Estratégia, a poucos dias da votação, captura eleitores pelo bolso e vira arma de adversários que veem medida eleitoreira e descontrole orçamentário
A crise no Supremo Tribunal Federal, que ganhou nesta quinta-feira (17) um novo capítulo com as postagens de Gilmar Mendes contra André Mendonça, dominou o noticiário e obrigou Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) a mudarem a estratégia da campanha .
Eles disputavam o voto dos eleitores pelo bolso. Lula, na TV, mostrava um país colorido. Flávio, um país devastado.
O presidente tinha nas mãos as cartas do controle da inflação, do crescimento da economia, da retirada do Brasil do Mapa da Fome.
O senador batia na tecla da queda do poder de compra, do endividamento das famílias e de um suposto descontrole fiscal.
O tiroteio na cúpula do Judiciário mudou o cenário da briga.
Flávio passou associar Lula e Alexandre de Moraes, ministro flagrado em conversas com o mesmo Daniel Vorcaro a quem pediu dinheiro para rodar um filme sobre o pai.
A associação colou, e os brasileiros, que de fato estão com as contas no limite, abraçaram a conversa.
Lula, a contragosto, saiu da trincheira economica para falar do caso Moraes. “Falar”, no caso, era tirar o ministro do colo.
Antes da crise, ele imaginava, a essa altura do campeonato, que abriria vantagens sobre o adversário apenas comparando números do atual governo com a gestão do antecessor, Jair Bolsonaro.
Mas as pesquisas não apontam isso.
Lula fez, então, o que geralmente governantes fazem quando bate o sinal de alerta. Abriu a caixa de ferramentas e colocou à prova a tese de que existe ainda alguma vantagem para um candidato quando ele detém a máquina pública nas mãos.
Bolsonaro pai fez o mesmo em 2022, quando ampliou o benefício, na época renomeado como Auxílio Brasil, de R$ 400 para R$ 600 em junho de 2022. Os depósitos só começaram a cair em agosto daquele ano, também perto (mas não tanto) das eleições.
A ampliação do valor foi viabilizada por meio de uma proposta de emenda à constituição que, não por acaso, ganhou o apelido PEC Kamikaze. O acréscimo de R$ 200 tinha caráter temporário e foi instituído até dezembro daquele ano. Sim, ano de eleição.
Dessa vez, o anúncio do reajuste de 15% do Bolsa Família a menos de 20 dias da disputa é um tiro em duas vias.
O novo piso, que passou de R$ 600 para R$ 690, acerta o bolso do eleitor e, ao mesmo tempo, cria a brecha para acusações sobre uso eleitoreiro do programa social -- de quebra, reforça a bronca de parte do empresariado e dos formadores de opinião alinhados à Faria Lima de que o governo gasta demais e cria problemas que desembocam, mais à frente, em aperto monetário.
Mas os juros baixaram na véspera, e os dados da macroeconomia, na avaliação da equipe de Lula, permitem a ousadia.
Estranho é que proposta de orçamento do governo para 2027, enviada ao Congresso há menos de um mês, não previa aumento do benefício social. O que mudou? O cenário eleitoral mudou.
Isso diz mais sobre os sinais da campanha do que qualquer outra coisa.
Lula, que já havia sido derrotado na discussão sobre o fim da escala 6 por 1 e ficou sem seu grande trunfo, decidiu gastar cartucho agora e arriscou. É uma tentativa clara de retomar uma certa agenda positiva e trazer a pauta econômica de novo para o ringue.




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