VP da Envision Pharma Group, Camile Semighini Grubor fez da ciência uma carreira global em comunicação médica

Priorizar nos meus resultados Google No Cold Spring Harbor Laboratory, em Nova York, Camile Semighini Grubor participava de experimentos que pareciam saídos de um filme de ficção científica. Estudava mecanismos ligados ao câncer em pesquisas com camundongos, em uma das instituições científicas mais reconhecidas dos Estados Unidos. O trabalho era relevante e contribuiria para uma publicação na Cell, uma das revistas mais prestigiadas da área. Ainda assim, alguma coisa não encaixava.

O sofrimento dos animais a incomodava. Camile preferia trabalhar com fungos, que chamava, em uma brincadeira, de “funguys”. O desconforto foi se tornando uma pergunta maior sobre o futuro. Ela gostava de ciência, mas já não tinha certeza de que queria passar a vida naquele tipo de pesquisa. Avisou a Vladimir Grubor, que havia conhecido no próprio laboratório e com quem se casaria, que sairia daquele segmento assim que concluísse o trabalho em andamento.

Hoje, aos 48 anos, Camile é vice-presidente, diretora de portfólio e líder de equipe em soluções científicas na Envision Pharma Group, empresa global de comunicação médica voltada à indústria farmacêutica. De Tampa, na Flórida, lidera 15 profissionais distribuídos por diferentes países. Há 23 anos nos Estados Unidos, construiu uma trajetória que começou na bancada, passou por propriedade intelectual e empreendedorismo e encontrou na comunicação uma forma de continuar perto da ciência.

Nada disso fazia parte de um plano traçado com antecedência. Quando deixou o Brasil, em 2003, Camile acreditava que ficaria fora por apenas um ano.

O convite que mudou a rota 

Nascida em São Paulo, em 1977, mudou-se aos 3 anos para Birigui, no interior paulista. É filha de Dirceu Semighini, analista de sistemas, e Mara Pizeta Semighini, professora, e cresceu ao lado dos irmãos Dirceu Filho e Evandro. Na hora de escolher uma profissão, encontrou nas Ciências Farmacêuticas uma maneira de reunir dois interesses que já a acompanhavam, a Biologia e a Química.

A família teve papel importante nas escolhas seguintes. Camile chegou a considerar uma formação na Bélgica, e o pai foi com ela ao consulado para entender o que seria necessário. O plano não avançou, mas o episódio ficou como exemplo da segurança que recebia em casa para explorar possibilidades sem precisar ter todas as respostas prontas.

Na Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, onde estudou Ciências Farmacêuticas de 1996 a 2000, aproximou-se da Genética e da Biologia Molecular. Depois da graduação, seguiu na pesquisa com fungos e fez mestrado de 2001 a 2003. Ao fim do mestrado, Steve Harris, pesquisador canadense que conhecia seu trabalho, convidou-a para integrar um laboratório que montava na Universidade de Nebraska-Lincoln, nos Estados Unidos, com recursos disponíveis e uma equipe ainda pequena.

Camile aceitou. Para quem havia crescido em Birigui, a perspectiva de viver em uma região mais isolada do Meio-Oeste americano não parecia um obstáculo. O acordo consigo mesma era simples: um ano de experiência e depois a volta ao Brasil.

O ano que nunca terminou

Pouco depois de chegar a Nebraska, em 2003, Camile percebeu a importância da estrutura para o trabalho científico. Em cerca de dois meses, concluiu um sequenciamento de genes que, em sua experiência no Brasil, levaria muito mais tempo. A diferença não estava na capacidade dos pesquisadores, mas nas condições para pesquisar.

Mesmo no laboratório brasileiro em que havia trabalhado, apoiado pela Fapesp, muitos experimentos dependiam de materiais importados. A espera e a burocracia entravam no cronograma. Em Nebraska, itens de que precisava estavam muitas vezes no próprio laboratório. A diferença podia ser medida em semanas de trabalho economizadas.

O contraste alterou seus planos. O ano previsto se transformou em doutorado, realizado de 2004 a 2007, e a permanência ganhou outra dimensão. O que parecia uma temporada passou a ser uma escolha renovada a cada nova oportunidade.

Depois de Nebraska, chegou ao Cold Spring Harbor Laboratory, onde atuou de 2007 a 2008. O interesse pelo câncer tinha também razões familiares, e a experiência lhe deu acesso a pesquisas de alto nível. Foi ali, porém, que a contradição se tornou impossível de ignorar. A satisfação intelectual não anulava o incômodo com os experimentos em animais.

Quando escrever virou profissão

Em dezembro de 2008, Camile seguiu para a Universidade de Duke, na Carolina do Norte, onde permaneceu até julho de 2011 e voltou a trabalhar com fungos. A mudança a afastou do tipo de experimento que mais a incomodava, mas não resolveu uma dúvida maior. Ela já percebia que não queria seguir a carreira acadêmica tradicional nem permanecer indefinidamente na bancada.

Havia outra habilidade atravessando sua história. Camile sempre gostou de escrever. Começou a conversar com profissionais e a observar a comunicação médica, área ainda pouco desenvolvida no Brasil naquele período. Descobriu um campo em que poderia usar a formação científica para compreender estudos complexos e transformá-los em informação clara, sem abandonar o universo que conhecia.

A primeira mudança veio em 2011, ao entrar na Advanced Liquid Logic, pequena empresa de tecnologia voltada a aplicações laboratoriais. Pela primeira vez, sua principal função deixou de ser conduzir experimentos. Camile passou a escrever projetos para captação de recursos destinados a pesquisas e novas tecnologias.

Foi uma descoberta importante. Percebeu que sabia transitar entre mundos. Conseguia conversar com pesquisadores, compreender dados difíceis e construir uma narrativa para pessoas que não estavam dentro do laboratório. A ciência deixava de ser apenas objeto de investigação e passava a ser também algo que precisava ser comunicado.

Na BASF, multinacional alemã do setor químico, onde trabalhou de 2012 a 2016, ampliou esse olhar ao atuar com propriedade intelectual. Passou a lidar não apenas com descobertas, mas com proteção, aplicação e desenvolvimento de tecnologias, em contato com pesquisadores, gestores e profissionais da área jurídica.