Há algo que compreendi depois de mais de duas décadas projetando, inclusive fora do Brasil: o que atravessa fronteiras na arquitetura não é apenas o desenho, o mobiliário ou a materialidade. É, sobretudo, uma forma de habitar. Quando um cliente americano entr…

Há algo que compreendi depois de mais de duas décadas projetando, inclusive fora do Brasil: o que atravessa fronteiras na arquitetura não é apenas o desenho, o mobiliário ou a materialidade. É, sobretudo, uma forma de habitar.

Quando um cliente americano entra em um espaço que projetei e percebe a integração entre cozinha e área social, a continuidade entre interior e exterior, a varanda incorporada à dinâmica da casa e ambientes pensados para convivência e encontros, ele não está apenas reconhecendo uma linguagem estética. Está vivenciando uma maneira de morar que carrega referências profundamente brasileiras.

Foi a partir dessa percepção que quis conversar com Alexandre Fabian nesta edição. A Plaenge construiu uma trajetória que, em outra escala, também ultrapassou fronteiras: nasceu em Londrina, expandiu sua atuação para diferentes cidades brasileiras e chegou ao Chile, desenvolvendo empreendimentos que incorporam referências do morar brasileiro às particularidades de cada mercado.

São trajetórias distintas, mas conectadas por uma mesma questão: como uma identidade construída por meio da arquitetura, dos espaços e da forma de morar pode atravessar fronteiras sem perder sua essência? É essa perspectiva, entre arquitetura, identidade e expansão, que eu queria explorar nesta conversa.

A experiência internacional da Plaenge começou no Chile e exigiu entender outra cultura, legislação, clima e maneira de morar. O que o Chile ensinou que dificilmente vocês aprenderiam ficando só no Brasil? E existe algo da maneira brasileira de morar que você considera exportável?

O Chile nos ensinou a importância de estarmos sempre abertos a aprender e a nos adaptarmos. Atuar em outro país exige compreender hábitos, cultura, legislação, clima e formas de morar diferentes das nossas. Essa experiência ampliou nossa capacidade de observar e aprender.

Acredito que a forma brasileira de morar, que valoriza a convivência, a integração dos espaços e a alegria nas interações, foi um diferencial que levamos para o mercado chileno. A dimensão afetiva dos ambientes é um direcionador valioso para os projetos de lá. Nossos empreendimentos no Chile têm nomes brasileiros, e somos reconhecidos naquele país por levar o lifestyle leve e alegre dos brasileiros para o mercado imobiliário chileno.

Durante muito tempo, luxo imobiliário esteve associado a metragem, material nobre e localização. Hoje entram bem-estar, arquitetura, tecnologia, serviço e experiência. O que deixou de ser luxo, e o que passou a representar o alto padrão para o consumidor de hoje?

Hoje o luxo ganhou novos elementos, que englobam o design, a experiência, a valorização do cotidiano e o tempo de qualidade. É viver o dia a dia em ambientes com alta qualidade de design, ter tempo para estar com a família, receber amigos, cuidar de si mesmo e viver a casa de forma mais orgânica. Com menos excessos e mais protagonismo para a jornada.

As famílias estão menores, as pessoas mais ocupadas. O luxo passou a ser ter tempo de qualidade para si, se possível com algum contato com a natureza, conforto tecnológico, concierge e funcionalidades conectadas às áreas comuns, ao bairro e à longevidade.

Arquitetura e design deixaram de ser elementos apenas estéticos e passaram a participar da construção de valor de uma marca imobiliária. Em que momento um bom projeto deixa de ser design e passa a ser estratégia de negócio?

No nosso mercado, o produto é concreto, mas a decisão é emocional. As pessoas compram como desejam viver, por isso o design e a estética precisam influenciar e refletir essa percepção, essa escolha e esse valor.

Quando um projeto traduz valor, cria identidade e gera conexão com o cliente, ele deixa de ser design e se torna estratégia de negócio. Essa visão faz parte do nosso DNA de atuação no mercado imobiliário, e os nossos clientes e o mercado em geral reconhecem isso.

Ao entrar em São Paulo, você afirmou que só faria sentido chegar à cidade se a Plaenge pudesse entregar algo diferente do que já existia. Num mercado sofisticado, com excelentes arquitetos e consumidores cada vez mais informados, onde ainda existe espaço para surpreender?

São Paulo é um dos mercados mais sofisticados e exigentes do país. A Plaenge partiu da curadoria que desenvolveu ao longo de mais de cinco décadas, trabalhando com arquitetos, paisagistas e designers de grande relevância. E essa curadoria conta, especialmente, com a sensibilidade dos nossos gestores.

Por isso estimulamos nossos dirigentes a conhecer outros mercados, visitar projetos internacionais e ampliar constantemente seu repertório. Algumas vezes por ano, todos os anos, temos pessoal nosso visitando produtos imobiliários em outros países e trazendo novos insights para as nossas equipes. Acreditamos que o mercado de São Paulo tenha espaço para nossa proposta de edifícios de alta qualidade de concepção e execução, e de uma empresa séria que cumpre rigorosamente o proposto.

Grandes empresas trabalham com dados, projeções e processos estruturados, mas grandes movimentos também dependem de convicção. Qual foi uma decisão importante da sua trajetória em que os números diziam uma coisa e a sua convicção dizia outra?

Um exemplo importante aconteceu durante o boom de abertura de capital das construtoras na bolsa. Naquele momento, os números favoreciam um crescimento mais acelerado, com abertura de capital da Plaenge e maiores níveis de alavancagem. Mas nossa convicção era diferente.

Optamos por crescer de forma orgânica, mantendo controle dos processos, disciplina de custos e garantia de entrega. Essa decisão foi fundamental para preservar nossa independência e construir a solidez que caracteriza a empresa até hoje.

Trabalhamos diferente, envelhecemos diferente, convivemos com mais tecnologia e buscamos mais conexão com a natureza. Olhando dez ou quinze anos à frente, qual mudança no modo de morar você acredita que será mais profunda do que o mercado imagina hoje?