Exclusivo CNN: Relatos indicam que autoridades recorrem à coerção contra homens vulneráveis em vez de incentivos financeiros para manter tropas na guerra

“Colocaram-no no carro e o obrigaram a assinar um contrato…”

“Agora ele consta como desaparecido… Ainda não assimilei totalmente que, muito provavelmente, ele já esteja morto.”

“É um medo paralisante.”

Estes são relatos de pessoas que afirmam ter vivenciado, na própria pele, o recrutamento militar forçado na Rússia.

Suas histórias — contadas diretamente à CNN e corroboradas por grupos de direitos humanos, além de um número crescente de relatos de indivíduos e publicações em redes sociais — revelam uma mudança silenciosa na engrenagem de recrutamento para a guerra na Rússia, que já entra em seu quinto ano.

Estamos preservando a identidade dessas pessoas, visto que temem represálias.

Desde a campanha de mobilização em massa de 2022 — que provocou um êxodo em pânico através das fronteiras —, a Rússia tem recorrido, em grande parte, a vultosos incentivos financeiros para atrair soldados para o combate.

Contudo, há indícios de que essa estratégia está sendo, aos poucos, substituída pela coerção e pelo engano.

A Rússia tem negado, repetidamente, as alegações ucranianas de que planeja uma nova onda de mobilização em massa, mesmo diante do aumento das baixas no front e da queda nos números de recrutamento.

Ainda assim, à medida que a Rússia intensifica seus ataques, essa “mobilização gradual” — como alguns a denominam — ameaça minar a aceitação pública da guerra, justamente no momento em que o Kremlin mais precisa desse apoio.

“Tenho (ou melhor, tinha) um tio”, diz a mensagem enviada à CNN. “Ele é um homem idoso e doente; tem problemas vasculares e alcoolismo, e mal consegue andar.”

Segundo o relato, em julho, o tio da pessoa — um funcionário de uma empresa estatal de defesa, com quase 60 anos — foi abordado em frente ao seu prédio por vários homens à paisana e levado em um carro.

A família não sabia para onde ele havia sido levado, mas contou que, naquele dia, “entregaram a ele um documento para assinar, supostamente uma ‘notificação de que estiveram ali’. Na verdade, tratava-se de um contrato (para ingressar nas forças armadas)”.

O caso, ocorrido em uma cidade no oeste da Rússia, segue um padrão tristemente conhecido, afirma Artem Klyga, um advogado militar russo radicado em Berlim que orienta cidadãos russos sobre seus direitos em relação ao serviço militar.

Ele relata que tem notado um aumento no número de pessoas que o procuram por causa desse tipo de incidente. “Hoje, isso é uma prática cotidiana”, disse ele à CNN.

A maioria dos casos envolve homens em situação de vulnerabilidade — frequentemente endividados ou que enfrentam problemas de saúde ou alcoolismo. “Eles simplesmente não têm a chance de dizer não; simplesmente não conhecem seus direitos", completou ele.

A “Call to Conscience” (“Apelo à Consciência”), uma coalizão de advogados que presta assessoria a recrutas e reservistas na Rússia sobre a objeção de consciência, informou à CNN ter registrado um aumento nos relatos de recrutamento forçado durante os meses de julho e agosto, com táticas que “se tornam mais severas a cada dia”.

No caso em questão, após assinar o documento, o homem voltou para casa, conta seu familiar; contudo, uma semana depois, ele desapareceu.

Dias mais tarde, ele ligou informando que estava em um campo de treinamento em Luhansk, no leste da Ucrânia — região sob controle russo.

No final de setembro, chegou a notícia de que ele estava desaparecido em combate.