O vereador destrincha o avanço da verticalização de São Paulo após a revisão do Plano Diretor de 2023: “O que vemos hoje é uma prefeitura leniente com um mercado predatório.” O post São Paulo já foi pro brejo? Nabil Bonduki fala sobre parques virando shoppings, demolições duvidosas e poluições assustadoras apareceu primeiro em Trip | Conteúdo que transforma .
O vereador destrincha o avanço da verticalização de São Paulo após a revisão do Plano Diretor de 2023: “O que vemos hoje é uma prefeitura leniente com um mercado predatório.”
em 3 de julho de 2026
Nabil Bonduki virou um fenômeno improvável da internet aos 71 anos. Professor titular de planejamento urbano na FAU-USP há quatro décadas e vereador em São Paulo ( PT) em seu terceiro mandato, o arquiteto, agora também “creator”, percorre a metrópole de cabo a rabo a pé — de um campo de futebol de periferia a um casarão ameaçado de demolição no centro — e transforma suas investigações e denúncias sobre as mazelas do espaço urbano em aulas públicas para quase 200 mil seguidores em seu perfil no Instagram. O mais inusitado é que a raiz desse olhar nasce num menino que não podia correr.
A seguir, os melhores momentos da entrevista conduzida por Paulo Lima no Trip FM, o talk show da Trip. Você pode ouvir o programa no play desta página, no Spotify, Deezer, YouTube, Apple Podcasts e outras plataformas de áudio.
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Paulo Lima: Você é de origem síria, e eu sei que de certa forma sua história começa na clássica 25 de Março. Como era o pequeno Nabil e a família à sua volta?
Nabil Bonduki: A história do meu pai é interessante porque ele nasceu aqui no Brasil. Meu avô veio em 1898 e começou como mascate. Meu pai nasceu no Bom Retiro e, com 5 anos, foi levado por ele para a Síria, para a cidade de Homs, de onde vem toda nossa família. Isso foi em 1914, pouco antes da Primeira Guerra. Meu avô voltou prometendo buscá-lo um ano depois, mas nunca mais voltou por causa do conflito. Meu pai só retornou ao Brasil, para reencontrar o pai, aos 18. Meu avô, que começou como mascate no fim do século XIX, em 1929 já era dono de uma fábrica no Belenzinho e de uma loja na 25 de Março, mas faliu na quebra da Bolsa de Nova York. Aí meu pai recomeçou como mascate, repetindo a história do avô, até virar sócio e depois comprar uma tipografia que publicava literatura árabe.
Paulo Lima: Li que você teve uma infância marcada por uma cardiopatia que o proibia de esforço físico. O quanto isso moldou o seu caminho?
Nabil Bonduki: Quando eu tinha três anos, tive uma caxumba forte seguida de uma nefrite e quase morri de febre. Foi aí que o médico da família, Chucri Zaidan, que hoje dá nome à avenida ali na frente da Globo, viu uma alteração no meu coração. Falaram que eu tinha um sopro, que não poderia fazer exercício físico. Quando eu ia jogar bola, meu pai me tirava da rua. Fiquei com essa restrição até os 18, e isso me fez voltar para a leitura e para os estudos. Eu era o primeiro aluno da classe, mas sofria um certo bullying por ser o menino que não jogava bola, super CDF. Quando fiz 18, meus pais me deixaram optar e decidi que queria operar.
Paulo Lima: Pouca gente sabe que sua cirurgia cardíaca na juventude deixou uma herança silenciosa e dramática que você só descobriu décadas depois. Como foi receber o diagnóstico da hepatite C e buscar a cura na rede pública?
Nabil Bonduki: Devido às transfusões de sangue comuns na época da cirurgia, acabei contraindo o vírus da hepatite C. Só fui descobrir o diagnóstico 35 anos depois, em 2007, de forma fortuita após uma gripe. Em 2018, quando surgiram medicamentos novos e eficazes, recorri ao sistema público. Fiquei um ano na fila do SUS para conseguir a medicação, fiz o tratamento e alcancei a cura. Essa experiência me deixou com uma espécie de inércia metabólica no fígado que hoje desregula minha glicose — o que me obriga a passar longe dos doces árabes —, mas reforçou minha defesa intransigente da saúde pública.
Paulo Lima: Como você foi magnetizado pela cidade, a ponto de virar arquiteto e urbanista?
Paulo Lima: Você vem de um lugar de privilégio, que costuma levar as pessoas a carreiras guiadas pelo dinheiro. Escolheu ser professor, que infelizmente ,de maneira geral ,é uma carreira que remunera mal . O que te levou por esse caminho?
Nabil Bonduki: Desde o colegial eu tinha uma visão crítica do próprio ambiente onde estava, o Dante Alighieri, uma escola de elite onde eu era uma espécie de patinho feio. No meu tempo de faculdade, a USP dos anos 1970 vivia a ascensão do movimento estudantil, mas nunca aderi a nenhuma das tendências, achava as posições muito dogmáticas. Quando surgiu o PT, com o Lula propondo algo que não era o velho trabalhismo nem o Partido Comunista, me encantei: era o projeto de construir um partido de baixo para cima. A minha vocação de professor foi natural. Quando meu pai faleceu, a família queria que eu cuidasse da loja na 25 de Março, mas recusei. Acumular capital com a arquitetura nunca foi meu objetivo principal.
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Paulo Lima: Você virou um dos melhores exemplos de um lado positivo da internet, dar escala para a voz de um indivíduo. No seu caso, a multiplicação do olhar de um titular de um mandato público que sai do gabinete e vai todo dia pras ruas fiscalizar, denunciar e ainda ensinar. Como nasceu esse projeto de expansão da sua trajetória?
Nabil Bonduki: O que faço hoje na internet é o que eu já realizava fora dela: desde os anos 1980 faço visitas técnicas com meus alunos para mostrar a cidade. Na internet, ganhei escala para um público que antes era restrito, e tenho que dar o crédito à equipe que me acompanha desde o fim de 2023 e percebeu esse potencial. Nunca fui estridente. Procuro fazer comentários que fujam da dinâmica do atrito e busquem entender a raiz da situação.
Paulo Lima: Para muitos observadores, a partir do Plano Diretor de 2023, a cidade começou a ser desfigurada: adensamento excessivo e mal planejado, muita demolição duvidosa, destombamentos, permissividade, toma lá dá cá, interesses privados e setoriais se sobrepondo aos das comunidades e cidadãos e suspeitas de corrupção. O que deu errado?
Nabil Bonduki: Preciso começar por 2014, quando fui relator do Plano da época e chegamos a um excelente ponto de equilíbrio: consolidamos o conceito de que o adensamento deve acontecer perto dos eixos de transporte coletivo de massa, com fachadas ativas dando vida às calçadas, e determinamos que os perímetros de interesse cultural, ambiental ou afetivo ficassem de fora da verticalização. Entre 2014 e 2023, o mercado imobiliário foi desfigurando esses princípios com brechas jurídicas e uma fiscalização frágil. Prédios inteiros são aprovados como Habitação de Interesse Social para obter incentivos, mas comercializados para a alta renda. O erro de 2023 foi que, em vez de corrigir essas distorções, a revisão legalizou as brechas. Ampliaram-se as áreas de verticalização sob a justificativa distorcida de produzir habitação social, e o Conpresp passou a adotar uma postura hiper-resistente a qualquer tombamento, mais alinhado às incorporadoras do que à memória da cidade, a ponto de destombar duas vilas históricas na Zona Leste, onde já há demolições avançando. Não sou inimigo do mercado imobiliário: a construção civil é fundamental e pode ter uma relação saudável com a cidade, desde que respeite os limites da coletividade. O que vemos hoje é uma prefeitura leniente com um mercado predatório.
Paulo Lima: E o ambiente político hoje, dá para enfrentar tudo isso pela Câmara?


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