Ao quebrar o recorde dos 100 metros rasos e se disseminar pelo mundo, eles mostram força
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O robô Tiangong Ultra correu mais rápido que Usain Bolt, mas não soube parar. A matéria discute o avanço dos humanoides em tarefas programadas e o desafio da adaptabilidade no mundo real. China lidera o setor, e a IA busca tornar máquinas capazes de improvisar, levantando questões sobre o futuro da relação humano-máquina.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Em 1964, o britânico Arthur C. Clarke fez uma aposta chocante: para o escritor que ajudou a imaginar o futuro antes que ele chegasse, as máquinas um dia acabariam pensando melhor que seus criadores. Mas ele não via nisso uma tragédia. Ao contrário: dizia que talvez nós, humanos, devêssemos nos considerar privilegiados em ser “degraus para coisas superiores”. Dias atrás, uma cena em Pequim pareceu materializar a profecia — com boa dose de ironia. Um robô correu 100 metros em 8,64 segundos, quase 1 segundo abaixo do recorde mundial de Usain Bolt. O detalhe revelador: a máquina humanoide Tiangong Ultra não soube parar e terminou a corrida batendo numa barreira.
A imagem contém uma síntese eloquente do estágio atual da robótica: as máquinas já conseguem fazer algumas coisas melhor do que nós, mas ainda não sabem lidar direito com o que não estava previsto. A comparação com Bolt é instrutiva. Se o robô foi construído para correr, o jamaicano precisava conciliar músculos, equilíbrio e estratégia. O feito está em outro lugar: máquinas de duas pernas estão deixando laboratórios para atuar em ambientes humanos — justamente os mais difíceis de dominar.
Já é possível vislumbrar o potencial econômico representado por isso. Numa fábrica da montadora alemã BMW, o humanoide Figure 02 — controlado por uma ferramenta de IA — movimentou mais de 90 000 peças, acumulou 1 250 horas de operação e contribuiu para a produção de mais de 30 000 carros. A experiência serviu de teste para uma nova geração de máquinas capazes de combinar sensores, visão computacional e inteligência artificial para executar tarefas no mundo físico. A China assumiu a dianteira nessa corrida. O país é responsável por 97% de todos os robôs exportados no mundo — ao mesmo tempo, sua economia absorve 85% dessa produção. Vitrine disso, os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, realizados em Pequim recentemente, exibiram mais de 2 000 máquinas atuando em 51 modalidades.
A ideia por trás do espetáculo é mostrar os avanços chineses no maior desafio da tecnologia atual: dar um corpo à inteligência artificial. Para a engenharia, fazer uma máquina repetir perfeitamente uma tarefa já é factível — mas levá-la a entender o que está acontecendo ao redor é outra conversa. Um braço robótico industrial pode ser milhares de vezes mais rápido que um trabalhador. Mas ponha um humanoide diante de uma sala bagunçada, com uma criança correndo, um copo prestes a cair e uma ordem que não estava no manual — e a vantagem se esvai.
O mundo real, enfim, é um péssimo lugar para algoritmos que esperam que tudo aconteça como previsto.
“Robôs de fábricas, por exemplo, superam os humanos em uma escala de 1 000 vezes”, disse a VEJA o especialista em robótica Damith Herath, da Universidade de Canberra. O problema, segundo ele, está na generalização: fazer a máquina transferir o que aprendeu em uma situação para outra completamente diferente. Operar no mundo físico exige percepção espacial, conhecimento de física, coordenação motora e capacidade de adaptação. Uma criança de 3 anos, nesse quesito, ainda dá um baile em muitos dos humanoides mais avançados.
É uma diferença que ajuda a colocar o recorde de Pequim em perspectiva. O Tiangong pode correr mais rápido que Bolt, mas ainda não consegue fazer algo muito mais banal: perceber que há uma parede à sua frente e frear. Na pista, ele tinha um objetivo simples e mensurável. No mundo, as coisas raramente são assim. A IA é a peça que pode mudar esse jogo. Os sistemas mais avançados tentam combinar visão, linguagem, raciocínio e movimento para que os robôs deixem de seguir só sequências pré-programadas. A ambição é que recebam uma ordem e descubram como cumpri-la. Em resumo, que deixem de ser ferramentas especializadas para se tornar agentes capazes de improvisar.
A indústria já começa a testar até onde isso pode chegar — inclusive com fins militares: tempos atrás, a Índia impressionou o mundo com um desfile de cães-robôs feitos para atuar no campo de batalha. Nesses casos, o incentivo é poderoso: se uma máquina puder fazer uma tarefa melhor e mais rápido que uma pessoa, a questão deixará de ser apenas tecnológica — será econômica e estratégica. A pergunta não será se “o robô consegue fazer isso?”, mas “quanto custa fazer isso com um humano?”. Arthur C. Clarke talvez estivesse certo ao imaginar que a civilização poderia ser só uma etapa na evolução. A questão é saber se teremos sabedoria para escolher o que entregar às máquinas — e o que continuará sendo exclusivamente nosso. Na corrida dos robôs, a humanidade não pode abdicar da função de árbitro.
Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011




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