Ao anunciar apoio à proposta e sinalizar mudanças a empresários, senador oferece ao adversário um argumento sobre a preservação dos direitos trabalhistas.
Por Leonardo Sakamoto, via UOL
Antes tarde do que nunca, diriam as avós. Antes da eleição do que depois, corrigiriam os marqueteiros.
O problema é o que ele disse longe das câmeras. Conforme apurou Gabriela Echenique, na Folha de S.Paulo, o senador garantiu a empresários que, caso eleito, vai buscar mudar a mudança. Ou seja, vota a favor hoje para desfazer amanhã. Um voto dupla face: uma para o trabalhador ver no horário eleitoral, outra para o patrão guardar no bolso do paletó.
Bonito no papel. Liberdade, flexibilidade, autonomia, todas essas palavras que soam ótimas em palestra motivacional. Só que patrão e empregado nunca sentam à mesa com o mesmo peso. De um lado, quem paga o salário e pode demitir. Do outro, quem tem aluguel vencendo, filho na escola e três ônibus para pegar até o serviço. Sem sindicato no meio, o que se desenha é uma negociação caracu: o patrão entra com a cara, e o trabalhador com a curiosidade de como irá sobreviver.
Há ainda um detalhe saboroso. Ao anunciar o voto, Flávio prometeu que o Estado pagaria a fatura dos empresários. Disse que quem vai pagar essa conta é o governo, porque os empresários estão sufocados. Traduzindo: o trabalhador ganha o sábado de volta, mas o boleto da compensação vai para o caixa público, que é bancado, entre outros, pelos impostos desse mesmo trabalhador.
O fato é que, a adiantar publicamente sua estratégia de dar hoje e tirar amanhã, Flávio entrega a Lula, de bandeja, um discurso. O primeiro capítulo é simples: se a PEC for aprovada nesta quarta, e tudo indica que será, isso aconteceu porque o governo petista se dedicou à pauta enquanto era atacado pelo bolsonarismo, que chamava a proposta de oportunismo e picanha imaginária.
O segundo capítulo é ainda mais eficiente: se os trabalhadores quiserem manter o direito recém-conquistado, terão que votar em Lula. Pois o adversário já avisou, aos donos do cascalho grosso, que pretende alterá-lo assim que sentar na cadeira.
O senador tenta agradar a dois senhores ao mesmo tempo: o trabalhador que quer descansar e o empresário que quer que ele trabalhe mais. Mas, como ensina o ditado que circula em qualquer fila de ponto eletrônico, manda quem pode, obedece quem tem boleto. E, desta vez, quem tem boleto também tem título de eleitor.
Campanhas eleitorais costumam gastar milhões para convencer o eleitor de que o outro lado vai tirar algo dele. Flávio está fazendo esse serviço de graça para o adversário.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário