Agentes do mercado financeiro apoiam o candidato de direita radical com doações e contatos, e veem no Missão semelhanças com o PT dos anos 1980 e uma alternativa de poder para 2030.
Role, Da BBC News Brasil em São PauloPublished 11 agosto 2026Tempo de leitura: 11 minEm meados de junho, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) foi questionado em uma live se o candidato à Presidência pelo Missão, Renan Santos, iria "dar trabalho" nessa eleição.
"Qualquer pessoa que for morder uma parte do eleitorado do Flávio, que tiver esse potencial, vai ser turbinada por setores interessados em depois 'compor' o governo, ou indicar nomes para o governo", disse Eduardo Bolsonaro.
"Então, é natural, o Renan Santos só está sendo o papel higiênico de gente da Faria Lima e de outros setores da sociedade. Mas não chega a assustar", completou o filho "03" de Jair Bolsonaro.
Ao menosprezar o impacto de Renan nas eleições de 2026, Eduardo revelou, no entanto, um movimento que avança sem alarde nos corredores de bancos, gestoras de recursos e corretoras de valores: o interesse crescente de parte do mercado financeiro no candidato de 42 anos, com ensino superior incompleto, e que concorre pela primeira vez a um cargo público.
Com seu partido recém-criado a partir do Movimento Brasil Livre (MBL) — grupo que ganhou notoriedade durante as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff —, Renan tem ganhado corações na Faria Lima com um discurso que mistura elementos do ultraliberalismo econômico do presidente argentino Javier Milei com um populismo policial inspirado no salvadorenho Nayib Bukele.
Em 1º de agosto, durante o ato de lançamento da campanha de Renan Santos em São Paulo, oncinhas-pintadas de pelúcia (animal que é mascote do novo partido) vestindo camisetas pretas com a frase "prendeu, matou" eram vendidas na mesa de souvenires. O slogan — que vai na contramão da Constituição brasileira, que proíbe a pena de morte — também podia ser vista na camiseta de alguns dos apoiadores presentes, em sua maioria jovens, homens e pessoas brancas.
Renan tem atualmente cerca de 4% das intenções de voto no primeiro turno, atrás de Lula (41%) e Flávio (34%), e próximo a Ronaldo Caiado (5%) e Romeu Zema (3%), segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil.
A BBC News Brasil conversou nos últimos dias com economistas, gestores e CEOs do mercado financeiro, que confirmam a sedução de parte do setor pelo candidato que tenta se posicionar à direita de Flávio Bolsonaro (PL). Mas reforçam que esse apoio não pode ser generalizado, e que a Faria Lima, como qualquer outro grupo social, é formado por pessoas diversas, com opiniões políticas variadas.
Veja Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Com cerca de 5 km de extensão, a avenida Brigadeiro Faria Lima atravessa quatro dos principais bairros nobres da capital paulista: Pinheiros, Jardim Paulistano, Jardim Europa e Itaim Bibi.
Foi a partir dos anos 1980, mas sobretudo nos anos 1990, que a região emergiu como um novo polo econômico, concentrando sedes de bancos, fundos de investimento e instituições financeiras internacionais, que antes ocupavam principalmente os entornos da avenida Paulista.
A transição geográfica refletiu uma mudança maior da economia brasileira, com a perda de protagonismo da indústria, enquanto o setor financeiro ganhava força, em meio à abertura econômica dos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, privatizações, estabilização da moeda após décadas de hiperinflação, e expansão dos mercados de crédito e investimentos.
Assim, "Faria Lima" virou sinônimo de mercado financeiro no Brasil, ainda que muitos agentes desse mercado estejam em outros locais do país, como o bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, ou cidades americanas como Nova York, Miami, Chicago e Washington.
O economista Tony Volpon é um desses expatriados da Faria Lima. Ex-diretor do Banco Central (2015-2016), com passagem pelo banco UBS e pela gestora de investimentos WHG, ele vive atualmente na capital dos Estados Unidos, onde fundou um negócio de "tokenização" de imóveis (que transforma imóveis físicos em ativos digitais, que podem ser negociados como ações).
Um dos mais vocais apoiadores de Renan Santos no mercado financeiro, Volpon conta que, no passado, foi "meio tucano" e que, em 2018, "namorou" Bolsonaro.
"Porque eu via nele uma coisa disruptiva, eu gostava no Bolsonaro que ele não tinha vergonha de ser de direita", diz o economista.
Decepcionado com o ex-presidente após sua má gestão da pandemia e avanços limitados na agenda econômica, Volpon diz que se aproximou de Renan por identificar nele uma direita "não conservadora" nos costumes, e por ver no Missão uma alternativa de poder, se não para essas eleições, para 2030, quando Lula, pela idade ou por ter sido eventualmente reeleito em 2026, deverá ser carta fora do baralho eleitoral.
"Vejo na direita que a fração do eleitorado que é 'Bolsonaro raiz' está diminuindo, porque as pessoas estão vendo que atrelar a direita aos psicodramas de uma família é ficar entregando resultado eleitoral para a esquerda, quando a esquerda é claramente minoritária no país nesse momento", opina Volpon.
"Então, eu tenho a esperança de que o próximo ciclo eleitoral vai ser muito mais aberto, e aí eu acredito que o Renan e o Missão realmente podem ter um lugar muito mais forte."




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