Quais os argumentos de Christine Webb, em "O Símio Arrogante", para defender que todos os seres vivos têm o mesmo valor, como a ciência e o "conhecimento indígena"? — ensaio de José Carlos Fernandes.

Num estudo realizado por investigadores da Universidade de Yale, adultos e crianças foram confrontados com a situação, hipotética, de dois navios a afundarem-se em simultâneo, um transportando pessoas (em números variáveis) e outro transportando cães ou porcos (em números variáveis), e pediu-se que escolhessem a que navio dariam prioridade no salvamento. Foi “frequente as crianças optarem por salvar diversos cães em vez de um ser humano, sendo que muitas valorizavam a vida de um cão tanto como a de [um] humano. Embora as crianças valorizassem geralmente menos os porcos, a maioria ainda dava prioridade a salvar dez porcos em vez de um humano. Em contraste flagrante, quase todos os adultos escolheram salvar um humano em vez de até cem cães” (pg. 32).

A conclusão de que as crianças estão natural e intrinsecamente imbuídas de um genuíno respeito e amor pelos animais é de uma inacreditável fragilidade. Para começar, Webb parte do princípio que as crianças que participam nestes estudos são a voz da inocência e da bondade primordiais, sem contaminação de ideias recebidas da sociedade, quando, na verdade, essas crianças são imersas, desde que nascem, num imaginário providenciado pela sociedade, que está completamente saturado de animaizinhos amistosos, fofos e profundamente antropomorfizados, que são omnipresentes nos peluches, nos brinquedos, no seu vestuário, na decoração dos seus quartos, nos contos que os pais lhes lêem, nos livros, nos filmes de animação e (last but not least) nas “mascotes” das marcas de alimentos ultraprocessados e nos brindes das cadeias de fast food, ao mesmo tempo que, na maioria dos casos, habitam num meio urbano higienizado e desprovido de animais reais (com excepção de cães e gatos, cujas variantes “de apartamento” são criaturas completamente distintas dos seus congéneres selvagens). Quando as crianças do mundo desenvolvido do nosso tempo escolhem salvar um porco em vez de um humano, não estão a pensar num porco real, que muitas nunca viram ao vivo e a que reagiriam com nojo ou terror se dessem com ele no seu quarto, mas no Piglet de Winnie-the-Pooh, na Olivia da série homónima e até na (popular mas nem sempre simpática) Peppa Pig.

Interagindo com personagens da série de animação Peppa Pig, no Paultons Park, um parque de diversões infantil perto de Ower, no Reino Unido

O suposto amor das crianças pelos animais não só não é “inato” e “natural”, como é inconsequente e superficial, pois as crianças não costumam recusar-se a comer hamburgers, chicken nuggets e cachorros-quentes e reivindicar uma dieta à base de brócolos, espinafres, couves-de-bruxelas, espargos, kimchi e tofu. Ainda que as crianças – muito provavelmente americanas e urbanas – que participaram no estudo da Universidade de Yale tenham entendido, quando colocadas perante uma hipótese abstracta e completamente desligada do contexto do seu quotidiano, que vale a pena sacrificar um ser humano para salvar dez porcos, na prática, cada uma delas irá, ao longo da vida, devorar 28 a 31 porcos, 10 a 11 vacas e 2000 a 2400 galinhas (consumos estimados para o americano médio do nosso tempo), sem sentir qualquer rebate de consciência (o Homo sapiens está na dissonância cognitiva como os peixes na água – nem se dá conta de que vive imerso nela).

A mesma civilização ocidental que Webb acusa de ter criado e promovido a teoria do excepcionalismo humano, tem também sido implacável a denunciar as fraquezas e os delírios de grandeza do ser humano. A ideia do homem como fulcro do Grande Esquema das Coisas tem vindo a ser desmantelada no último meio milénio, como, celebremente, expôs Sigmund Freud no seu argumento sobre as “três feridas narcísicas” infligidas ao homem, a que Webb alude, sumariamente, na pg. 178: “Primeiro foi Copérnico (os humanos não vivem num Universo geocêntrico), em seguida foi Darwin (os humanos são animais) e depois foi Freud (os humanos não são senhores absolutos da sua mente)” (sobre as “três feridas narcísicas”, ver capítulo “Os três golpes: Copérnico, Darwin e Freud” em O que distingue o Homo sapiens das outras bestas?).

Sigmund Freud, c.1921

Como sintetiza Michael Ruse no artigo “Charles Darwin on human evolution” (Journal of Economic Behavior & Organization, Julho de 2009), “Darwin era um crente firme no progresso, fosse ele biológico ou cultural. Acreditava que os humanos estavam no topo da pirâmide [natural] e que os que os humanos europeus estavam no topo da pirâmide humana”. Poderia acrescentar-se que, além disso, Darwin acreditava que os homens estavam acima das mulheres e, quem, nos círculos woke do nosso tempo, somar estas duas convicções, poderá ser levado a, anacronicamente, acusar Darwin de perfilhar ideias racistas e misóginas – o que Webb, apesar da sua devoção por Darwin, não resiste a fazer: “o próprio Darwin, lamento dizê-lo, por vezes apresentou mesmo uma visão racista e sexista da humanidade” (pg. 78).

Darwin mostrou que o homem, longe de ser uma criação divina e pertencer a uma esfera de existência separada do resto da natureza, era fruto dos caprichos da evolução e era, indiscutivelmente, um animal, mas tal não significa que atribuísse a homens e animais o mesmo valor. Em The Descent of Man, Darwin afirmou que “a diferença na mente entre o homem e os animais superiores, embora seja grande, é seguramente de grau, não de tipo”. Ou seja, muitas das características que se julgavam ser exclusivas da mente humana estão também presentes nas mentes dos “animais superiores”, mas há uma “grande diferença” na sua expressão nos homens e nos “animais superiores”. Realce-se o emprego por Darwin da expressão “animais superiores” (higher animals), o que pressupõe que não via os animais como estando todos no mesmo plano, ainda que Webb afirme o contrário na pg. 48.

Representar Darwin com traços simiescos foi uma prática corrente a partir de 1859, ano em que foi publicada A origem das espécies. A presente caricatura, intitulada “Um venerável orangotango”, foi publicada no número de 22 de Março de 1871 da revista satírica The Hornet

O que Darwin reconheceu foi que todos os seres vivos, cada um à sua maneira, exibem complexas, engenhosas e eficazes adaptações morfológicas, fisiológicas e comportamentais, que lhes permitem superar condições adversas e inimigos de várias sortes e prosperar nos respectivos nichos ecológicos. Porém, não é por nos maravilharmos com as capacidades, a versatilidade e a tenacidade das baratas e por o seu sucesso ser comprovado por existirem há mais de 300 milhões de anos (enquanto o Homo sapiens só surgiu há 300.000 anos), ocuparem os mais variados habitats em quase todas as geografias e contarem com efectivos astronómicos, que somos forçados a concluir que seres humanos e baratas têm o mesmo valor (ver capítulo “Uma ninhada de equívocos” em Há animais mais iguais do que outros?).

Já que se fala de baratas, é irresistível sublinhar que nos estudos que, supostamente, comprovam a biofilia inata das crianças, ao confrontá-las com o dilema de salvar pessoas ou salvar outras espécies animais, os investigadores não costumem testar a disponibilidade para salvar baratas, aranhas, escolopendras e escorpiões.

Webb deposita grande esperanças no “movimento crescente para desconstruir o mito do excepcionalismo humano no pensamento cultural e científico ocidental” com o qual declara estar em “grande sintonia” (pg. 274). À ciência ocidental, Webb contrapõe “o conhecimento indígena, [que] foi frequentemente marginalizado ou apagado por ser considerado pseudociência”. Porém, diz-nos, “quando comecei a explorar o conhecimento indígena, apercebi-me de que muito do que ficara a entender sobre ‘ciência’ precisava de ser reavaliado (pg. 277).

A Faculdade Tribal de Leech Lake, no Minnesota, EUA], combina ciência ocidental e saberes tradicionais

Ao contrário de outros críticos da hegemonia da tradição científica ocidental, Webb tem o cuidado de não usar a expressão “ciência indígena”, referindo-se antes a “conhecimento indígena”, “património indígena” e “conhecimento ecológico local” – no meio académico português, os saberes associados aos povos “historicamente oprimidos e humilhados pelo Ocidente” são frequentemente designados com o termo mais pomposo (e geograficamente equívoco) de “epistemologias do Sul” (numa referência ao “Sul Global”). A relutância de Webb em usar o termo “ciência” talvez decorra de reconhecer que o acervo de informação reunido e depurado, ao longo de gerações, pelas culturas indígenas, ainda que indiscutivelmente valioso, não cumpre os requisitos de formulação e teste de hipóteses, análise de resultados, reprodutibilidade, refutabilidade e sistematização que caracterizam a ciência.

O etnobotânico americano Richard Evan Schultes recolhe informação sobre plantas usadas pelos índios da Amazónia, década de 1940

Como escreveu Carl Sagan, em Um Mundo Infestado de Demónios (1995), “a ciência não é apenas um corpo de conhecimentos. É uma forma de pensar, uma forma de questionar o universo, de forma céptica e com uma apurada consciência da falibilidade humana”. Portanto, não basta – como faz Webb – apontar casos isolados em que a sociedade indígena deu mostra de estar consciente de factos e fenómenos da realidade ecológica local que a ciência ocidental só “descobriu” mais tarde, para concluir que o conhecimento indígena está no mesmo patamar que a ciência ocidental. Na verdade, se alguém se entregasse ao exercício (mesquinho e vão) de dissecar metodicamente o corpo de conhecimento indígena de cada tribo, etnia ou região e confrontá-lo, ponto por ponto, com o conhecimento científico actual, certamente que as noções erradas sustentadas pelos povos indígenas sobre astronomia, geologia, geografia, meteorologia, hidrologia, biologia, ecologia, etc. superariam largamente as noções correctas. O conhecimento indígena nunca aspirou sequer ao estatuto de ciência, é antes um repositório de informações úteis sobre o meio em que a comunidade está envolvida e, nalguns casos, uma explicação mítica que tenta conferir coesão e sentido ao mundo observável pelos sentidos e harmonizá-lo com o modo de vida dos povos indígenas. Portanto, é de escassa utilidade tentar promovê-lo a “gémeo intelectual da ciência” (como escreveu o activista lakota e professor universitário Vine Deloria Jr., citado na pg. 281-82).

Na verdade, se quisermos ser rigorosos, boa parte do conhecimento científico produzido no Ocidente antes dos séculos XVI-XVII também não é qualificável, pelos padrões actuais, como ciência, estando mais perto da especulação e da “educated guess” – considerem-se, por exemplo, o modelo geocêntrico do cosmos, a teoria da geração espontânea, a teoria dos quatro elementos ou a teoria dos quatro humores, que, durante séculos, contribuíram para bloquear o avanço do verdadeiro conhecimento na compreensão do mundo. A teoria da geração espontânea, por exemplo, teve uma longa vida: foi formulada pelos filósofos pré-socráticos dos séculos VI-V a.C., foi consolidada por Aristóteles, só começou a ser contestada no século XVII, resistiu às aturadas refutações experimentais por Lazzaro Spallanzani, na década de 1780, e só graças às experiências de Pasteur, na década de 1850, foi definitivamente posta de parte.

Um dos vários exemplos de geração espontânea que constam do livro Histoire admirable des plantes et herbes esmerveillables et miraculeuses en nature (1605), de Claude Duret: esta árvore produz folhas que, se caem na água, dão origem a peixes, se caem em terra, dão origem a aves

Quando chega a altura de apresentar com algum detalhe um caso concreto que comprovaria o valor do “conhecimento indígena”, a escolha de Webb dificilmente poderia ser mais desastrosa.

Baleia-da-gronelândia