Não têm fumo, cheiram a fruta e parecem inofensivos. Mas os cigarros eletrónicos e as bolsas de nicotina continuam a criar dependência, sobretudo entre os mais jovens.
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Não têm cheiro a tabaco, não produzem cinza, alguns até sabem a fruta, a mentol ou a rebuçado. As bolsas de nicotina e os cigarros eletrónicos estão a conquistar cada vez mais utilizadores, sobretudo entre os mais jovens. Mas será que são realmente uma alternativa mais segura ou estamos apenas perante uma nova forma de dependência? Doutora Vanessa, bom dia. Bem-vinda.
Devemos preocupar-nos?
Sim, devemos. Embora funcionem de forma diferente, tanto os cigarros eletrónicos como as bolsas de nicotina têm um objetivo comum, que é fornecer nicotina ao organismo. O vaping aquece um líquido, que é inalado sob a forma de aerossol, e já as bolsas de nicotina são colocadas entre a gengiva e o lábio e vão libertando nicotina diretamente através da mucosa oral.
O problema é que a nicotina continua a ser uma substância altamente aditiva, independentemente da forma como vai entrar no nosso organismo.
Mas há aquela ideia de que se não existe combustão do tabaco, o risco é menor, mas há que desmistificar, se calhar.
É verdade que estes produtos expõem o organismo a menos substâncias tóxicas do que o cigarro convencional, mas isso não significa que sejam inofensivos. A nicotina aumenta a frequência cardíaca, a pressão arterial, favorece a dependência e interfere também com o funcionamento do cérebro, sobretudo em adolescentes e jovens adultos, cujo sistema nervoso ainda está em desenvolvimento. Além disso, o vaping expõe as vias respiratórias a diversas substâncias químicas cujos efeitos a longo prazo nós ainda não temos conhecimento. Ou seja, menos nocivo não significa que seja seguro.
E porque é que estes produtos preocupam tanto quando falamos dos mais jovens?
Porque sabemos que o cérebro continua a desenvolver-se até cerca dos 25 anos e a exposição precoce à nicotina aumenta o risco de dependência e pode afetar circuitos relacionados com a atenção, a memória, o controlo dos impulsos e até a aprendizagem. Além disso, muitos jovens iniciam o consumo porque estes produtos têm sabores apelativos, são discretos e são frequentemente vistos como socialmente aceitáveis, mas continuam a criar dependência.
Há quem utilize os cigarros eletrónicos para deixar de fumar. Isto faz sentido?
Em alguns fumadores adultos, os cigarros eletrónicos podem ter um papel como estratégia de redução de risco ou até de cessação tabágica. Mas isso deve acontecer com acompanhamento profissional e como parte de um plano estruturado. Não devem ser encarados como produtos de consumo recreativo, nem como uma porta de entrada para quem nunca fumou.
E como é que uma pessoa percebe que já está dependente, que já desenvolveu uma dependência?
Os sinais são muito semelhantes aos do tabaco convencional.
Não consegue parar de fumar.
Isso mesmo. Ou seja, aquela necessidade, a frequência de consumir, porque é uma droga, como todas as outras. A dificuldade em passar algumas horas sem a nicotina, irritabilidade, ansiedade ou até dificuldade de atenção quando tentamos interromper o consumo. Estes são alguns sinais de dependência e quando existem, justificam uma abordagem médica.
Portanto, doutora, na verdade, estamos perante uma nova geração de produtos, mas o problema continua a ser o mesmo.
Exatamente. A tecnologia evoluiu, a forma de consumir mudou, até o marketing tornou estes produtos mais apelativos, mas a nicotina continua a ser uma substância altamente aditiva. O maior risco é precisamente este, criar uma dependência que muitas vezes passa despercebida, porque não cheira a tabaco, não produz fumo e é socialmente mais aceite. Mas aqui o nosso objetivo não é substituir uma dependência por outra, é efetivamente prevenir que ela exista.
Foi mais um Tratar da Saúde com a doutora Vanessa Mendes. Doutora, até amanhã.
Até amanhã. Obrigada.


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