Em seu quarto mandato presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva terá o desafio não só de estancar o encolhimento da indústria de transformação brasileira, ...

Ouvir1×0.5×0.75×1×1.25×1.5×1.75×2×Em seu quarto mandato presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva terá o desafio não só de estancar o encolhimento da indústria de transformação brasileira, mas também de fazer o setor recuperar ao menos uma fatia da participação no PIB que perdeu nas últimas décadas. É o sonho da reindustrização, termo que está no plano de governo do presidente — e que é um feito de altíssima complexidade: mais do que pouco trivial, esse processo é virtualmente inédito no mundo.

Em 1985, a indústria de transformação respondeu por 35,9% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). No ano passado, a participação foi de 13,7%. "Não há evidências internacionais de processos de destaque de reindustrialização", diz Rafael Cagnin, diretor executivo do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), uma organização que se dedica a estudos e pesquisas sobre desenvolvimento econômico e industrial do do país.

Mas "reindustrializar" é muito mais do que simplesmente a indústria de transformação elevar sua participação no PIB, ressalva Cagnin. "Eu acho que foi bastante feliz o [vice-presidente Geraldo] Alckmin, que cunhou a ideia de 'neoindustrialização'. A indústria brasileira precisa se transformar, se modernizar, atualizando todo o seu parque de máquinas e equipamentos e seu processo produtivo [para] desenvolver os setores que têm mais perspectiva de crescimento, que estão crescendo mais aceleradamente", afirma.

A desindustrialização não é um fenômeno recente nem teve uma causa única. Abertura comercial acelerada, no início dos anos 1990, taxas de juros persistentemente altas, limitações logísticas, travas burocráticas, carga tributária elevada, atraso tecnológico e limitações na oferta de mão de obra qualificada estão entre os fatores que abateram o segmento industrial.

Em 2024, o governo lançou o Nova Indústria Brasil (NIB), uma política industrial que prevê linhas de crédito, subsídios e incentivos para estimular investimentos e inovação. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, liderado por Alckmin, responde pelo programa.

Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a política industrial brasileira liberou R$ 755,2 bilhões em crédito para 610 mil projetos até junho deste ano. Representantes de diferentes segmentos empresariais reconhecem que, com o plano, o Brasil já tem ao menos um ponto de partida para a indústria tentar reconstruir seu protagonismo. O problema, afirmam lideranças do setor, é que os efeitos concretos do plano ainda não são tão evidentes — e alguns segmentos temem não ter fôlego para chegar vivos a 2033, ano de referência das metas do Nova Indústria Brasil.

"Está chegando o momento em que a escolha de hoje vai ser determinante para sabermos se, daqui a quatro ou cinco anos, teremos indústria [produzindo automóveis] no Brasil ou não", diz Igor Calvet, presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

Para ele, o Brasil precisa se perguntar de onde virão os carros que os consumidores comprarão no futuro próximo. "Se a escolha do país for que venha de qualquer outro lugar do mundo, estamos diante de uma situação em que toda a cadeia toda de autopeças vai ser aniquilada, em que teremos menos trabalhadores na indústria, menos engenheiros", diz.

Ainda que pareça catastrofismo, o desaparecimento da indústria automobilística de um mercado tradicional não é algo inédito no mundo. A Austrália fabricou automóveis por mais de 100 anos, mas, pressionadas por fatores como redução dos impostos de importação, valorização do dólar australiano e aumento de custos de produção, as montadoras locais encerraram suas operações entre 2016 e 2017. Hoje, só há carros importados à venda no país, onde as vendas somaram 1,2 milhão de unidades no ano passado. No auge, em 1970, as montadoras australianas produziram 475 mil automóveis.

No caso específico da indústria automobilística, o Brasil tem um trunfo que a Austrália não tem: o grande mercado interno.

Ninguém joga fora um mercado de 3 milhões de unidades por ano. Um mercado desse tamanho é um ativo estratégico. O país pode dizer: 'Vocês querem esse mercado? Então vão ter que produzir no Brasil'. Isso é fazer do mercado grande um ativo. Igor Calvet, presidente da Anfavea

A despeito dos problemas na indústria, em 2027, o Brasil deverá retomar o posto de oitava maior economia do mundo, de acordo com projeção do FMI (Fundo Monetário Internacional). Por que, então, é tão importante que a indústria retome espaço na geração de riquezas nacional?

"A justificativa não é ideológica, mas empírica", argumenta a CNI (Confederação Nacional da Indústria) em "Construindo o Brasil 2050: a indústria na agenda dos presidenciáveis", documento que a entidade apresentou aos candidatos à presidência durante a campanha eleitoral. Segundo a CNI, a indústria de transformação é responsável por 47,5% das exportações brasileira de bens e serviços e por 62,4% do investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento. "Além disso, ela também é o segmento com maior potencial de impulsionar o crescimento econômico", diz a CNI. Segundo o documento, cada R$ 1 em investimento na manufatura gera R$ 2,69 na economia. Na agropecuária, o investimento gera R$ 1,71, e na cadeia de serviços, R$ 1,52.

Para analistas, economistas e líderes empresariais, tão importante quanto reindustrializar a economia é assegurar que esse processo tenha continuidade. "A indústria sofre com a tríade de alta carga tributária, problemas de infraestrutura e crédito caro, mas o que mais penaliza o setor são os voos de galinha. As indústrias fazem planejamento para dez, 15, 20 anos. É diferente de um negócio como um restaurante, que pode abrir, ir bem dois, três anos, fechar, e então o dono passa o ponto. Os voo de galinha da economia quebram o planejamento da indústria", opina Edwal Portilho, presidente da Adial (Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás).

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