A crescente complexidade do ambiente de negócios global tem levado investidores a incorporar variáveis além dos indicadores macroeconômicos tradicionais na avaliação de riscos e oportunidades no Brasil. “Hoje eles analisam simultaneamente geopolítica, tecnolo…

A crescente complexidade do ambiente de negócios global tem levado investidores a incorporar variáveis além dos indicadores macroeconômicos tradicionais na avaliação de riscos e oportunidades no Brasil. “Hoje eles analisam simultaneamente geopolítica, tecnologia, energia, segurança jurídica e estabilidade institucional”, pontuou Diego Fernandes, fundador da O8 Partners, no CFO Fórum, evento realizado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF-SP), no último sábado (20), que contou com a presença do ex-presidente da república Michel Temer.

A conferência, que reuniu mais de 60 diretores financeiros de grandes companhias nacionais e multinacionais, teve como destaque o painel de abertura com Temer, mediado por Fernandes e pelo presidente do IBEF-SP, José Filippo. O encontro discutiu temas estratégicos para a atração de capital e a relação entre segurança jurídica e desenvolvimento econômico.

O ex-presidente apontou a Constituição Federal de 1988 como pilar para sustentação da confiança dos investidores no país. “Temos uma Constituição fortíssima, mas é preciso organizar o cumprimento do nosso estatuto. Caso contrário, cria-se uma instabilidade que impede o aporte nacional ou estrangeiro”, ponderou, ressaltando que o Executivo deve pautar sua atuação pelo diálogo e pela harmonia entre os Poderes.

No contexto da geopolítica atual, Temer defendeu que o Brasil adote uma posição multilateralista para preservar suas frentes comerciais. “Hoje, nosso principal parceiro é a China, e o segundo são os Estados Unidos. Os países árabes compram 45% da nossa carne de frango, ao passo que temos acordos tecnológicos extraordinários com Israel. Ou seja, não devemos entrar na briga de outras nações”, argumentou.

Na avaliação de Diego Fernandes, grandes fundos e investidores internacionais mantêm o Brasil no radar. “Estive recentemente com pessoas do Fundo Soberano da Arábia Saudita (Public Investment Fund) e percebo que há muito interesse no país. A questão das terras raras é uma grande oportunidade, bem como de inteligência artificial”, analisou.

Por conta da crescente demanda global em áreas como tecnologia e infraestrutura energética, os participantes apostam no potencial brasileiro de atração de investimentos de longo prazo. “Nosso sistema financeiro é um dos mais modernos e sólidos do mundo e têm a confiança de grandes instituições”, acredita o fundador da O8 Partners.

Temer reiterou o potencial de ativos nacionais reais, mencionando a segurança hídrica e a extensão de terras agriculturáveis. “O Brasil ainda é país do futuro e precisamos ser otimistas. A nação atravessa diversas crises, mas sempre foi maior do que todas elas.”

Questionado por Fernandes sobre os impactos da polarização política no mercado financeiro, Temer diferenciou o antagonismo saudável de radicalização. “Um exemplo clássico da oposição impulsionando o governo vem do Reino Unido, onde há o gabinete da situação e o chamado gabinete das sombras, que fiscaliza as ações”, disse.

Contudo, o ex-presidente afirmou que no Brasil o processo de extremismo vem dividindo a população, as corporações, as instituições e até mesmo os poderes da república. “Isso é o que cria insegurança jurídica, desmoraliza a atividade política e administrativa”, analisou.

Diante do calendário eleitoral, Temer defendeu o debate centrado em programas de governo e projetos de longo prazo, reduzindo o apelo passional das campanhas.