Muitos não se lembram mais, mas existiu uma década atrás uma estranha banda chamada As Bahias e a Cozinha Mineira (mais tarde rebatizada As Baías), crucial para a alteração, em várias direções, do curso da música brasileira contemporânea. O núcleo criativo er…

Muitos não se lembram mais, mas existiu uma década atrás uma estranha banda chamada As Bahias e a Cozinha Mineira (mais tarde rebatizada As Baías), crucial para a alteração, em várias direções, do curso da música brasileira contemporânea. O núcleo criativo era constituído por duas mulheres, Assucena e Raquel Virgínia, e um homem, Rafael Acerbi, que se conheceram como colegas de turma no curso de história da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP.

Como ilustração da excentricidade de Raquel em relação às convenções da música criada por LGBTs na primeira geração em que eles se colocam como plenamente assumidos diante do grande público, Temporada das Estrelas Distantes é entremeado por textos sobre morte escritos por Machado de Assis, Nelson Rodrigues e William Shakespeare. O título do álbum se refere às luzes no céu noturno do território palestino, que não são originadas de estrelas, mas de drones e mísseis. Em vez de sexo, irreverência e romantismo, seus temas centrais, por ora, são guerra e morte, o que gera uma atmosfera pré-apocalíptica às novas letras e músicas compostas e cantadas solitariamente por Raquel Virgínia.

À saída do estúdio Mix embaixo de chuva, Raquel preocupa-se ao perceber que o motorista de um carro blindado esqueceu o farol aceso, para logo a seguir entender que o veículo aguarda preparado a chegada de seu proprietário. Mano Brown surge de dentro do estúdio e cumprimenta artista e jornalista com vigorosos apertos de mão, cruzando mais uma vez com Raquel Virgínia sem demonstrar exata compreensão sobre quem ela é. Historiadora, filósofa, compositora e cantora, Raquel transborda por todos os poros a recusa ao DNA do esquecimento. A guerra está em curso, e ela não gosta disso.

Pedro Alexandre Sanches: Como é seu processo de composição?

PAS: Foi você que o chamou para produzir?

PAS: No álbum anterior tinha músicas de Caetano Veloso e Rita Lee.

RV: É. Esse novo é integralmente meu e fiquei feliz por isso, por ser Ganja, que além de tudo é meu amigo. Temos uma relação de amizade mesmo, de se encontrar para jantar. Este é realmente meu trabalho mais íntimo. Sempre tenho uma questão de querer falar sobre coisas que não necessariamente se referem a mim, e esse trabalho é muito sobre mim, sobre minha vida em vários momentos. É muito confessional.

PAS: E por que ele tem esse tom apocalíptico [risos]?

RV: Você acha que é um apocalipse? 

PAS: Talvez um pré-apocalipse? Ele fala muito de morte, que pode ser algo individual, mas a gente anda coletivamente ameaçado, de fato, nestes tempos.

RV:, Cara, vou confessar pra você que [pausa] não estou gostando de nada, sabe? Em termos de música sinto falta, é como se fosse uma ausência – e não é uma crítica a ninguém, aos artistas. Mas, pelo fato de a gente estar vivendo num extremo, acho que os artistas estão um pouco melancólicos, e sentindo pouco a guerra, as guerras. Em outros momentos extremos da história do Brasil e do mundo a música sempre se manifestou. Não estou vendo motivo para falar que sou poderosa e empoderada, pelo contrário. Estava muito sufocada, fiz esse trabalho num limite da minha linguagem, de achar tudo muito bobo. Perto do que está acontecendo, acho tudo muito bobo.

PAS: Você está respondendo indiretamente que as guerras fazem seu trabalho soar apocalíptico neste momento?

RV: Sim, total, porque estou com medo, e porque realmente me fere. Me fere artisticamente. Estou achando as pessoas muito românticas ou muito eróticas, num momento em que talvez nós tivéssemos que estar um pouco mais levantados. 

PAS: Isso tem a ver também com o avanço fascista? Você não fala tão explicitamente disso no álbum, mas estava na sua mente?

PAS: Como já dizia Elis Regina?

RV: Pode até nos iludir com alguma beleza, mas na verdade aquilo é morte, é guerra,  é a anunciação do extremo.

PAS: E aí você foi procurar textos de William Shakespeare, Nelson Rodrigues e Machado de Assis que falam sobre morte?

RV: Na verdade, fui buscar Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Ali Machado vai exatamente na nossa pequenez, na nossa mediocridade. Por isso o álbum começa pedindo desculpas para os ouvintes pela minha mediocridade, É um texto de Machado em Brás Cubas, pedindo desculpas pela mediocridade dele, porque depois da morte ele descobre quão medíocre ele é. É isso, a gente tem uma expectativa de grandiosidade na juventude e depois vai passando um tempo e você vai percebendo o quanto é medíocre, sobretudo diante do extremo, porque na nossa vida cotidiana cada vez menos a gente consegue fazer alguma coisa. Isso nos leva também a uma grande camada de hipocrisia sobre nós mesmos. O que mais gosto nas Memórias Póstumas é que ele consegue olhar o todo, mas ao mesmo tempo ele consegue [enfatiza] se olhar. Isso me pega muito,  porque estou numa fase em que estou me achando muito medíocre, muito hipócrita, muito violenta.  O álbum cita bomba atômica e guerra nuclear.

PAS: Você fala do 11 de setembro de 2001, e não é a primeira vez, já falou antes. Por quê?

PAS: As pessoas fazem questão de esquecer,  de fingir que não aconteceu? Acontece o mesmo em relação à pandemia de covid-19, que foi há tão pouco tempo.