Principais candidatos ao Senado são entrevistados pelo Terra e apresentam propostas e prioridades para um eventual mandato

Em meio à crise no Supremo Tribunal Federal (STF), às discussões sobre corrupção e às articulações para as eleições de 2026, a candidata ao Senado por São Paulo Simone Tebet (PSB) defende mudanças no Judiciário, afirma que denúncias de crimes de responsabilidade contra ministros da Corte devem ser apuradas pelo Congresso e diz que “ninguém está acima da lei”. A entrevista foi concedida ao Terra no último dia 11 de setembro, antes do julgamento de Alexandre de Moraes, que terminou sem uma definição sobre uma possível investigação do ministro por elo com Daniel Vorcaro, do Banco Master. 

Atenta aos detalhes e incisiva nas respostas, Tebet aproveitou diferentes momentos da conversa para fazer críticas ao que chama de “lado de lá” e ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), além de citar suas prioridades para um eventual mandato e colocar sua posição sobre temas como aborto, castração química e redução da maioridade penal. A candidata do PSB ainda defendeu o equilíbrio entre a proteção ambiental e a produção, regras para o uso da inteligência artificial e medidas para enfrentar o endividamento público.

Confira os principais pontos da entrevista: 

Em meio à crise sem precedentes que o Supremo Tribunal Federal atravessa, a possibilidade de impeachment de ministros segue em discussão. Essa seria a melhor forma de apaziguar a situação? Para Simone Tebet, é difícil que o assunto seja pautado às vésperas da eleição, quando os parlamentares estão em busca de votos, mas ela ressalta não ver problema caso a questão seja levada ao Congresso.

A candidata entende que “ninguém está acima da lei e abuso de poder é abuso de poder”, seja na esquerda, no centro --no “centrão”, como diferenciou do centro-- ou na direita. “Para mim, corrupção precisa ser combatida porque ela mata o futuro do Brasil”, complementou. 

“É um combo. Nós precisamos de uma reforma do Judiciário, uma reforma política urgente, mas no caso específico do Judiciário. O Supremo Tribunal Federal tem que colocar um freio de arrumação urgente e imediato (...) É a discussão sobre crime comum de ministros. Se houve abuso, o Congresso Nacional tem a competência constitucional pelos crimes de responsabilidade” – Simone Tebet.

Tebet defende que a reforma no Judiciário discuta o fim de penduricários, o modelo de vitaliciedade com limite de idade e a dinâmica em torno de decisões monocráticas. “É o plenário do Supremo Tribunal Federal que pode, pela Constituição Federal, dar a última palavra”, aponta. 

“Ninguém pode dizer que vota a favor ou contra, sob pena até de não ser chamado para fazer parte da comissão. Porque ele [o senador] vai para a comissão para investigar o fato, e dizer se vota a favor ou contra. O que eu posso dizer é que as denúncias são seríssimas”, alega, defendendo que cabe a abertura de um processo do tipo na situação atual da Corte, que enfrenta pressão por investigação contra os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.  

Candidatos ao Senado chamam Tebet, que nasceu em Mato Grosso do Sul e construiu sua trajetória política no Estado, de forasteira por disputar o Senado por São Paulo. Ela rebate  as críticas e afirma que o Estado já demonstrou nas urnas que a reconhece: em 2022, quando disputou a Presidência, recebeu mais de 6% dos votos da capital paulista. “São Paulo já me abraçou. O resultado das urnas, pode ser bem sucedido ou não, é quem vai dizer se eu mereço ou não representar o Estado.”

Além disso, ela cita vínculos pessoais com São Paulo: tem filhas no Estado, nasceu na divisa com a região paulista e é casada com um paulista de Birigui. Tebet classificou que o discurso contra sua candidatura “cheira a xenofobia” e afirmou que São Paulo deve ser visto como um Estado formado por diferentes origens. “É a terra de todos”, afirma.

“Não deixa de ser um discurso que cheira a xenofobia. Aquele que acha que é elitista, que acha que São Paulo é só da carinha branca, daquele que nasceu paulista”.  - Simone Tebet

Questionada sobre a possibilidade de voltar a ocupar um ministério caso o presidente Lula seja reeleito, Tebet descartou a hipótese. “Vou ser senadora por oito anos”, afirma.

Apesar de hoje ser aliada do governo Lula e disputar o Senado em uma chapa encabeçada pelo presidente, Tebet já fez críticas duras ao petista quando ele era seu adversário --como com relação ao que chamou de “petrolão”, na Lava Jato. Agora, no mesmo lado, mantém as críticas que fez ao PT e aos casos de corrupção. “Corrupção não tem lado, corrupção não tem ideologia, não é de centro, não é de esquerda, não é de direita, pega todo mundo e precisa ser punido igual.”

Ao explicar sua aproximação com Lula, Tebet comparou o cenário de 2022 ao período de redemocratização do País. “Repetiu-se, em 2022, no meu ver, alguma coisa, claro que em outras proporções, parecida com o que aconteceu no período em que nós lutamos pela redemocratização do País. Sentaram-se à mesa os principais adversários, adversários ferrenhos, para, em nome de abrigar todo mundo em um único partido, o MDB, que era um partido radicalmente de centro, abrigar toda a esquerda que seria dizimada, inclusive com risco até de vida. Abrigaram, juntaram-se e lutaram pela democracia. E depois caminharam separados”, afirma ela.

“Há determinados momentos muito radicais em que a gente deixa as diferenças de lado se aquilo que nos une é infinitamente maior do que aquilo que nos separa” - Simone Tebet.

Mas, agora, considerando suspeitas de envolvimento de pessoas próximas do presidente a escândalos como o do INSS e do banco Master, reconhece que Lula e o PT têm credibilidade para discutir questões de corrupção? Coloca a mão no fogo? “Não é colocar a mão no fogo, eu não coloco a mão no fogo nem pelo meu marido. Só que tem uma diferença, o Jair Bolsonaro mudou o delegado-geral da Polícia Federal do Rio de Janeiro e caiu o Ministro da Justiça porque ele não deixou apurar os escândalos de rachadinha do filho dele, Flávio Bolsonaro. Ele interveio na Polícia Federal. E foram várias as vezes. Os esquemas de corrupção são sempre descobertos no governo presidido pelo Lula”. [...]. Em nenhum momento eu vi o presidente Lula interferindo na Polícia Federal para proteger o Lulinha. Pelo contrário, se tiver, vai pagar.”

O próximo presidente eleito poderá indicar ao menos três ministros por causa da aposentadoria compulsória de 75 anos –-o que atinge Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. E há também a cadeira vaga de Luís Roberto Barroso, que se aposentou antecipadamente e que Lula teve sua indicação, de Jorge Messias, rejeitada pelo Senado. Quem deve ocupar essas cadeiras?

Tebet espera que, de preferência, uma das cadeiras seja ocupada por uma mulher negra. “Depende de quem ganhar a eleição para presidente da República. Se for presidente Lula, sem dúvida nenhuma [uma mulher será indicada]. Nós nunca tivemos duas mulheres ao mesmo tempo. Aliás, só tivemos duas mulheres”, afirmou a candidata

Tebet, assim como Lula costuma dizerem seus discursos, fala sobre o “lado de lá” e diz que se a presidência foi ocupada por oponentes do petista não devem ser feitas indicações de mulheres --por mais que a oposição também defenda que haja mulheres na Corte. Ela cita a fala de Jair Bolsonaro, de que ter tido uma filha foi uma “fraquejada”, e de Flávio Bolsonaro, que teve suas filhas para poder ser cuidado na velhice. “DNA Machista.”

“O maior escândalo de corrupção da história do Brasil chama-se Banco Master. [...] Quando a gente vê de todos os investigados, denunciados, busca e apreensão é sempre homem, homem, homem, homem. De político é líder partidário homem, presidente partido homem, ministro supremo, todo mundo é homem. Ainda que apareça uma mulher, vai ser uma no universo de 100. O que reforça a importância de termos pelo menos 30% de mulheres na vida pública brasileira.” – Simone Tebet