Uso de smartphones pode ser um fatores da queda na fecundidade; especialista do FGV/Ibre diz que Brasil envelheceu antes de ficar rico e pode começar a perder força de trabalho a partir de 2037 The post Taxa de filhos por mulher vem caindo. O que o iPhone tem…
O celular mudou radicalmente a forma de trabalhar, comprar e até de se relacionar, mas agora ele pode estar contribuindo também para outra transformação, bem mais profunda e com consequências econômicas de longo prazo: a redução do número de filhos.
Estudos recentes começam a encontrar evidências de que a disseminação dos smartphones reduziu a socialização presencial entre jovens e, ao lado dos novos métodos contraceptivos, ajudou a derrubar os nascimentos em todo o mundo. No Brasil, o fenômeno acrescenta uma nova camada ao problema, porque o país está envelhecendo rapidamente mesmo antes de ter alcançado o nível de renda das economias mais desenvolvidas.
A taxa de fecundidade brasileira caiu de 6,3 filhos por mulher em 1960 para 1,58 em 2022, segundo dados do último Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o economista Daniel Duque, do FGV Ibre, a projeção oficial indica nova redução para 1,47 em 2030 e 1,44 por volta de 2040. “Isso é muito abaixo dos 2,1 filhos necessários para a chamada reposição da população”, disse.
A mudança não significa simplesmente que haverá menos brasileiros. Ela altera a quantidade de pessoas disponíveis para trabalhar, produzir, consumir e financiar, por meio de impostos e contribuições, uma população idosa crescente. Duque estima que a população brasileira ocupada alcance seu pico por volta de 2037 e passe depois a diminuir. “A gente chega nesse ponto e, a partir daí, a população ocupada começa a cair em termos absolutos”, afirma Duque.
O problema brasileiro possui um ingrediente particularmente incômodo. Países europeus começaram a envelhecer depois de terem acumulado renda e capital durante décadas. O Brasil está percorrendo parte do mesmo caminho demográfico com uma economia muito menos produtiva e com menor capacidade de substituir trabalhadores por capital e tecnologia, como explica o economista.
“Se você pega o perfil demográfico do Brasil, ele está se aproximando muito rápido de países como França e Espanha, mas está muito longe de estar no nível de renda deles. Então, esse é um desafio adicional”, diz Duque.
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É nesse ponto que o smartphone entra numa história aparentemente distante da tecnologia. Um estudo divulgado em junho pelo National Bureau of Economic Research (NBER), nos Estados Unidos, explorou uma peculiaridade da chegada do iPhone ao mercado americano para tentar identificar seu efeito sobre os nascimentos.
Entre 2007 e 2011, os serviços garantidos pelo aparelho só eram oferecidos pela operadora AT&T. Como a qualidade da cobertura de internet móvel da empresa variava geograficamente, os pesquisadores conseguiram comparar áreas onde o acesso ao iPhone avançou mais rapidamente com regiões onde a expansão foi mais lenta.
Os resultados chamam a atenção. O acesso ao iPhone foi associado a uma redução de 4,5% a 8% nos nascimentos entre mulheres de 15 a 19 anos e de 3,2% a 6,6% entre aquelas de 20 a 24 anos, com efeitos menores, mas estatisticamente significativos, entre grupos mais velhos.
Pelas estimativas dos autores, a difusão do aparelho explicaria entre 33% e 52% da queda da taxa geral de fecundidade americana observada no período analisado.
Trata-se de um documento de estudo e, portanto, seus resultados devem ser lidos como evidência acadêmica em desenvolvimento, e não como uma explicação definitiva para a queda mundial da fecundidade. Mas o mecanismo encontrado pelos pesquisadores ajuda a entender por que se considera a tecnologia uma peça importante do quebra-cabeça, segundo Duque.
“Basicamente, as pessoas estão parando de socializar. Elas ficam no smartphone e saem menos. Com menos encontros presenciais também ficam menores as chances de novos relacionamentos que, posteriormente, poderiam resultar em filhos”, afirma.
Isso não significa que o celular sozinho explique por que as famílias estão menores. Escolaridade, urbanização, custo da criação dos filhos, participação feminina no mercado de trabalho, contracepção, adiamento da maternidade e mudanças culturais também entram nessa equação.
O efeito econômico da mudança demográfica ocorre por vários canais. O primeiro é relativamente simples: se a proporção de pessoas trabalhando diminui, a produção potencial também tende a ser afetada, a menos que cada trabalhador consiga produzir mais.
É aí que produtividade, automação e inteligência artificial deixam de ser apenas temas tecnológicos e passam a fazer parte da equação demográfica. Países desenvolvidos conseguem compensar parcialmente a escassez de trabalhadores com maior intensidade de investimentos em tecnologia. Também recorreram durante décadas aos imigrantes.
Para Duque, as duas saídas são mais difíceis para o Brasil. O país tem menor capacidade de acumulação de capital e não oferece salários tão elevados quanto economias desenvolvidas para disputar trabalhadores estrangeiros.
Pelas estimativas apresentadas pelo economista, a redução da população ocupada poderá representar, no longo prazo, um impacto próximo de 10% sobre o PIB. “Mesmo se a gente tivesse uma Previdência equilibrada, o custo do envelhecimento da população somado a essa falta de novos brasileiros devem gerar um custo econômico muito grande”, afirma.
Com menos trabalhadores e mais aposentados, a Previdência continuará sendo uma das faces mais imediatas do problema. Duque estima que o Brasil gaste hoje aproximadamente 12% do PIB com Previdência e alerta que, mantida a trajetória demográfica, essa despesa poderia se aproximar de 20% do PIB em cerca de duas décadas.
Nesse cenário, segundo ele, uma parcela crescente da arrecadação teria de ser destinada a aposentadorias e pensões, reduzindo o espaço fiscal para outras despesas. Ao mesmo tempo, o envelhecimento pressiona os gastos de saúde, que são maiores nas faixas etárias mais avançadas. Claro que todos esses números são apenas estimativas, mas que não ficam muito longe da realidade.




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