, mães e filhos – contorcendo-nos em crises de saúde mental. Como aquela frase de Evelyn Waugh: “Não sabia que era possível ser-se tão infeliz e continuar vivo, mas disseram-me que é uma experiência comum.” Bom, se não é fácil viver com nós próprios, quanto mais com outra criatura.
“A Billion Years of Sex Differences”, de Steve Stewart-Williams, acabadinho de sair, mostra que somos moldados pela biologia e pela cultura (“nature and nurture”). E que a maior parte dos homens e das mulheres é atraída pelo sexo oposto (convém redescobrir a pólvora e reinventar a roda). Mas até quando, com todo o rancor semeado entre eles e elas? Sei lá. Se estamos todos no mesmo barco, não era melhor remar para o mesmo lado, em vez continuar a afundar? Mas embainhar a espada é sempre mais difícil do que empunhá-la.




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