Estudiosos combinam conceitos da geopolítica e da pedologia para analisar dados de 17 mil conflitos ocorridos entre a Antiguidade e o século 21.

Priorizar nos meus resultados Google JORNAL DA UNESP | Há pouco mais de um século, em junho de 1815, o destino da Europa passava por uma encruzilhada. Napoleão Bonaparte, um dos generais mais brilhantes de todos os tempos e reinvestido no posto de Imperador da França, jogava sua última cartada. Sob suas ordens, cerca de 70 mil soldados do temido exército francês estavam reunidos em Waterloo, atual Bélgica. Do outro lado do campo de batalha, situado em uma posição mais alta, estava o exército britânico, complementado por militares de nacionalidade holandesa, belga e de diversos estados germânicos. O ataque francês estava previsto para o amanhecer do dia 18. Porém, fortes chuvas que atingiram o campo de batalha na noite anterior levaram o generalíssimo francês a atrasar a investida por algumas horas.

A forte chuva transformou o terreno onde a batalha ocorreria em um lamaçal. Quando o ataque sobreveio, o terreno pastoso dificultava a movimentação dos canhões. As balas que saíam dos canhões não ricocheteavam no terreno: ficavam presas na lama, reduzindo o seu poder destrutivo. Os cavalos lutavam para não atolar, tornando seus cavaleiros alvos fáceis. O exército da Sétima Coligação, que se encontrava em posição defensiva, ganhou tempo para consolidar suas defesas e realocar a artilharia. No fim do dia, os ingleses bloquearam o ataque, o exército francês foi derrotado e o lamaçal de Waterloo se tornou parte da própria história de Napoleão.

A Batalha de Waterloo é apenas um dos mais de 17 mil conflitos analisados em uma pesquisa que combinou história militar e ciências do solo, envolvendo pesquisadores da Unesp.

Muitos estudos anteriores já exploraram o papel do solo em atividades bélicas, mas essa é a primeira vez que cientistas trazem informações aprofundadas sobre a natureza, as características e a classificação do solo dentro desse contexto. No artigo, os pesquisadores levam em conta a textura, drenagem, fertilidade, estabilidade, entre diversos outros pontos que envolvem o solo. A partir da revisão, foi possível mostrar de que forma as propriedades do solo afetam dimensões fundamentais da guerra, como movimentação e abastecimento das tropas, capacidade de alimentar exércitos, engenharia e estabilidade de infraestruturas, camuflagem e também a dinâmica de contaminação e disseminação de doenças. A pesquisa foi publicada na revista Total Environment Advanced.

O estudo adotou uma abordagem interdisciplinar, cruzando dados de satélite, pedologia e história para demonstrar a influência do solo nas guerras históricas ocorridas entre 1468 a.C. e 2003. Os resultados demonstram a importância do solo para o desenvolvimento e o resultado dos conflitos militares, e também a necessidade de protegê-lo e conservá-lo – não apenas por fatores ambientais, mas também por questões políticas.

Gian Franco Capra, professor da Universidade de Sassari e primeiro autor do artigo, explica que a ideia de desenvolver o trabalho surgiu de uma constatação simples, mas persistente. “Na ciência do solo, frequentemente discutimos os modos pelos quais as guerras resultam em danos ao solo. Mas raramente nos questionamos sobre como o próprio solo ajuda a moldar as guerras”, diz.

Ao comentar o caráter interdisciplinar da abordagem, Capra pondera que, no ambiente da sala de aula, as discussões que abordam a degradação do solo são constantemente associadas a temas como segurança alimentar e transição energética. E, cada vez mais, a questão do controle dos solos férteis e dos recursos naturais está influenciando o campo das tensões geopolíticas e conflitos internacionais.

“O mesmo solo que sustenta a agricultura e os assentamentos humanos também influencia a forma como estradas se deterioram sob a chuva, como trincheiras permanecem estáveis, como poluentes se acumulam e como patógenos se proliferam em acampamentos militares”, aponta Capra. “O solo não decide onde as guerras começam, mas ajuda a determinar como elas se desenvolvem e qual será o seu custo humano e ambiental.”

Terra boa para plantar e construir fortes

Rafael Barroca Silva, doutor em Ciência Florestal pela Faculdade de Ciências Agrárias da Unesp, câmpus de Botucatu, e coautor do estudo, explica as diferentes formas pelas quais o solo pode influenciar uma guerra. As tropas de Napoleão que sofreram em Waterloo, por exemplo, tiveram dificuldades para lutar porque se viram refreadas pelas características dos luvissolos, que são ricos em argila, e dos cambissolos, solos minerais em estágio inicial de formação, que acabam formando lama.

Porém, se são péssimos para quem precisa lutar pela própria vida, esses solos são férteis e dotados de boa capacidade de produção de alimentos. Essa fertilidade gera cobiça e, inevitavelmente, conflitos; aliás, segundo os dados do levantamento, os cambissolos estavam envolvidos em quase 20% dos conflitos estudados.

Como exemplo de fertilidade, Silva também destaca os neossolos flúvicos formados nos deltas dos rios Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia, durante a Idade do Bronze. O solo fértil e firme permitiu que as muitas civilizações que dominaram aquela região prosperassem graças ao plantio e ao transporte de mercadorias. Mas também se mostrou muito adequado a atividades de caráter militar, como a construção de fortificações, garantindo a expansão e proteção territorial das civilizações que viviam ali. “São solos com boa drenagem, com uma firmeza de terreno bastante interessante. Essa firmeza se mostrou excelente, por exemplo, para dar passagem às carruagens militares usadas em conflitos”, explica.

Ele faz um adendo: se os solos da Mesopotâmia se destacavam por sua fertilidade na Antiguidade, hoje a região é bem mais árida, devido às mudanças climáticas e outros eventos que tornaram o terreno improdutivo. “É importante pontuar que as características dos solos também se transformam com o tempo”, explica o pesquisador, ressaltando que a metodologia do estudo abrangeu também as mudanças ocorridas nos solos ao longo dos séculos.

Solo do Vietnã prejudicou invasores

Contrapondo-se à estabilidade dos neossolos flúvicos, os pesquisadores destacam os solos cujas características concorrem para atrapalhar algumas guerras. É o caso dos argissolos, que representam cerca de 24% da superfície do território brasileiro. “São solos comuns em regiões de floresta tropical úmida, como na Amazônia, no interior de São Paulo e em Minas Gerais”, explica o cientista.

Um exemplo da influência dos argissolos sobre o desenvolvimento de um conflito é o Vietnã, onde as guerras perduraram de forma quase ininterrupta entre as décadas de 1940 e 1970 contra exércitos invasores e ocupantes japoneses, franceses e norte-americanos. “É uma região tropical, cheia de f