Leonardo Sakamoto apresenta dez medidas para que o jornalismo enfrente mentiras de candidatos durante entrevistas e campanhas eleitorais.

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Candidatos que mentem compulsivamente não participam de entrevistas para esclarecer o eleitorado, mas para sequestrar a credibilidade do veículo e usá-la ao seu favor. Sabem que uma afirmação falsa, quando transmitida ao vivo, recortada em vídeos curtos para as redes sociais ou distribuída sob a logomarca de um jornalismo respeitado, ganha a aparência de informação.

Entrevistar um mitômano político, portanto, não é apenas fazer perguntas e anotar respostas, mas impedir que uma operação de desinformação se disfarce de cobertura eleitoral. Não se trata de abandonar a imparcialidade, mas de compreender que objetividade não significa oferecer à mentira o mesmo tratamento dispensado aos fatos.

A mentira está presente nas relações de poder desde que o primeiro hominídeo contou lorota para garantir o controle do bando. A mentira faz parte da política, da mesma forma que revelá-la é trabalho de fiscalização do jornalismo. Tenho conversado com colegas professores de jornalismo, contudo, sobre o desafio de cobrir eleições em um ambiente em que a mentira viraliza em tempo real. Pois não basta fazer perguntas duras, é preciso reagir diante das respostas.

Dado o início da campanha eleitoral, trago aqui algumas sugestões que enumeramos. São cuidados para não virarmos figurantes no espetáculo de quem fabrica realidades.

Um candidato que mente de forma sistemática raramente improvisa tudo. Ele é ensaiado por equipes de media training para reciclar números falsos, distorcer acontecimentos conhecidos e repetir histórias já desmentidas porque sabe que a insistência produz familiaridade. E familiaridade, para muita gente, soa como verdade.

Mapear previamente essas narrativas, reunir dados, documentos e declarações anteriores e preparar contestações curtas. Quem chega desprevenido passa metade da entrevista tentando entender a falsidade e a outra metade ouvindo sua repetição.

A entrevista não pode seguir normalmente depois de uma afirmação comprovadamente falsa, como se o candidato tivesse apenas expressado uma opinião controversa. Fato não é questão de opinião.

Para quem está ao vivo pode ser difícil dizer que algo é uma mentira com certeza absoluta, só quem já esteve lá sabe como tudo é complicado. Para isso, ter uma equipe nos bastidores dando respostas rápidas é importante.

Outros jornalistas podem fazer checagem em tempo real, com ferramentas de pesquisa e uso de inteligência artificial, e informarem aos entrevistadores através de ponto ou mensagem, fornecendo também as provas de que aquilo é falso. Ou apontarem que o entrevistado está recorrendo a uma mentira que já foi, várias vezes, desmentida.

Uma das maneiras mais eficientes de espalhar desinformação é publicar a falsidade na manchete e deixar a correção para o quarto parágrafo, sob a justificativa de apenas repetir a declaração. Milhões verão o título, mas só uma pequena parcela chegará ao esclarecimento.

Comece pelo que é verdadeiro, mencione a falsidade apenas quando necessário e termine reafirmando o fato. A ordem importa.

Em vez de abrir dizendo que o candidato acusou vacinas de provocarem determinada doença, explique primeiro o que mostram as evidências científicas. Depois, informe que ele contrariou essas evidências e conclua retomando o consenso existente. A mentira não pode ser a porta de entrada nem a última lembrança deixada ao público.

Nessa mesma linha, outra sugestão útil é fazer perguntas sobre resposta. Ou seja, dar um fato como existente e questionar sobre a atitude do candidato diante dele, reduzindo a margem para que ele conteste algo que todos sabem ser verídico.

Alguns candidatos praticam a técnica da metralhadora: disparam tantas mentiras em poucos minutos que qualquer tentativa de checagem parece lenta, enfadonha e impotente. Enquanto o jornalismo verifica a primeira, o candidato já produziu outras dez.

Nesses casos, o entrevistador precisa controlar o ritmo. Deve interromper, escolher uma afirmação por vez e impedir que o candidato avance antes de responder pela anterior. A liberdade de expressão não inclui o direito a minutos minutos ininterruptos de propaganda enganosa transmitida pela infraestrutura de um veículo jornalístico. Isso não é livre debate, mas manipulação do debate público.

Se um candidato diz que dois mais dois são quatro e outro afirma que são 27, o papel do jornalista não é colocar as duas respostas lado a lado e anunciar que o eleitor decidirá. Isso é abrir mão da função da profissão.

Dar tratamento equivalente a uma informação verdadeira e a uma falsidade não produz equilíbrio, mas desinformação com boa diagramação. A imparcialidade exige usar critérios iguais para todos (mesmo tempo de perguntas sobre corrupção, por exemplo), não indiferença diante dos fatos. Se qualquer candidato mentir, seja de esquerda, direita, centro ou da dimensão fantasma, deve ser confrontado da mesma maneira.

Checar números é necessário, mas insuficiente. O público também precisa compreender a função política da falsidade.

Uma mentira sobre urnas pode preparar o terreno para a contestação de uma derrota. Uma invenção sobre determinada grupo social pode estimular perseguições. Uma falsidade sobre vacinas pode provocar mortes. Uma fraude sobre contas públicas pode justificar o desmonte de políticas sociais.