Voltada à classe A, rede tem 32 lojas em São Paulo e registrou prejuízo de R$ 188 milhões em 2025

benefício do assinante

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

benefício do assinante

Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Salvar para ler depois

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

24.jun.2026 às 12h27 Atualizado: 24.jun.2026 às 17h40

O grupo chileno Cencosud anunciou nesta quarta-feira (24) a aquisição da rede de supermercados St. Marche, dona de 32 lojas em São Paulo, incluindo duas unidades do Empório Santa Maria. O St. Marche é voltado à classe A, um segmento novo para o Cencosud no Brasil, onde são donos de redes regionais e populares como GBarbosa (no Nordeste), Bretas (Minas Gerais), Prezunic (Rio de Janeiro) e Giga Atacado (São Paulo).

"A transação representa um novo avanço na estratégia da Cencosud no Brasil, fortalecendo sua presença em formatos de maior valor agregado e diferenciação no principal mercado consumidor da região", diz o grupo, em comunicado. O valor da transação não foi revelado.

O negócio envolve as lojas na Grande São Paulo, Santos e Campinas e um centro de distribuição de 7.500 m². Nos últimos 12 meses encerrados em março de 2026, a St. Marche registrou vendas de R$ 1,078 bilhão. Em 2025, de acordo com demonstrações financeiras, a receita líquida foi de R$ 960,2 milhões, queda de 18% em relação ao ano anterior, enquanto o prejuízo mais do que triplicou, para R$ 188,4 milhões.

Como parte do acordo de venda para o Cencosud, o St. Marche entrou com pedido de recuperação judicial nesta quarta junto ao TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo). "A conclusão da transação está sujeita às condições usuais de fechamento, incluindo a finalização do processo de recuperação judicial em curso por parte do vendedor", diz o comunicado do Cencosud. Os chilenos compraram o St. Marche sem assumirem as suas dívidas ou o seu caixa —a compra só será concluída quando for homologada a recuperação judicial. Procurado, o Cencosud não quis se pronunciar.

Fundado em 2002, o St. Marche vinha enfrentando há anos problemas financeiros, com prejuízos consecutivos. Uma expansão mal calculada durante a pandemia, além do investimento em um empreendimento gastronômico de luxo em São Paulo, o Eataly, minaram os recursos dos sócios Bernardo Ouro Preto e Victor Leal, que venderam o controle para o fundo de investimentos americano L. Catterton. Ouro Preto continuou como presidente da empresa.

Em abril de 2025, o St. Marche entrou em processo de recuperação extrajudicial, com dívidas de R$ 528 milhões. Recebeu dois aportes de capital que juntos somaram R$ 90 milhões, do L. Catterton e do banco BTG Pactual (maior credor). A recuperação extrajudicial foi homologada em outubro passado.

Mas em dezembro, um dos credores, o Banco do Brasil, questionou o plano junto ao TJSP. O Tribunal permitiu que o BB seguisse com o questionamento, embora mantivesse os efeitos da homologação da recuperação extrajudicial.

"Isso causou uma enorme insegurança jurídica por parte dos meus fornecedores, que acharam que eu não teria condições de cumprir os pagamentos. Comecei a ter problemas de fluxo de caixa", disse à Folha Bernardo Ouro Preto. A empresa decidiu, então, entrar com um pedido de recuperação judicial, nos mesmos moldes da recuperação extrajudicial, mas agora incluindo os fornecedores. Caso o pedido seja aceito pela Justiça, o questionamento do BB deixa de ter validade.

Ouro Preto garante que terá maioria dos credores para aprovar o plano de recuperação judicial. "Agora os fornecedores serão contados e todos tendem a aceitar as condições: terão sua dívida paga em 100% do valor, sem descontos, mais correção pelo IPCA, na data da homologação do plano pela Justiça", diz ele, que não revela qual o novo valor total da dívida. "Que fornecedor não quer receber 100% do que lhe é devido e ainda fechar negócios com o Cencosud?", questiona, referindo-se ao futuro controlador.

De acordo com o executivo, não há dívidas trabalhistas e os 2.100 funcionários da rede não estão contemplados no plano.

A conclusão da transação com o Cencosud deve passar ainda por aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Até lá, Ouro Preto continua no comando. O executivo estima que a homologação do plano possa ser aprovada entre seis e nove meses.

Neste período, para resolver a questão do fluxo de caixa, o BTG vai aportar R$ 25 milhões na rede, por meio de um empréstimo DIP (do inglês debtor-in-possesion financing, ou "financiamento do devedor em posse"). Trata-se de um modelo usado apenas em recuperações judiciais, que não demanda assembleia geral de credores para ser aprovado e pode ser solicitado já no início do processo, mediante autorização judicial. "Em caso de falência, é considerado crédito supre prioritário: vai ser o primeiro a receber antes de qualquer outro tipo de crédito", diz o advogado Filipe Denki, da Véritas Administração Judicial.

Do ponto de vista de reestruturação empresarial, a combinação de aquisição e recuperação judicial é relativamente comum, afirma Denki. "A recuperação judicial serve justamente para reorganizar o passivo, preservar a operação e tornar a companhia mais atrativa para potenciais compradores", diz o especialista. "É comum que o valor para o comprador esteja justamente na oportunidade criada pela dificuldade financeira da empresa, permitindo a aquisição de ativos relevantes em condições mais favoráveis."

A compra do St. Marche é uma forma de o Cencosud reverter a perda de espaço no Brasil. O grupo caiu da 9ª para a 12ª posição entre as maiores operações do varejo alimentar nacional no ano passado, com R$ 10 bilhões de faturamento, segundo o ranking da Abras (Associação Brasileira de Supermercados). Foi superado pelo Grupo Koch (de Santa Catarina), Novo Mateus (Nordeste) e rede Smart Supermercados (Minas Gerais).