Silvia Macedo resistiu por décadas às incorporadoras, agora muda o Rodeio de endereço; nos seus termos
Nos anos 1980, a turma da Democracia Corintiana tinha jantar marcado toda semana no Rodeio. Sócrates e companhia se reuniam para falar de Corinthians e, a cada encontro, alguém dava um palpite novo no arroz – um ingrediente aqui, outro ali – até o prato ganhar vida própria. Na hora do batismo, valeu o assunto do dia: Biro Biro, o jogador. “Foi uma maneira de patentear o arroz”, diverte-se Silvia Levorin durante entrevista à Coluna. Hoje existe arroz biro-biro em qualquer canto do País, mas ele nasceu ali.
Silvia Macedo Levorin é a segunda geração à frente do Rodeio, fundado em outubro de 1958 na Rua Haddock Lobo por dois sócios de Ribeirão Preto.
Eles convidaram o avô dela, Nestor de Macedo, publicitário bem relacionado – “Meu avô era uma pessoa incrível”, lembra –, para ser sócio. O pai, Roberto, assumiu a gestão em seguida. Em dois anos, a família comprou a parte dos fundadores, e ele passou a tocar a casa: trocou o açougue pelo frigorífico, passou a importar carne da Argentina e implantou cedo um plano de carreira para a equipe.
Esse plano foi posto à prova em 1987, no auge da febre das churrascarias em São Paulo, quando o The Place abriu no quarteirão de baixo e contratou quase toda a brigada do Rodeio, maîtres à frente. A Vejinha estampou na capa a ‘Guerra das Churrascarias’. Sem gente pronta, a casa teve que “promover garçons bons que não estavam prontos” – e assumiu o preço: “Ficaram maîtres fracos. Mas a gente achou que era melhor fazer assim, se recolher e preparar o pessoal”.
Pouco antes, o Plano Cruzado já tinha testado o restaurante: congelou-se os preços do cardápio, mas não os custos, que dispararam – ou seja, quanto mais cheio o salão, maior era o prejuízo. “A gente precisava ter todos os cortes de carne, não podia não ter e não podia aumentar o preço. Então, era uma loucura: lotado de gente e o preço mais baixo.”
A saída foi cobrar pelo que sempre fora cortesia – como o segundo pão de queijo –, elevando o tíquete sem descumprir o congelamento. Durou 15 dias e magoou a clientela: “Você podia triplicar o preço, ele não tinha problema, mas você cobrar o pão de queijo ou o café…”
Silvia chegou bem nessa época – e sem querer. O pai não admitia os filhos no negócio: “Ele achava que desgastava muito as relações” – o assunto era proibido em casa. Ela cursou psicologia, migrou para artes plásticas e estava no último ano quando se apresentou na hora do almoço e ouviu do pai: “Aqui as coisas acontecem de manhã”.
Transferiu a faculdade para a noite e aprendeu olhando, porque o pai não tinha tempo de ensinar. “Dois meses depois que eu estava lá, eu já tinha certeza que era o meu lugar para sempre. Ao longo do tempo, eu fui estudando, fui fazendo cursos e tudo mais, mas eu amei aquele destino desde o primeiro dia.”
Mulher no comando de uma churrascaria era raridade nos anos 1980. Ela desarma: “Eu acho que eu fui muito bem recebida, apesar de ser mulher”, graças à admiração da equipe pelo pai. O ambiente também mudou: atualmente, no Iguatemi, o almoço de negócios se divide entre executivos e executivas.
O legado da carne, esse, é inegociável. O padrão começa nos fornecedores, parceiros desenvolvidos ao longo de trinta anos – “super importante nos momentos de desabastecimento, de pandemia”, analisa.
Mas o segredo, insiste, são os cerca de 200 colaboradores da empresa: “Eu brinco assim que o nosso foco são os funcionários, os colaboradores – mas é estratégico isso, porque se a gente pretende dar um atendimento de excelência para o nosso cliente, só vai conseguir se o nosso colaborador estiver satisfeito”.
E o terreno dos Jardins onde o Rodeio nasceu? Cobiçado desde sempre. “Desde que eu comecei a trabalhar, se eu deixasse, eu só atendia incorporadora” – eram ofertas pelo imóvel, todas recusadas. Só cedeu agora, e nos termos dela: com o novo Plano Diretor valorizando o lote, vendeu – e levou o restaurante para uma loja da família ao lado, na mesma Haddock Lobo.
A assinatura é de Isay Weinfeld, cliente que já escolheu até a sua mesa. A nova casa, de mil metros quadrados, abre no dia 6 – e o arquiteto caprichou: arte brasileira nas paredes, acústica confortável e luminárias aconchegantes. No endereço antigo, a torre que vai subir levará o nome do pai, Roberto Macedo, morto em 2012. Está no contrato.
Perpetuar a marca sempre foi o projeto. O pai dela ainda viu a estreia no Iguatemi.
Brasília, também com Weinfeld, chega em 2027. “Como é uma empresa familiar, temos um acordo de sócios e eu tenho que me aposentar com 65 anos – então tem quatro anos.”.
E uma consultoria de governança familiar, revela à Coluna, já cuida da sucessão. “A obrigação nossa é manter o sucesso, e se a gente conseguir melhorar, ótimo”. E o legado permanece. Certa vez, apresentada como dona do Rodeio, Silvia corrigiu com a lição do pai: “Dono é o cliente, eu só trabalho aqui”.
Diretora e atriz do longa conta como um filme espanhol, uma citação de Oscar Wilde e os conselhos de Diane Keaton viraram a comédia mais comentada do Sundance 2026




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