Marabá (PA), cidade da região que perdeu território para a criação de outros municípios Yan Boechat/Valor Do alto da serra dos Carajás, no sudeste do Pará, Parauapebas parece mais um típico município do Norte do país que insiste em se espalhar pela imensidão …

Do alto da serra dos Carajás, no sudeste do Pará, Parauapebas parece mais um típico município do Norte do país que insiste em se espalhar pela imensidão de terras do que um dia foi floresta. Há muitas casas e poucos prédios nessa cidade que dá suas costas para o rio que lhe empresta o nome. Por suas ruas, uma fina camada de poeira vermelha cobre carros, gente, bichos e não deixa ninguém esquecer de que ali ainda é Amazônia. Apesar de lembrar tantas cidadezinhas que crescem nesta região de fronteira agrícola em permanente expansão, Parauapebas não tem absolutamente nada de ordinária.

Nascida em 1988 com o Complexo dos Carajás e incrustada na maior província mineral do mundo, Parauapebas é uma cidade rica. De longe, o município brasileiro que mais recebeu recursos da CFEM, a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais, nesta última década. Foram cerca de R$ 12 bilhões entre 2016 e 2025 apenas em repasses de compensação. Nenhum outro município brasileiro teve tanto recurso disponível por conta das extrações minerais quanto a jovem Parauapebas. Toda essa riqueza vem da Vale, que chegou à região para a implementação do Complexo de Carajás um pouco antes de Parauapebas nascer como cidade; até então um vilarejo sem grandes atrativos, pertencente a Marabá e a poucos quilômetros de Serra Pelada.

Passados quase 40 anos, Parauapebas cresceu, expandiu fronteiras e, lentamente, vem se tornando um polo regional em uma área que se ressente de estar longe de tudo e de todos. Mas a cidade segue sem predicados. Autodenominada “capital mundial do minério”, não conseguiu se aproveitar de toda a riqueza para oferecer vida mais digna à população.

Ferrovias prometem reconfigurar o transporte de grãos e minériosPará tem 1 de cada 3 brasileiros sem conexão à rede elétricaAdiamento de concessões de hidrovias frustra agentes econômicosFederação articula novo porto fluvial próximo a BelémPará tem posição privilegiada na corrida da bioeconomiaTurismo trabalha para manter Pará na vitrine dos destinos mais procurados

O esgoto ainda corre a céu aberto - cerca de 70% dos habitantes não contam com saneamento básico, e apenas 50% têm acesso à água encanada. Muitas casas são abastecidas por caminhões-pipa. Ruas e avenidas continuam repletas de buracos, e a violência permanece como uma das principais preocupações de seus moradores, que convivem com uma taxa de homicídios próxima dos 30 assassinatos por 100 mil habitantes (a média do país é 20,8). Parauapebas, assim como tantos municípios enriquecidos pela mineração, segue sendo um exemplo clássico das contradições amazônicas, onde riqueza econômica e bem-estar social ainda caminham por sendas opostas e distantes.

Na prefeitura, a justificativa para tanto desencontro está nas escolhas erradas de administrações anteriores e na permanente expansão de sua população, formada quase toda por migrantes de todo o país que chegam com a esperança de fartura e uma sorte melhor. “Há muita reclamação, muita gente falando dos buracos, mas ninguém vê que só nos últimos anos o número de alunos na rede municipal saiu de 30 mil para 50 mil”, diz Max Alves Martins, secretário-adjunto da Secretaria de Comunicação, a única autoridade municipal disponível para falar com o Valor. “É assim desde Serra Pelada, não para de chegar gente.”

Parauapebas, de fato, cresce em ritmo acelerado. De acordo com o IBGE, sua população praticamente dobrou desde 2010, para os atuais 305 mil habitantes. Poucos municípios no país cresceram tanto no período. “Essa é uma característica de toda essa região do sudeste paraense. É uma área que segue atraindo muita gente que busca aproveitar as oportunidades, reais ou imaginárias, de uma região que é muito rica, mas ainda profundamente desigual”, diz Lucas Rodrigues, professor do departamento de economia da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.

Judelvan Silva Pereira chegou nessa leva. Veio, como muita gente aqui, do Maranhão a bordo do trem da Estrada de Ferro Carajás, um dos poucos trens de passageiros do país, operado pela Vale entre São Luís e Parauapebas. Buscava emprego na mina, como ele chama o Complexo dos Carajás. Não achou. Mas decidiu ficar e tentar a sorte como pedreiro. “Trabalho tem, mas não tem muita gente que quer pagar a diária de R$ 200, que é o certo”, diz ele no quintal da pequena meia-água ainda sem reboco que construiu na periferia de Parauapebas. A poucos metros de onde passa o fim de tarde com a enteada e uma sobrinha, uma vala de esgoto corta o seu quintal. “Já tá aí faz tempo, ninguém faz nada.”

Agnes, sua enteada de 11 anos, atribui ao esgoto o ferimento que surgiu no olho esquerdo de sua cadelinha de estimação. “Ela bebeu essa água nojenta e o olho dela começou a cair, ela começou a mancar”, conta a menina, ao lado da cachorrinha com uma infecção que parece ter penetrado em seu globo ocular. “Agora chamam ela de cachorra zumbi. Eu brigo, mas acho que não tem jeito, ela tá mesmo com cara de zumbi.”

O drama de Parauapebas é extraordinário, mas não é o único. Outras tantas cidades da região convivem com a mesma contradição de serem ricas e pobres ao mesmo tempo. E de continuarem a atrair uma vastidão de sonhadores. Gente de toda parte que, como os garimpeiros de Serra Pelada, chega ao Norte do país em busca de riqueza e sucesso.

A Vale afirma estar ciente que seus projetos têm imenso potencial de atração migratória e diz trabalhar para mitigar os impactos nas cidades afetadas. De acordo com a companhia, programas de atendimento ao migrante são implantados em momentos de forte atração de pessoas, em especial durante o desenvolvimento de projetos de grande impacto econômico, assim como o fortalecimento da economia local por meio de compras diretas.

Canaã dos Carajás nasceu como Parauapebas, a reboque de investimentos bilionários da Vale no Complexo de Carajás. É o segundo município em transferências via CFEM e dono de um dos maiores PIBs per capita do Brasil. Só entre 2010 e 2025 a população de Canaã cresceu 230%, embalada pelos investimentos da Vale no projeto SD11, seu principal ponto de extração mineral no setor Sul da Serra dos Carajás. No ano passado, Canaã recebeu mais da CFEM do que Parauapebas. Ainda assim, não consegue resolver questões simples como a mortalidade infantil, cuja taxa ainda é 50% maior do que a média nacional.

“Aqui não é tão desorganizado como Parauapebas, mas existem problemas, como em toda cidade que cresce tanto e tão rápido”, diz Fátima Cunha, uma corretora de imóveis que trocou a cidade vizinha por Canaã há quase dez anos. “Parauapebas perdeu o controle, recebeu muito dinheiro e muita gente. Aqui as coisas ainda estão começando, mas também estão crescendo.” Fátima sabe do que fala. Aluga e vende qualquer pedaço de chão por aqui e ela mesma se diz espantada com o preço dos imóveis nessa economia hiperaquecida. “Está difícil achar uma quitinete para alugar aqui na cidade por menos de R$ 1,5 mil”, conta.

Apesar da vastidão amazônica, terra aqui no sudeste do Estado é disputada a ferro, fogo e balas. Poucos lugares no país têm um passado tão conflituoso quanto este. Grilagem, ameaças, assassinatos, massacres, garimpo ilegal o leque de ações criminosas ligadas à terra é vasto. Mas nenhum deles tem tanto simbolismo e um desfecho tão trágico quanto o que se convencionou chamar de massacre de Eldorado do Carajás. Nessa pequena cidade entre Parauapebas e Marabá, a Polícia Militar do Pará matou 21 trabalhadores sem-terra em 17 de abril de 1996.

“Quando começaram a disparar, fomos para cima deles. A gente achava que era bala de borracha”, relembra Maria Zelzuita, que engrossava o grupo dos 2,5 mil sem-terra que naquela tarde trancava a BR-155, que liga Eldorado a Marabá. “Só me dei