Marjane Satrapi morreu cedo demais. Mas o humor e a liberdade com que enfrentou a vida voltam a pulsar no grande ecrã. "Persépolis" regressa aos cinemas em ve...
No início de junho, o mundo perdeu uma autora fundamental da banda desenhada contemporânea. Desapareceu uma das artistas que melhor compreendeu que a representação é sempre um campo de batalha. E que nele tudo cabe: do riso ao desespero, da fome ao debate político, da apatia ao entusiasmo.
Marjane Satrapi deixou um vazio que pode ser preenchido lendo e aprendendo o que é o Irão. O que é a demanda de tantos e tantos iranianos pela liberdade, pela democracia. Dentro de portas e na diáspora. Como ela fez.
Deixa obra cinematográfica, muitas vezes em colaboração, e bandas desenhadas. Bordados (Broderies) e Frango com Ameixas, ambas publicadas em Portugal pela Levoir, sendo que esta última também deu filme, em 2011. Filmou em imagem real The Voices (2014), uma comédia negra de terror, e realizou Radioativo (2019), sobre Marie Curie. Todos marcados pelo seu olhar atento, sensível.
Deixa, também, possibilidades, ao ter aberto portas para outras autoras, ao mostrar que a própria vida pode ser matéria de arte. Basta ter a coragem de barrar o medo.
E deixa, sobretudo, essa obra que nos mostrou as ruas de Teerão, a revolução de 1979 e as contradições de uma sociedade que tinha passado de uma ditadura apoiada pelo Ocidente para uma república islâmica. Num preto e branco tão frio nuns momentos, como quente noutros. Persépolis, essa novela gráfica onde escorrem emoções. E deixa o filme homónimo, corealizado com o francês Vincent Paronnaud, vencedor do Prémio do Júri em Cannes, em 2007, e nomeado ao Oscar de Melhor Filme de Animação. Eletrizante e punk, nunca sedativo. Polvilhado de notas de humor ‘satrapiano’ e que agora regressa aos cinemas a partir de quinta-feira, dia 16 de julho, numa nova versão restaurada.
A Bertrand Editora associa-se à distribuidora Midas Filmes para homenagear autora, e promove no sábado, 18 de julho, uma conversa entre Hugo van der Ding, que traduziu a edição de 2015 pela Bertrand, e a atriz Maria de Medeiros. A sessão realiza-se às 18h, no Cinema Ideal, em Lisboa.
A nova versão digital restaurada poderá ser vista em Lisboa, Porto e Coimbra (a partir de 16 de julho), Almada (15 de julho), Faro (6 de agosto), São Brás de Alportel (7 de setembro) e Viseu (10 de setembro).
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