*** André Campos Ferrão, em serviço para a agência Lusa ***
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*** André Campos Ferrão, em serviço para a agência Lusa ***
Na Avenida de la Playa havia edifícios de dez andares com vista privilegiada para o oceano. Agora, o mar é quase indistinguível perante o cenário de destruição e a altura dos escombros.
Nesta avenida convergiu tudo: os desalojados que ocuparam jardins e as estradas com tendas e sacos de cama, as filas que atravessam quarteirões de pessoas a aguardar pela distribuição de comida da noite, e os que aguardam sentados no separador que divide as duas vias da Avenida de la Playa, enquanto decorrem as operações de resgate.
Luís aproximou-se e pediu-lhe que tivesse calma. É um homem jovem, de 19 anos, calças negras e umas sapatilhas da mesma cor, uma t-shirt cinzenta coberta de pó das escavações, um boné verde de tom escuro, virado ao contrário e um par de óculos de sol a recair sobre a chapéu.
Luís cresceu em Catia La Mar, é filho da terra, conhecia as ruas de trás para a frente, cada edifício. E viu tudo ruir à sua frente.
O complexo residencial à sua frente continha sete edifícios. Ficaram as paredes de dois e continuam a cair pedaços do que outrora foi uma cozinha de um dos apartamentos.
À sua volta um tumulto, cidadãos de Catia La Mar e de outras partes da Venezuela, perguntavam pelos familiares. Queriam saber se os socorristas, todos voluntários, já tinham chegado a um determinado andar, se já tinham vasculhado todos os apartamentos, o que tinham encontrado.
O momento para conversar é escasso, aproximaram-se duas mulheres, que tinham sido chamadas ao local. Procuravam-nas há quase duas horas.
Luís aproximou-se e com a mão no ombro de uma das mulheres anunciou que tinham encontrado o pai sem vida entre os escombros. O tumulto cessa, permanece o silêncio.
Com calma, Luís diz a todas as pessoas que permaneçam sentadas e que vão continuar a procurar até encontrar todas as pessoas.
O som das marretas e das pás mistura-se com o das pessoas que exigem mais comida, os murmúrios na rua e a conversa para tentar distrair o pensamento, enquanto cerca de 40 pessoas continuam a procurar sobreviventes.




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