Por Leonardo Sakamoto, no UOL Neste momento em que o Game of Thrones do clã Bolsonaro segue deixando mortos e feridos em batalhas transmitidas pelas redes sociais, poucos lembram que Michelle e Flávio já estiveram unidos no passado recente pelos cheques. E o …
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Neste momento em que o Game of Thrones do clã Bolsonaro segue deixando mortos e feridos em batalhas transmitidas pelas redes sociais, poucos lembram que Michelle e Flávio já estiveram unidos no passado recente pelos cheques. E o que Fabrício Queiroz uniu não é qualquer vídeo que separa.
Se você estava em uma caverna e perdeu o babado, um resumo: a ex-primeira-dama e diretora do PL Mulher deu uma aula de política para seu enteado com o vídeo-bomba em que relatava ter sido maltratada, humilhada e apunhalada por ele sem sequer subir o tom de voz. Já o pedido de desculpas do senador, longe de se retratar, pois embutiu mais críticas à madrasta, teve como objetivo estancar a sangria do voto feminino e religioso.
Como venho dizendo aqui como um papagaio com cãibra antes mesmo de o patriarca do clã ir para o xilindró por tentativa de golpe, o futuro e o sentido do bolsonarismo estão em disputa pelos campos representados por Michelle e Flávio: um ultraconservador e fundamentalista, outro reunindo a extrema direita mais violenta e entreguista. Mas se há um histórico de diferenças, acentuado pela escolha do senador para disputar o Palácio do Planalto, há muitas semelhanças e parcerias.
De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro, ele era o operador do desvio de recursos públicos do gabinete do então deputado estadual e, hoje, presidenciável através da devolução compulsória de parte dos salários recebidos pelos servidores. Gabinete que contratava até família de líder miliciano Adriano da Nóbrega. Os valores foram repassados à família Bolsonaro, que, ainda segundo o MP, teria lavado o montante recebido com a compra de imóveis e uma loja de chocolates.
O Coaf já havia apontado, em 2018, um depósito de R$ 24 mil do faz-tudo para Michelle. Jair prontamente disse, naquele ano, que isso era parte da devolução de um empréstimo que ele fez ao amigo de longa data. Porém, nunca comprovou nada.
O cascalho depositado na conta de Michelle não sumiu da memória, só da pauta. É sintomático, aliás, que ela própria, que hoje se apresenta como vítima de um enteado ingrato tenha compartilhado, por anos, mais do que laços familiares com ele: repartiu o silêncio estratégico sobre de onde vinha o dinheiro que entrava em sua conta. Flávio, por sua vez, nunca foi condenado porque o sistema que o bolsonarismo diz odiar o salvou na hora certa.
A treta entre madrasta e enteado é real, aliados de ambos os lados cospem mais fogo nas redes sociais do que dragões de série no streaming. Mas enquanto o clã se devora em busca de protagonismo num movimento sem o patriarca, convém lembrar que essa guerra pelo controle da extrema direita brasileira é travada por gente que, não faz tanto tempo assim, dividia mais do que holofotes. Dividia cheques.


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