Aliados de Flávio Bolsonaro promovem perseguição a eleitores de Lula após a derrota, com boicotes, demissões e ameaças.

Poucos dias após a derrota de Flávio Bolsonaro, parte de seus aliados decidiu que a melhor forma de lidar com o resultado das urnas é punir quem votou diferente. Começaram uma campanha pela demissão de trabalhadores, boicote a comerciantes e bullying em estudantes que apoiaram Lula, chegando a desafiar lojistas de esquerda a pendurar a bandeira do PT na porta, para facilitar a vida de quem quer deixar de comprar deles (sim, plagiaram alguns dos piores momentos da história da humanidade).

Não vou dar nomes aos pombos, pois o que eles mais desejam é serem alimentados. Mas teve de tudo: deputado fundamentalista, empresário maníaco, influenciador mercenário. Se isso é triste, por outro lado, ajuda a explicar o resultado da eleição de domingo (25).

Ao longo da campanha, o bolsonarismo tentou vender um produto diferente. Prometeu superar a polarização, pacificar o país, unir os brasileiros. Um candidato mais moderado que o pai, de terno bem cortado e discurso de conciliação.

Mas o rótulo descolou nos debates. Na Band e, principalmente, na Globo, o eleitor viu um candidato agressivo, que fez piada com o dedo que Lula perdeu num acidente de trabalho como metalúrgico e zombou da forma de falar de um octogenário. Capacitismo e etarismo em horário nobre, para milhões de famílias que têm uma pessoa idosa ou com deficiência em casa.

Com a eleição perdida, o senador resolveu tirar de vez a fantasia. Não reconheceu o resultado, pediu a anulação da eleição e, diante do pedido de apreensão de passaporte devido à investigação criminal que enfrenta em nada relacionado à eleição, fugiu para os Estados Unidos e, de lá, declarou-se o verdadeiro presidente eleito. Posteriormente, com um pito do governo Trump, corrigiu-se.

Parte dos aliados e seguidores, vendo o líder gritar nu, cheio de som e fúria (em uma versão cafona e medíocre de Macbeth), entenderam o recado: se não venceram nas urnas, tentam punir quem venceu. Não há mais por que fingir. E pelados, o que sobrou foi intolerância.

Isso significa que todos os que votaram em Flávio Bolsonaro são intolerantes? Longe disso. Milhões de brasileiros escolheram o candidato do PL porque estão insatisfeitos com o governo Lula, com o custo de vida, com a violência. Esse voto crítico é legítimo e merece respeito. E Lula, se for esperto, vai ouvir o recado das urnas em vez de tratar a vitória como cheque em branco.

Mas há uma parte, sobretudo do núcleo duro do bolsonarismo, que quer guerra, esmagando quem pensa diferente. Que fala o tempo todo em liberdade de expressão, mas a quer apenas para si.

Vale lembrar: o comerciante que votou em Lula paga imposto, gera emprego e atende eleitor de todos os partidos. O trabalhador não deve satisfação ao patrão sobre o que fez na cabine de votação, pois o voto é secreto justamente para isso. E o que o estudante aprende sendo tratado assim? A odiar.

Por isso, as instituições não podem ver o caso como barulho de rede social. É preciso punição rigorosa, nas esferas trabalhista, civil e criminal, para quem demite, ameaça ou incita perseguição. E imunidade parlamentar não pode virar salvo-conduto para estimular o constrangimento de cidadãos.

Por fim, não deixa de ser irônico. Agindo assim, esses políticos fabricam o próprio problema para 2030. O eleitor moderado está assistindo. E vai lembrar quem tentou transformar a derrota em vingança. E temer que, uma vez no poder, eles façam ainda pior.

Originalmente publicado em UOL