Tati Bernardi entrevista escritor celebrado por 'O Adversário' e 'Ioga'
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18.set.2026 às 10h00 Atualizado: 18.set.2026 às 10h58
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Tão sexy quanto vincado, o rosto do premiado escritor, jornalista e roteirista francês Emmanuel Carrère finalmente surge na tela do Zoom. Eu não sabia se ele tinha visto o email com o horário da entrevista. Carrère demora muitos dias para responder mensagens, o que achei plausível para um autor do seu tamanho.
Está nos meus planos conversar sobre alguns dos seus lançamentos recentes no Brasil como "Colcoz" e "Ioga", que saiu em 2023, mas seus leitores gostaram tanto —até pelo barraco com a ex-mulher— que vai demorar para sair de moda. A obra de Carrère sai pela Companhia das Letras, e ele vem ao país na próxima semana para eventos que celebram os 40 anos da editora.
Antes de começar, preciso saber se ele acreditou mesmo que provocaria uma comoção masturbatória em um trem, como conta no livro "Um Romance Russo". Carrère de fato achou que leitoras ficariam enlouquecidas pelo seu conto erótico publicado em uma revista e correriam para banheiros públicos em busca do autoprazer?
O livro já tem mais de 20 anos. De lá para cá, ele retomou a amizade com a então namorada exposta na obra e obteve o perdão da própria mãe, que precisou lidar com os segredos familiares revelados pelo filho antes da morte dela.
Sua obsessão pela verdade não está apenas na escrita. Ele assume a fantasia controladora e machista do livro e ri, lamentando a imaturidade daquele momento (tinha a minha idade na época).
"Talvez eu acreditasse mesmo. O que mostra que era uma fantasia muito grande, um sonho de controle total, e isso é um absurdo. E, quando você tenta controlar as coisas assim, geralmente é o prelúdio de uma derrota global —que foi o que aconteceu, em grandes proporções."
Em uma obra de não ficção, contar a história como ela de fato aconteceu, incluindo casos de vaidade egocêntrica e megalomania sexista, é o que faz uma literatura ser de fato literatura e não mais um livro bonzinho com medo de cancelamento, correto? Pergunto a ele se é uma escolha difícil.
"Em ‘Um Romance Russo’ eu apareço sob uma luz terrível. Tudo bem, posso fazer isso comigo, quem se importa? Mas com a minha namorada, não! Eu a tratei muito mal nesse livro... Nós conversamos sobre isso depois. Hoje temos uma boa relação. Acho que houve algo bastante desagradável: eu a tratei como se fosse uma personagem de romance, e não um ser humano real. E acho que essa é a única vez, em toda a minha obra, que fiz alguma coisa da qual, sinceramente, me arrependo."
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Quanto a "Ioga", nem deu tempo de se arrepender de expor a ex-mulher: foi obrigado pela Justiça a tirar tudo sobre ela do livro. Mas Carrère assegura que não foi um advogado que o obrigou a nada. Disse que mostrou antes o livro para a ex-parceira e, em suas palavras, "ela disse que não queria existir no livro". Ele respeitou, apesar de saber que eram apenas relatos delicados, "cheios de uma tristeza amorosa".
Pergunto se a pane psiquiátrica que o levou a descobrir uma bipolaridade tipo 2 e a uma internação de quatro meses teve como gatilho esse divórcio ou, para um obstinado em escrever com honestidade, se o surto decorreu da castração de sua obra.
Ele se nega a responder, diz que "é preciso respeitar silêncio total sobre o assunto" e que o livro foi quem mais sofreu com o buraco que restou ali. Por outro lado, isso o ajudou a pensar que a obra se organiza justamente em torno da falta, daquilo que não pode ser contado. "Para mim funciona de um jeito um pouco estranho, mas funciona. E, na verdade, não tenho escolha a não ser considerá-lo dessa maneira."
Carrère garante não se irritar quando a pergunta é mais sobre a sua vida do que sobre o narrador das suas obras. Ele sabe que se pôs nessa situação e que não pode reclamar que os leitores e os jornalistas, de um modo geral, demonstrem interesse por sua vida.



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