De tempos em tempos, as águas do Oceano Pacífico ficam mais quentes, e isso afeta o clima no mundo todo

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26.jun.2026 às 23h00

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Letícia Naísa Gabriel Justo

Você deve ter aprendido nas aulas de geografia na escola que o planeta Terra tem cinco oceanos. O maior deles deles, o Pacífico, fica entre o continente americano (onde fica o Brasil) e Ásia (onde ficam os países orientais, como a China e o Japão). Nele, de vez em quando acontece um fenômeno que afeta o clima do mundo todo, inclusive aqui no Brasil.

Nos últimos meses, muitas matérias de jornais têm falado sobre esse assunto porque cientistas têm dito que este ano pode acontecer um SUPER El Niño. Mas o que isso significa?

Imagine que o oceano Pacífico é como se fosse uma bacia enorme de água. Há mais de cem anos, os cientistas ficam medindo a temperatura dessa água todos os dias, usando satélites no espaço e bóias com termômetros no oceano. Quando a água fica mais quente —a partir de 0,5°C acima do normal— durante cinco meses seguidos, eles sabem que está acontecendo o tal do El Niño.

E por que ele se chama El Niño? Porque há dezenas de anos, pescadores do Peru começaram a perceber que as águas do Pacífico iam ficando cada vez mais quentes em algumas épocas do ano, especialmente em dezembro, quando acontece o Natal. Aí começaram a chamar o fenômeno de El Niño, que significa "o menino" em espanhol. O nome foi dado em homenagem ao menino Jesus, que os católicos acreditam que nasceu na noite de Natal.

"Normalmente, ele começa no segundo semestre, mais ou menos em agosto, e termina no primeiro semestre do ano seguinte, por volta de julho", explica a climatologista Renata Tedeschi, que é pesquisadora no ITV (Instituto Tecnológico Vale) e especialista nesse tipo de fenômeno. É por causa disso que os especialistas falam do El Niño usando dois anos seguidos, como 2023/2024, quando aconteceu o último.

É muito difícil dizer de quanto em quanto tempo o El Niño vai acontecer, segundo a cientista, ele é um fenômeno muito difícil de ser estudado, porque tem muitas causas diferentes — as mudanças climáticas são apenas uma delas. O que os estudiosos sabem é que se trata de um fenômeno acoplado entre o oceano e a atmosfera, ou seja, em que esses dois ambientes estão muito conectados.

"O aquecimento da água causa o enfraquecimento dos ventos, mas o oposto também acontece, então é que nem perguntar ‘o que veio primeiro, o ovo ou a galinha?’", explica Tedeschi.

Outra coisa que os cientistas sabem é que, diferente das estações do ano, por exemplo, o El Niño não acontece sempre no mesmo ritmo. Depois de um El Niño, pode levar dois, quatro ou até sete anos até acontecer outro.

Existem três níveis de El Niño: fraco, que é quando o oceano esquenta entre 0,5°C e 1°C, moderado, quando esquenta entre 1°C e 2°C, e forte. Se a água esquentar bastante e a temperatura subir mais de 2°C acima do normal, daí é um Super El Niño, um aquecimento muito mais intenso. Agora, se acontecer o contrário, as águas do Pacífico ficarem mais frias que o normal, aí o fenômeno é chamado de La Niña.

Pode parecer que um aumento de 2°C seja pouco, afinal, um dia em que faz 22°C e 24°C quase não têm diferença. Mas, para um oceano gigante como o Pacífico, isso significa uma perda grande de calor, que é jogado para o céu. É mais ou menos como quando a gente fica doente e tem febre de 37,5°C ou de 40°C. Nos dois casos, estamos doentes e com febre, mas quanto mais alta a temperatura, mais suado a gente fica e pior a gente se sente.

No caso do El Niño, esse calor todo na atmosfera acaba causando grandes tempestades em alguns lugares do mundo, seca em outros e até incêndios. Como a Terra é um organismo vivo, o que acontece nos oceanos afeta os ventos e toda a vida no planeta. "Quanto maior a intensidade do El Niño, piores são os seus impactos", diz a cientista.

Ou seja, um El Niño fraco pode trazer mudanças brandas no clima, mas um "Super El Niño" é pior, tornando os eventos extremos (como super secas e super enchentes) muito mais prováveis de acontecer. E o aquecimento global, segundo a especialista, tem feito com que os El Niños mais fortes aconteçam com mais frequentes.

Como a temperatura do Oceano Pacífico está muito ligada à temperatura da atmosfera, o El Niño afeta a vida dos animais marinhos e terrestres, as plantações e a produção de comida —deixando tudo mais caro, até o chocolate.

No Brasil, quando acontece o El Niño, chove muito forte na região Sul, enquanto o Norte e Nordeste enfrentam grandes secas; as regiões Centro-Oeste e Sudeste têm ondas de calor com ar bem seco.