Por Leonardo Sakamoto no UOL Uma mineradora ré por suspeita de integrar um esquema de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, já exportou estanho a empresas norte-americanas com contratos com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O Pentá…

Por Leonardo Sakamoto no UOL

Uma mineradora ré por suspeita de integrar um esquema de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, já exportou estanho a empresas norte-americanas com contratos com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

O Pentágono classifica o metal como indispensável para a produção de componentes eletrônicos usados em seus equipamentos militares.

Apresentando-se como uma das maiores produtoras de estanho do mundo, a White Solder forneceu ao menos 525 toneladas para a americana Indium Corporation entre maio de 2023 e agosto de 2025, segundo registros alfandegários analisados pela reportagem.

A Indium fornece soldas para a Raytheon, fabricante de sistemas militares, como radares e mísseis de alta precisão, que mantém diversos diversos contratos com o governo norte-americano. Com mais de 100 anos de atuação, a Raytheon faturou USD 88 bilhões em 2025.

Um desses contratos, assinado em 2020 por US$ 2,2 bilhões, prevê a produção de sete radares de defesa antimíssil destinados a Arábia Saudita até 2027. Em outro contrato, assinado em 2024 e com validade até 2031, a Raytheon garantiu outros US$ 2,9 bilhões para fornecer aos Estados Unidos unidades do mais moderno radar de defesa aérea e antimíssil desenvolvido pela companhia.

A White Solder também forneceu o metal para a norte-americana Nathan Trotter, que se define como a maior fabricante de estanho e ligas de solda da América do Norte. Entre agosto de 2021 e agosto de 2025, a companhia recebeu ao menos 2,4 mil toneladas da produtora de estanho brasileira, apontam registros alfandegários.

Em setembro de 2024, o Departamento de Defesa americano destinou US$ 19 milhões à Nathan Trotter para a empresa instalar uma unidade de fundição, refino e reciclagem de estanho no estado da Pensilvânia.

Procuradas pela Repórter Brasil, White Solder, Nathan Trotter, Raytheon e o Departamento de Defesa dos EUA não responderam aos questionamentos enviados pela reportagem.

A Indium Corporation afirmou adquirir estanho de empresas que cumprem os critérios da RMI (sigla para Responsible Minerals Initiative), iniciativa global para a promoção de práticas responsáveis no setor de mineração. A White Solder era listada como uma refinaria em conformidade com a RMI durante o período de fornecimento do metal, disse a companhia americana à reportagem. A empresa não esclareceu se a produtora brasileira ainda é sua fornecedora.

Já a RMI disse que irá analisar as evidências disponíveis, realizar novas apurações e consultar as partes interessadas para avaliar se retira ou mantém a empresa na sua lista (as respostas completas podem ser lidas aqui).

A White Solder tem uma posição central no mercado global de estanho: o grupo se apresenta como um dos maiores fabricantes mundiais do produto e ocupa o segundo lugar em arrecadação de royalties da exploração de cassiterita na Amazônia Legal, segundo dados da ANM (Agência Nacional de Mineração).

A cassiterita é a principal matéria-prima usada na fabricação do estanho, um metal empregado como solda em celulares, computadores, painéis solares, veículos elétricos, satélites e equipamentos militares.

Em agosto de 2026, a Justiça Federal aceitou denúncia do MPF (Ministério Público Federal) e tornou a White Solder e seu sócio-diretor réus por organização criminosa, lavagem de dinheiro e garimpo ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami.

Segundo o MPF, a White Solder teria pago R$ 166 milhões à Coopertin (Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil), acusada de funcionar como uma cooperativa de fachada e dar origem legal a mais de 525 toneladas de cassiterita garimpadas do território indígena entre 2021 e 2022.

Procurada, a cooperativa não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.

Essa não é a única suspeita que paira sobre as aquisições de cassiterita da White Solder.

Uma reportagem publicada na última quinta-feira (17) pela Repórter Brasil mostrou que a empresa comprou, entre 2020 e 2025, mais de 2,3 mil toneladas de cassiterita de duas áreas sem indícios de atividade mineral em Campo Novo de Rondônia, no norte do estado.

A verificação, realizada em conjunto com a organização Greenpeace, foi feita analisando imagens de satélite de alta resolução, por meio de sobrevoo e investigações em campo.

Além de apresentar a denúncia contra a White Solder à Justiça, o MPF também abriu um inquérito civil para apurar a eventual responsabilidade de empresas que, segundo o órgão, teriam adquirido estanho da companhia. Subsidiárias brasileiras de dez multinacionais, como Amazon, Microsoft, Disney e Intel, são mencionadas no documento.