Porque é que os brasileiros dizem “Copa”? E de onde veio o famoso “ão” português? Marco Neves responde a estas dúvidas e ainda explica como “roubar” pode, em certos casos, ser usado num bom sentido.

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Este é o Português Suave, está com a Rádio Observador. Não tiramos férias porque o Marco Neves é muito solicitado, até nestes tempos.

Sim, mas eu estou a dizer o programa, o Português Suave está sempre aqui.

Andei pelo Algarve, andei ver o eclipse, mas já passou.

Para o ano há outro, mas em Espanha só um eclipse total. Em Espanha houve décadas e décadas sem eclipses totais aqui na nossa zona e agora, de repente, temos aqui vários. Para o ano há um outro lá mais para o sul de Espanha. Mas vamos às dúvidas. Estamos no Português Suave, edição verão, e hoje temos três dúvidas. Vamos começar pelo Tomás, que recupera um tema do nosso verão, mas daquele verão que já passou, o início do verão, quando estávamos todos a ver o Campeonato do Mundo. E o Tomás Figueira, estás com saudades, Zé, ou não?

Não, saudades não, porque correu mal.

Pois, mas correu bem um dia. E o problema do Campeonato do Mundo é que quando corre mal, depois nós ficamos com esperança, mas faltam quatro anos.

Exato. Se bem que há um Euro pelo meio.

Pois, vamos ver o que é que acontece.

Esperemos que corra melhor.

Vamos ver se Jesus nos traz a inspiração.

A fé para acreditarmos que é possível.

Vamos acreditar. O Tomás regressa a um tema que nós já falámos aqui. O Tomás Figueira agradece o programa e pergunta se a utilização da palavra copa no Brasil, no contexto do Campeonato do Mundo de Futebol, e ele diz que ouviu no nosso programa, tem a ver com o objeto, semelhante à taça ou a um copo, portanto, é uma versão feminina da palavra copo, e questiona se não poderá ter havido influência do francês coupe, atendendo também à importância dos franceses, em especial do Julio Rimet, no estabelecimento e crescimento deste evento. Eu devo dizer que sim, e se isto não ficou claro nesse episódio, eu peço desculpa, porque eu sei que houve pessoas que me reagiram e disseram: "Mas é óbvio que isto é uma influência de outras línguas." Aqui a questão é, como é que eu hei de dizer isto? É claro que quando aparece o Campeonato do Mundo, os brasileiros vão dizer copa, porque as outras línguas também estavam a dizer coisas parecidas. Copa no espanhol, coupe no francês, cup no inglês. A minha questão, e isso é que é interessante, é que eles não foram inventar uma palavra nova importada, foram buscar uma palavra anterior que já existia no português e usaram-na, na mesma sequência que as outras línguas também usaram palavras anteriores na sua língua. Todas estas línguas, francês, português do Brasil, o castelhano, o inglês, foram buscar palavras irmãs, com a mesma origem latina, e todas usaram para o mesmo evento. Aqui a surpresa, penso eu, pelo menos eu acho que é surpreendente, é perceber que esta copa não é simplesmente uma adaptação de uma palavra estrangeira, é uma recuperação de uma palavra anterior usada agora com uma nova função, falar deste evento. Espero que tenha ficado claro para o Tomás.

Já falámos disso aqui muitas vezes, as línguas são todas influenciadas.

Sim, só que há vários tipos de influência. Nós, por exemplo, podemos receber uma palavra em que adaptamos a palavra estrangeira: futebol. Futebol em inglês passa a futebol em português. Mas também há casos em que fazemos uma espécie de calque. Vemos o que é que a outra língua está a usar e vamos usar materiais da nossa língua para fazer a mesma coisa. Por exemplo, lua de mel é honeymoon em inglês. Todas estas línguas estão a influenciar-se pelo conteúdo, não pelo som. Não sei se isto é claro. Há empréstimos que são adaptações e há outros que são calques. E no fundo, a copa no Brasil é um calque, mas nem sequer é um calque de uma língua em particular. Provavelmente, podemos dizer que o francês terá sido a mais importante neste processo. Mas todas estas línguas, no fundo, usaram uma mesma solução por influência mútua. Não se pode dizer que seja uma adaptação de uma língua em particular. Houve também pessoas que disseram: "De certeza que isto vem da cup do inglês." Não necessariamente, porque o inglês, quando o Campeonato do Mundo começa, não era a língua propriamente mais importante neste contexto. Aliás, o Campeonato do Mundo começa no Uruguai.

Mas a nossa tendência é achar sempre que vem do inglês, não é?

O inglês, provavelmente, é que foi buscar também a solução ao francês. Só para dizer, aqui, mais uma vez, sublinhar, copa é uma palavra muito antiga que os brasileiros foram buscar, tal como os franceses, ingleses, espanhóis, para adaptar no sentido de dar nome a este evento.

Muito bem. Está esclarecido, um abraço para o Tomás Figueira.

Vamos agora até a um áudio do Manuel Gonçalves, que por acaso tem o nome do meu avô, que já não está cá, o meu avô Manuel, que tinha precisamente este nome, Manuel Gonçalves.

"Boa tarde, Português Suave, Marco Neves. Gosto imenso do vosso podcast, que ouço sempre. Tenho uma dúvida. Há uns meses, disse que no galego-português, o sufixo utilizado era o "-om", que ainda prevalece no Norte, por exemplo, em Morcôm. O sufixo aberto "-ão" impôs-se a partir do Sul, Lisboa, sobretudo depois de meados do século XIX. Dúvida: de que língua ou dialeto é que provém este sufixo "-ão"? Muito obrigado, Manuel Gonçalves."