Marco Neves desmistifica mitos sobre a Língua Gestual Portuguesa, analisa os diferentes nomes dados ao pão pelo país e revela porque é que "arigato" não vem de "obrigado" nem "azulejo" de "azul".

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Já em setembro, e seja muito bem-vindo ao "Português Suave", comigo, João Costa e Silva, e com aquele que é o ninja mais consagrado da língua portuguesa, o nosso Marco Neves. Olá, Marco.

Olá. Nisto de pessoas que são chamadas ninjas da língua, também não há muitas. Também não é assim.

Mas nós enaltecemos sempre, que é sempre pra pôr lá em cima. Se é pra ser, é pra serem grandes.

Obrigado. Já acabaram as férias, vamos voltar ao "Português Suave" normal.

Sim. Quer isso dizer que o outro era anormal?

Exatamente. Era um pouco. E foi o "Português Suave" de férias, fomos despachando, que é um verbo curioso, mas espero que não entendam isto mal. Fomos despachando as dúvidas dos nossos ouvintes, mas despachar no sentido de resolvê-las. Espero que tenham gostado deste verão. E hoje vamos voltar às nossas secções habituais, a começar pela língua das notícias. Posso dizer que vamos falar de pão, lá mais pra frente.

E de azulejos e de Japão.

É o que eu posso anunciar desde já.

Nada relacionado umas coisas com as outras, mas pronto, vamos a isto.

Está tudo relacionado com a língua.

Muito bem, vamos à língua das notícias.

Olha, João, não sei se viste algumas notícias que saíram, que há um problema na comunicação do SNS, do Sistema Nacional de Saúde, com os utentes, porque não é possível comunicar em Língua Gestual Portuguesa desde 2021, apesar de ser um dos objetivos que essa comunicação se faça também em Língua Gestual Portuguesa, através de videochamada. Porque a Língua Gestual Portuguesa implica o uso das mãos, dos braços, da cara e por isso terá de ser por videochamada. E como isso apareceu nas notícias, essa notícia desse problema, dessa falha, lembrei-me de voltar a falar deste tema, que já falamos aqui várias vezes. Primeiro, pra dizer duas coisas. No fundo, é um pouco a última secção que falamos de mitos, mas aqui antecipada. Há pessoas, que eu encontrei comentários nesse sentido, que dizem: "Como é possível haver comunicação escrita, que não seria necessário, ou não seria importante, ter essa comunicação através da Língua Gestual Portuguesa?" Mas eu devo sublinhar que o português escrito, para um utilizador da Língua Gestual Portuguesa, pode ser visto como uma segunda língua. Não é a sua língua pela escrita, é uma segunda língua. E, por isso, uma utilização mais direta, principalmente em situações como estas de saúde, em que a pessoa está, por vezes, aflita. A utilização da sua própria língua materna, a sua primeira língua, se quisermos, é mais do que aconselhável. E isto lembra-me aqui alguns mitos relacionados com a Língua Gestual Portuguesa. Ainda há poucos dias recebi alguns comentários nesse sentido. Por exemplo, uma pessoa dizia, e dizia isto não de forma antipática, ele apenas estava convencido, esta pessoa, que chamar língua à Língua Gestual Portuguesa era apenas uma questão politicamente correta, que aquilo não era mesmo uma língua. Mas não, eu devo sublinhar aqui que a Língua Gestual Portuguesa, tal como as outras centenas de línguas gestuais que existem no mundo, todas elas são línguas inteiras, têm palavras. Olhando aqui pra Língua Gestual Portuguesa em particular, tem palavras que dividem o mundo de maneira diferente do português, tem uma história própria. A Língua Gestual Portuguesa não é propriamente uma língua latina, tem uma história própria, uma evolução própria. É muito diferente da língua gestual do Brasil, que é a Libras. Tem uma gramática própria, os verbos vêm no fim, tem sotaques, que é uma coisa que faz muita confusão quando nós falamos disto, mas é possível saber a região de onde vem alguém que está a utilizar a Língua Gestual Portuguesa.

É um mundo, não é? E nós não temos muita noção disso mesmo, dessas possibilidades.

Eu gostava até de aprender.

Tal como tenho outras línguas que gostava de aprender, mas a Língua Gestual Portuguesa não a sei, enquanto língua. Conheço estes dados sobre a Língua Gestual Portuguesa por causa do que estudei, que eu vi e que conversei com pessoas especializadas na língua, mas tenho pena de não a conhecer mais. Se calhar, também era uma língua que podia aparecer na escola com mais frequência.

Há muita gente, Marco, que até confunde e diz muitas vezes linguagem gestual, em vez de língua.

Há duas razões pra isso. Uma delas é este mito de que aquilo não é bem uma língua, é uma forma de linguagem, é português por gestos, estão, portanto, confundindo a natureza da Língua Gestual Portuguesa. Outro motivo, que também já encontrei, é a interferência do inglês, porque nós sabemos que em inglês, língua e linguagem é a mesma palavra, language. E, por vezes, por interferência do inglês, há quem chame linguagem à Língua Gestual Portuguesa, ou estes dois motivos ficam misturados, mas a verdade é que a Língua Gestual Portuguesa tem este nome, Língua Gestual Portuguesa, que está na Constituição, aliás, já falamos disso aqui.

Muito bem. E é muito curioso, quando falaste desta parte dos sotaques, perceber que realmente isso pode acontecer.

Sotaques na Língua Gestual Portuguesa são diferentes maneiras de gestuar, pra usar este verbo um pouco diferente. Se vimos bem, mesmo nas línguas orais, mesmo no português, os sotaques são diferentes formas também de gestuar, neste caso, a boca. A posição da boca é ligeiramente diferente, portanto, a vogal sai de uma maneira um pouco diferente e dizemos as coisas de maneira distinta. Os sotaques do português também são gestos ligeiramente diferentes, que depois se refletem em som, coisa que não acontece na Língua Gestual Portuguesa. A Língua Gestual Portuguesa entra na pessoa pelo canal da visão, a língua portuguesa entra pelo canal auditivo, mas também pode entrar pela visão, na escrita, por exemplo. Ao mesmo tempo, mais distantes, porque são duas línguas diferentes, mas mais próximas do que nós pensamos. E isso é preciso ser sublinhado.