Intensa competitividade, excesso de carga horária, privação crônica de sono e contato precoce com sofrimento e morte estão entre os fatores que levam a números elevados - e negligenciados - de casos

O suicídio entre médicos constitui um dos mais importantes e, ao mesmo tempo, mais negligenciados problemas de saúde ocupacional da medicina contemporânea. Paradoxalmente, profissionais dedicados a salvar vidas apresentam risco aumentado para transtornos mentais. Além do abuso de substâncias e morte por suicídio.

É exatamente sobre este assunto que falarei em um evento das Academias de Medicina do Brasil, que ocorrerá nos dias 28 e 29 agosto deste ano, em Porto Alegre.

A combinação de fatores individuais, organizacionais e culturais transforma a profissão médica em um ambiente de elevada vulnerabilidade psicológica.

Embora nas últimas décadas tenha ocorrido maior reconhecimento da importância da saúde mental dos profissionais de saúde, o estigma, o perfeccionismo, a competitividade e o receio de repercussões na carreira ainda impedem muitos médicos de buscar ajuda.

Os fatores de risco começam ainda durante a graduação. A formação médica frequentemente está associada à intensa competitividade e excesso de carga horária.

Além disso, privação crônica do sono, contato precoce com sofrimento e morte, conflitos éticos e isolamento social são outros fatores.

Muitos estudantes desenvolvem a crença de que demonstrar sofrimento emocional representa sinal de fraqueza ou incompetência.

Essa cultura permanece durante a residência médica e frequentemente acompanha toda a carreira profissional.

Entre os fatores descritos em estudantes e médicos destacam-se o perfeccionismo, a vergonha em procurar atendimento psiquiátrico, a dificuldade de acesso a tratamento confidencial.

Soma-se a isso solidão, exaustão física e emocional e o conflito entre os ideais humanísticos da profissão. E mais: a realidade cotidiana dos sistemas de saúde.

Diversos estudos demonstram elevada prevalência de depressão, ansiedade, burnout e ideação suicida entre médicos.

Revisões sistemáticas mostram que aproximadamente um quarto dos estudantes de medicina apresenta sintomas depressivos clinicamente significativos. E cerca de 10% relatam ideação suicida em algum momento da formação.

Entre médicos em atividade, o burnout tornou-se uma epidemia. É caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e redução da realização profissional.

Historicamente, acreditava-se que médicos apresentassem risco muito superior ao da população geral.

Entretanto, uma importante metanálise publicada no British Medical Journal (BMJ) em 2024, mostrou uma realidade mais complexa. A pesquisa reuniu 39 estudos de 20 países.

O risco relativo de suicídio entre médicos do sexo masculino foi semelhante ao da população masculina geral. Por outro lado, entre as médicas permaneceu significativamente aumentado.

Além disso, quando comparados a outras profissões de nível socioeconômico semelhante, médicos homens apresentaram risco significativamente maior de suicídio.

A análise também demonstrou tendência de redução das taxas ao longo das últimas décadas. Isso provavelmente reflete maior conscientização sobre saúde mental.

É importante destacar que o problema permanece relevante, especialmente entre mulheres médicas.

Além das exigências inerentes ao exercício da medicina, muitas médicas enfrentam dupla jornada de trabalho, discriminação institucional, assédio moral e sexual.