Kabir Maharjan e Sanjay Sah foram resgatados na sexta-feira (4), após mais de uma semana presos em um complexo subterrâneo de uma usina hidrelétrica em meio às inundações que atingiram o país

Compartilhar matériaEnquanto a enchente do Himalaia, no Nepal, rugia pelo vale do Trishuli, os trabalhadores dentro de um extenso sistema de túneis de uma usina hidrelétrica não faziam ideia do que estava por vir.

No projeto hidrelétrico Upper Trishuli 3A, eles tinham acabado de começar o que se anunciava como um dos dias mais movimentados do ano. A tarefa era reformar a casa de máquinas subterrânea, o que exigia mais funcionários do que o normal.

Kabir Maharjan estava no turno da manhã. Depois de uma breve noite de sono, ligou para a esposa enquanto se apressava para entrar no túnel.

“Preciso entrar no túnel”, disse a ela.

“Não haverá sinal de celular lá dentro”, alertou.

Eram 7h30 da manhã e o vale do Trishuli, no Nepal, ainda estava de pé.

Mas a mais de 40 quilômetros rio acima, a pior enchente da história recente do Nepal estava prestes a acontecer. Cerca de 60 minutos depois, uma geleira desabou na montanha Langtang Lirung, causando um deslizamento de terra tão poderoso que formou uma parede de água muitas vezes mais alta que os prédios e as pessoas que ali viviam.

A água emergiu no vale, arrasando vilarejos e submergindo uma rede de 12 usinas hidrelétricas com centenas de trabalhadores em seu interior.

Pouco antes da inundação invadir os túneis, alguns moradores notaram uma súbita rajada de ar, seguida por um fluxo intenso de lama e água gelada.

Quando a onda passou, mais de 1.300 pessoas em toda a área afetada pelo desastre estavam mortas. Mais de 5 mil continuam desaparecidas.

Do lado de fora dos túneis, a inundação desencadeou uma operação de resgate desesperada. As autoridades acreditam que bolsas de oxigênio nos túneis podem ter permitido a sobrevivência de pelo menos algumas das 900 pessoas que inicialmente se acreditava estarem desaparecidas.

Drones foram utilizados no mesmo dia para avaliar os danos; helicópteros sobrevoaram os túneis, mas inicialmente tiveram dificuldades para pousar.

Dentro da usina 3A, pelo menos dois sobreviventes lutavam contra todas as probabilidades. Em uma câmara cheia de ar, com acesso a água que gotejava e apenas oxigênio suficiente, eles sobreviveram em estado de semiconsciência.

Maharjan era um deles.

A Reuters reconstituiu a história da notável sobrevivência dos dois homens por meio de entrevistas exclusivas com uma dúzia de pessoas, incluindo parentes, funcionários do governo, cientistas e outros diretamente envolvidos no resgate, além da análise de documentos do local, mapas e conversas internas entre os socorristas.

Na segunda-feira (7), as operações de resgate continuavam, com os esforços concentrados na usina 3A e em outra usina hidrelétrica, Chilime.

Ao lado do leito do hospital, a esposa de Maharjan, Hira Shova Maharjan, passou os últimos dias tentando reconstruir o que aconteceu: a escuridão que se seguiu à inundação; os dias de semiconsciência, frio e umidade; e, então, um raio de luz quando ele reapareceu, cercado por socorristas e câmeras que o aplaudiam.

Maharjan se lembra de pouco além de sentir um sono repentino e avassalador e de acordar repetidamente ainda deitado na água, contou à esposa.

"Ele disse que estava com muita fome. O túnel estava completamente escuro", disse a esposa de Maharjan.

Até o momento, apenas três pessoas foram resgatadas do interior da rede de túneis das usinas hidrelétricas da região. Sanjay Sah foi a outra pessoa resgatada com Maharjan na sexta-feira (4) – ambos sobreviveram nas proximidades, no mesmo túnel, segundo os socorristas.